A Linha de Ouro I A Arte de Vestir do Norte da África ao Extremo Oriente
O Quai Branly Musée – Jacques Chirac, em Paris, apresenta a exposição: A Linha de Ouro. A Arte de Vestir do Norte da África ao Extremo Oriente”, uma mostra que explora a relação duradoura entre o ouro e as artes têxteis. A exposição pode ser admirada até 6 de Julho de 2025, traça a utilização do ouro nos tecidos desde o Magrebe até ao Japão, revelando o seu significado histórico e cultural.
Do Magrebe ao Japão, passando pelos países do Médio Oriente, Índia e China, a exposição traça a história milenar do ouro nas artes têxteis. Uma história fascinante de criação artística, de saber-fazer tradicional e de invenção técnica.
Com curadoria de Hana Al Banna-Chidiac e Magali An Berthon, este evento destaca a forma como o ouro simboliza o poder, a riqueza e o engenho artístico há mais de 7000 anos. Desde os antigos trajes funerários até à alta costura contemporânea, a exposição mostra a evolução dos tecidos em ouro através das civilizações.
Entre as peças de destaque encontra-se uma selecção de caftans de brocado do Magrebe, que reflectem uma tradição de opulência que remonta à Tunísia e a Marrocos medievais. Estas peças, tecidas com fios de ouro, exemplificam o rico património têxtil da região e a sua fusão de influências andaluzas e otomanas.
Outro destaque é a colecção de quimonos do Japão do período Edo, adornados com intrincados bordados a ouro e motivos de folhas. Estas peças ilustram o trabalho artesanal do distrito de tecelagem de Nishijin, em Quioto, onde os fios metálicos foram utilizados para criar tecidos luxuosos durante séculos.
A exposição apresenta também as criações vanguardistas da designer chinesa Guo Pei, cujos vestidos adornados a ouro fazem a ponte entre o artesanato tradicional e a moda contemporânea. Os seus designs elaborados, inspirados nas vestes imperiais, celebram o fascínio duradouro do ouro na era moderna.
Dividida em secções temáticas e geográficas, a exposição analisa a mestria técnica por detrás da tecelagem com fio de ouro, desde os saris de brocado indianos aos têxteis reais do Camboja. Explora também materiais alternativos que imitam o ouro, como a seda do mar e a seda de aranha dourada.
Através de artefactos históricos e obras contemporâneas, a exposição revela o percurso global do ouro na arte têxtil, oferecendo uma perspetiva deslumbrante do seu legado cultural.
Já no quinto milénio a.C., o ouro era utilizado para embelezar os primeiros tecidos de luxo destinados aos homens de poder. Ao longo dos séculos que se seguiram, hábeis tecelões e artesãos – romanos, bizantinos, chineses, persas e depois muçulmanos – utilizaram as técnicas mais engenhosas para criar verdadeiros tecidos de arte em que as fibras de seda ou de linho se entrelaçavam com fios de ouro e lamé.
Dos primeiros ornamentos cosidos nas vestes dos defuntos aos vestidos extravagantes da estilista chinesa Guo Pei, dos “caftans” de brocado do Magrebe e do Oriente às sedas do mundo indiano e indonésio, passando pelos quimonos cintilantes do período Edo, a exposição conduz o visitante numa viagem pelos fios de ouro, dividida em duas secções históricas e técnicas e cinco secções correspondentes a cinco grandes áreas geográficas e culturais.
Trajes do Magrebe
Os trajes apresentados nesta primeira secção geográfica – casaco (caftan), túnica, calças e colete – testemunham a quantidade cultural que caracteriza os países do Magrebe (Marrocos, Argélia, Tunísia). Esta região desde muito cedo caracterizou-se pelo
esplendor. No século X, a cidade de Mahdia, na Tunísia, era célebre pelos seus tecidos com fios de ouro e seda. Dois séculos mais tarde, sob a dinastia almóada, eram produzidos brocados de seda dourada nas oficinas de Marraquexe, em Marrocos, assim como em Málaga e Almeria na Andaluzia.
Após a queda de Granada, em 1492, os países do Norte de África acolheram muitos andaluzes, judeus e muçulmanos exilados, que trouxeram consigo não só novas modas de vestuário, mas também novas técnicas de tecelagem e de bordados a fio de ouro. A partir do século XVI, a expansão do Império Otomano deixou a sua marca no vestuário urbano desta região, que se inspirou nos estilos da Turquia.
Ouro, luxo e ostentação no Oriente
A segunda secção é dedicada a uma vasta região levantina que engloba o Egipto, o Líbano, a Turquia, o Iraque, o Iémen e o Irão. Com a expansão muçulmana pela
Ásia e África no século VII, o gosto pelo luxo e pelas roupas ricas espalhou-se por todo o novo império. Sob a dinastia abássida de Bagdade (750-1258), assim como os “Fatimidas” (969-1171) e os “Mamelucos” do Egitpo (1250-1517), as oficinas de tecelagem produziram tecidos finos adornados com ouro, alguns dos quais eram usados para vestir as mulheres da classe alta. Estes tecidos de luxo desempenharam um papel eminente não sónna Turquia otomana, mas também no Irão safávida (1501 a 1736) e Qajar (1786 a 1925), como testemunharam numerosos viajantes ocidentais, como Jean Thévenot e Jean Chardin.
Vestidos de cerimónia na Península Arábica
Esta terceira secção é dedicada a uma região que confina com a costa ocidental do Golfo Arábico. Apresenta uma rica selecção de vestidos festivos e de cerimónia confeccionados em seda fina e musselina, debruados a fio de ouro e lamé.
Estes trajes luminosos, influenciados pelos saris tradicionais indianos, apareceram, ao que parece, na viragem da década de 1940 no sul do Iraque, mais precisamente na região de al-Bassorah. A partir daí, esta moda espalhou-se pelos países da costa oriental da Península Arábica (Kuwait, Barém, Qatar, Emirados Árabes Unidos, Omã).
Estes vestidos são atualmente o principal vestuário tradicional das mulheres desta região e são conhecidos como ,” thod mufahhah” ou “thod al-Nahal.”
Vestidos com tecidos dourados no mundo indiano e do Sudeste Asiático
Esta secção centra-se na arte do drapeado caraterística das sociedades do Sul e do Sudeste Asiático. Para casamentos extravagantes, as mulheres indianas escolhem o ouro e vestem-se com os mais sumptuosos saris de brocado bordados com fios metálicos dourados.
Na Malásia e em Sumatra, na Indonésia, os “songket”, que são longos rectângulos de seda tecidos com ouro, são o traje de eleição para as cerimónias tradicionais. São usados como um sarongue à volta da cintura, como um envoltório assimétrico ou como um toucado habilmente atado à cabeça.
Por último, no Camboja e no Laos, o ouro é utilizado principalmente para vestir os membros da corte real, assim como os dançarinos da corte e os artistas de teatro, cujos trajes brilhantes, bordados e tecidos com fios de ouro, evocam as divindades dos panteões budista e hindu.
Trajes de ouro e seda na Ásia Oriental
A última secção leva os visitantes à China e ao Japão para explorar a história milenar
desta mistura excepcional de ouro e têxteis. Na China, as primeiras sedas decoradas a ouro datam das dinastias “Han e Jin” (206 a.C. a 420 d.C.). Fragmentos decorados com folha de ouro deste período foram encontrados em “Xinjiang”. Foi durante a dinastia Tang (618-907) e, sobretudo, durante as dinastias Liao (907-1125) e Jin (1151-1234) que se generalizaram os complexos tecidos de seda dourados (zhijinjin). O bordado com fios de ouro desenvolveu-se nas oficinas imperiais já na dinastia Tang e floresceu até ao século XIX.
Uma espetacular colecção de quimonos e cintos obi completam esta exposição. Originalmente uma simples peça de vestuário quotidiano, o quimono tornou-se uma peça de vestuário cerimonial altamente sofisticada a partir da era Muromachi (1336-1573). Cerca da primeira metade do período Edo (1603-1867), os quimonos foram cobertos com ricos bordados dourados e motivos em folha de ouro. Este capítulo aborda também a história de Nishijin, o bairro de tecelagem de Quioto, que era conhecido pelos seus tecidos enriquecidos com fios metálicos de ouro e prata
O percurso da exposição é pontuado por “bolhas” temáticas que conduzem os visitantes à descoberta de três materiais que parecem ouro, mas não o são: a seda do mar (ou fios de bisso de Pinna nobilis), a seda dourada da aranha tecelã de Madagáscar e a seda dourada do Camboja. A exposição termina com um destaque para o ouro nos bordados franceses e, mais especificamente, para a Empresa Lesage, que está envolvida nas melhores criações de alta costura há 100 anos.
Guo Pei, designer de moda chinesa
Esta exposição única foi concebida em estreita colaboração com Guo Pei, cujas 5 novas peças e 9 fatos actuais pontuam a exposição, interagindo com as obras têxteis expostas e valorizando-as.
Guo Pei, nasceu na China em 1967 e aprendeu desde muito cedo a arte da costura e dos trabalhos de agulha com a sua mãe. Na década de 1980, Guo Pei voltou-se para a indústria da moda, lançando o “Rose Studio”, um dos primeiros ateliers de moda por medida na China, aos 30 anos. Alguns anos mais tarde, passou a dedicar-se à alta costura. Inspirada na história do seu país e nas culturas do Oriente e do Ocidente, cria modelos que misturam seda, pedras preciosas, penas, pérolas e sobretudo muito ouro.
O ouro um material de excelência para todos os tipos de perícia, experimentação e tradição, é utilizado desde a Antiguidade para fabricar jóias, ornamentos e armas. Já no quinto milénio a.C., era utilizado para embelezar os primeiros tecidos de luxo para indivíduos poderosos.
Nos séculos que se seguiram, tecelões e artesãos habilidosos – romanos, bizantinos, chineses, persas e depois muçulmanos – utilizaram as técnicas mais engenhosas para criar verdadeiros tecidos de arte em que as fibras de seda ou de linho se entrelaçavam com fios e tiras de ouro.
Num diálogo entre as descobertas científicas e as perspectivas artísticas, esta exposição revela a beleza, a diversidade, a riqueza e o carácter técnico das peças de vestuário de uma vasta região que vai do Magrebe ao Japão, incluindo os países do Médio Oriente, a Índia e a China.
Theresa Bêco de Lobo