31 Mulheres I Uma Exposição de Peggy Guggenheim
As duas salas do MUSEU DE ARTE CONTEMPORÂNEA MAC/CCB, Lisboa. apresentam a exposição singular: “31 Mulheres. Uma Exposição de Peggy Guggenheim”. Esta mostra destaca outra, que há 82 anos reuniu apenas mulheres artistas na galeria de Peggy Guggenheim, uma grande coleccionadorae mecenas.
Marguerite “Peggy” Guggenheim (1898-1979) foi uma das colecionadoras de arte e mecenas mais importantes do século XX. Em 1943, organizou, na sua galeria em Nova Iorque, “Exhibition by 31 Women”, uma das primeiras exposições dedicadas exclusivamente ao trabalho de mulheres artistas nos Estados Unidos da America.
Com a mostra, Peggy pretendia destacar as obras destas mulheres que eram frequentemente esquecidas pela mentalidade da época, que as reduzia ao papel de musas, imitadoras ou companheiras de célebres artistas homens. A reinterpretação da mostra de Nova Iorque pode ser vista no MAC/CCB até 29 de Junho.
Em 1941, Peggy Guggenheim, dona de uma das mais importantes colecções de arte do século XX, atravessou o Atlântico em direção aos Estados Unidos. Depois de alguns anos em Londres, onde, sob influência de Marcel Duchamp, começou a integrar-se no mundo das vanguardas artísticas e abriu uma galeria de arte, depois partiu para Paris, onde colecionou arte com o intuito de fazer um museu. Tal como tantos outros artistas e intelectuais fugidos da Grande Guerra que devastava a Europa, chegou a Lisboa no Verão de 41 e instalou-se durante algumas semanas no Grande Hotel Itália, no Monte Estoril, enquanto aguardava autorização para voar para os Estados Unidos.
Peggy foi acompanhada pelo alemão Max Ernst, fundador do movimento dadaísta com quem viria a casar e seu amante à época, o poeta e escultor Laurence Vail, primeiro marido de Peggy, os dois filhos de ambos, Sindbad e Pegeen, a então mulher de Vail, assim como os filhos do novo casal — e foi com este grupo que aterrou em Nova Iorque.
Logo no ano seguinte, com a ajuda de Alfred H. Barr, Jr., amigo, então director do MoMA, o museu nova-iorquino abria novamente uma galeria, à qual chamou “The Art of This Century”, que nesses primeiros anos de vivência de tantos expatriados que chegavam à América tornou-se um espaço fundamental de trocas e de encontros entre artistas e críticos de arte. A galeria ocupava um loft em duplex no último andar de um prédio numa das melhores avenidas de Manhattan — o número 30 da Rua 57 — e marcou o meio vanguardista com o seu projecto de interiores audacioso, desenhado pelo arquitecto austríaco Frederick Kiesler, revestido de paredes côncavas onde as obras sem molduras surgiam do tecto penduradas em roldanas e com móveis por ele desenhados expressamente para a galeria.
Foi neste espaço que se inaugurou em 1943 a primeira exposição dedicada inteiramente a artistas mulheres — “Exhibition by 31 Women” — com linguagens próximas da arte produzida pelos surrealistas e abstracionistas, mas onde, na maioria das vezes, ficavam afastadas para o plano de musas, mulheres ou amantes de artistas célebres, afirmando-se com este gesto Peggy Guggenheim como uma mulher de grande ousadia e liberdade. Entre as 31 artistas contavam-se nomes como a portuguesa Maria Helena Vieira da Silva, Djuna Barnes, a fascinante pintora e escritora Leonora Carrington, a pintora Xenia Cage, mulher do compositor John Cage (de quem se divorcia dois anos depois da exposição), a pintora e designer argentina Leonor Fini, a escultora Dorothea Tanning ou Frida Kahlo.
É precisamente este conjunto de artistas que se apresenta agora em “31 Mulheres. Uma Exposição de Peggy Guggenheim”, uma reinterpretação com curadoria da investigadora Patricia Mayayo, organizada a partir da colecção de Jenna Segal, produtora teatral nova-iorquina que desde 2020 tem seguido e coleccionado obras das artistas que fizeram parte da exposição de 1943.
A mostra é realizada em colaboração com a Fundación MAPFRE, surge no contexto da reorganização da colecção permanente, que sob o olhar e curadoria de Nuria Enguita, directora artística do MAC/CCB desde Março de 2024, e da curadora Marta Mestre, propõe novas leituras a partir de ruturas cronológicas e conceptuais entre artistas, devolvendo ao público um novo olhar da Colecção Berardo — onde se incluem obras das colecções em depósito Holma/Ellipse e Teixeira de Freitas, da Colecção de Arte Contemporânea do Estado, e algumas cedências de outras instituições, como é o caso da Fundação Gulbenkian. Esta exposição, que tem por título “Uma Deriva Atlântica. As Artes do Século XX”, atravessa uma época entre 1909 e 1975 e parte precisamente sobre a metáfora da travessia do Atlântico enquanto lugar fundamental de ruturas, exílios e recomeços. Lourdes Castro, Marcel Duchamp, Amadeo de Souza-Cardoso, Picasso, Modigliani, Malangatana, Louise Bourgeois, Jackson Pollock, Ana Hatherly ou Andy Warhol estão aí representados.
Em redor das mulheres
É também no contexto desta deriva transatlântica que teve lugar no decorrer da II Guerra Mundial, e onde se incluíram muitas das artistas convocadas pela galeria “The Art of This Century”, que surge a exposição “31 Mulheres”, ocupando cinco salas do mesmo espaço, interrompendo assim o percurso da colecção permanente.
Acerca da exposição agora patente no MAC/CCB, Nuria Enguita, curadora e directora artística do MAC/CCB, disse: “Temos um núcleo bastante forte de surrealistas e abstracionistas, mas as mulheres foram excluídas destes movimentos. Ao interromper o percurso cronológico da apresentação da colecção, a ideia foi, precisamente, colmatar esta ausência.”
Logo na primeira sala, que funciona como uma espécie de apresentação do programa do evento de 1943, mostra-se numa vitrina alguns documentos, como uma lista com o nome das participantes, ou uma página dando conta do evento no “The New York Times”. Num enorme mapa conceptual composto pelo rosto das artistas, exposto na parede, onde ao centro pontua a figura de Peggy, finos traços azuis desenham uma rede de relações entre elas, indicando numa breve nota o contacto com a coleccionadora e como tinham sido seleccionadas para expor na galeria. Emigra com Tangy para Nova Iorque em 1941 e integra-se no círculo de exilados em torno de Guggenheim, pode-se ler sobre Kay Sage, a artista surrealista de origem albanesa. Ou ainda a propósito de Helena Vieira da Silva: “Partilharam alguns círculos de amigos em Paris e foi adquirido um quadro de Vieira da Silva para a colecção de Solomon Guggenheim em 1937.” Nesta sala pode-se ainda uma galeria de belos retratos, onde a multidisciplinar e experimental Djuna Barnes se revela fotografada por Berenice Abbott, a francesa Valentine Hugo, pintora e ilustradora, amiga de Erik Satie e Jean Cocteau e que em 1936 participara na exposição de arte Dada e surrealista no MoMA, é fotografada por Man Ray, ou Maria Helena Vieira da Silva posa num retrato de Denise Colomb.
Na maioria das vezes, as mulheres ficavam sempre em segundo lugar. Com este gesto, Peggy, de as apresentar como artistas principais, ela afirmou-se como uma mulher de grande ousadia e liberdade
A exposição organiza-se a partir de secções temáticas. Na primeira, “O ‘Eu’ como Arte”, é a ideia de autorrepresentação, ou de biografia artística encenada, que ocupa a sala. Como refere Nuria Enguita, “muitas destas mulheres não eram só artistas visuais; vinham de campos como a poesia, o teatro ou a performance e produziam um trabalho global”, chamando-se a atenção para um autorretrato dadaísta encenado pela baronesa Elsa von Freytag-Loringhoven; um óculo minúsculo recortado na parede, numa espécie de peep-show; a famosa artista do vaudeville e do burlesco Gypsy Rose Lee; um desenho onde Leonor Fini, pintora e designer de origem argentina, se representa como uma mulher-armadura, e que para a directora é um dos quadros mais belos da exposição.
A secção seguinte, “Bestiários”, onde a temática surrealista se torna mais acentuada, explorada na representação de paisagens ficcionadas em traços e cores que misturam corpos humanos e bichos, como um pequeno desenho de um corpo decomposto de um veado, pronunciando já o realismo fantástico de Frida Kahlo, ou o movimento dos cavalos na composição de Leonora Carrington, numa estranha e bela paisagem lunar.
Recorrendo ao termo de Sigmund Freud, “unheimlich”, que se refere a “o inquietante” “para descrever o horror que se sente quando as coisas familiares adquirem subitamente características desconhecidas”, tal como nos é indicado no texto de apresentação da secção “Estranhamente Familiar”, pode-se observar um óleo de tulipas, que parecem querer explodir na tela de Anne Harvey, a artista que nasceu em Chicago durante os anos da Grande Depressão e foi para Paris, onde recebeu lições particulares de pintura e desenho de Fernand Léger e Brancusi ou o intrigante óleo sobre tela de Kay Sage, de um interior ocupado por uma escada onde dois vultos fantasmagóricos parecem habitar um território de desolação. No último capítulo, “O Caminho do Meio: Linguagens da Abstração”, pode-se admirar uma peça tridimensional em terracota pintada de negro de Louise Nevelson, a escultora de origem ucraniana que estudou em Nova Iorque e se veio a tornar, mais tarde, uma das mais consagradas artistas do expressionismo abstracto; um quadro de vidro pintado em tons de azul e traços geométricos, de Irene Rice Pereira, poeta, filósofa e artista norte-americana que nasceu num subúrbio de Boston no início do século XX e cujos textos e pinturas foram fortemente influenciadas pelas correntes de vanguarda de então; ou a delicada composição geométrica de Sophie Taeuber-Arp, que antes de chegar aos Estados Unidos fora professora na Escola de Artes e Ofícios de Zurique.
Apesar de estas peças de não serem as mesmas obras que habitaram a galeria de Nova Iorque, todas as artistas aqui expostas estiveram presentes e fizeram parte desse momento experimental e único. Nesta revisitação, é o traço sensível e original do movimento da vanguarda feminina que agora se revela, acrescentando à deriva atlântica um vento de alegria e espanto.
Theresa Bêco de Lobo