Educação I Dia Internacional do livro infantil

Educação I Dia Internacional do livro infantil

O dia 2 de Abril é, desde 1967, o dia internacional do livro infantil. Uma data que não foi escolhida aleatoriamente já que se pretendeu também homenagear aquele que é consensualmente um dos maiores nomes da literatura infantil, se não mesmo o maior. Hans Christian Andersen nasceu precisamente no dia 2 de Abril de 1805 no seio de uma família muito modesta. Elias Bredsdorff, conhecido biógrafo de Andersen, explicou que Hans vivera “no mais baixo nível social onde a miséria, imoralidade e promiscuidade se misturavam”. E não deixa de ser curioso o facto de, ainda de acordo com Elias Bredsdorff, a avó ter sido patologicamente mentirosa dado que o próprio Hans publicou 3 autobiografias e todas elas tendiam a distorcer os factos de sua vida. E afinal, um genial contador de histórias não será ele também um bom construtor de mentiras?

Hans  não se dedicou apenas ao universo infantil, mas foram as histórias recheadas de fantasia, desenhadas com palavras de algodão doce, por vezes agridoce quando eram atravessadas por momentos menos simpáticos, que o notabilizaram ainda em vida, apesar de mais tarde do que ele desejou. E não foi só o público infantil nem de lugares restritos que ele conquistou já que a sua popularidade não conheceu nem conhece fronteiras, etárias ou de outra natureza. O segredo para este tão alargado consenso talvez o possamos encontrar nos temas trabalhados que são universais e arrebatadores.

Autor de uma centena e meia de contos para crianças e adultos, Hans foi ainda poeta, artista, romancista, dramaturgo e narrador de viagens. Esteve cerca de 2 meses em Portugal, em 1866, a convite da família O’Neill, cuja amizade terá sido alimentada nos bancos da escola em Copenhaga. Durante a estadia, mais de metade passada em Setúbal, na Quinta dos Bonecos então propriedade da família, Hans regista as suas impressões sobre várias cidades portuguesas tendo publicado o livro “Uma Visita a Portugal em 1866 onde encontramos manifestações de assombro e conquista começando logo pela entrada no país depois de uma viagem atribulada por terra espanholas;

«Que transição, ao entrar em Portugal, vindo de Espanha! Era como sair da Idade Média para entrar no Presente».

Hans viveu uma época marcada pelas mudanças sociais emergentes de revoluções e de movimentos culturais pautados por nacionalismos que valorizavam tradições e encontro com a verdade profunda dos povos. A obra de Hans reflecte não apenas a sua própria singularidade de indivíduo marcado pela solidão porque nela também é possível ouvirmos com clareza o timbre conjuntural do tempo em que viveu.

Mas a história do livro infantil não se inicia com Hans. É necessário recuarmos até ao século XVIII para vermos nascer os primeiros livros direcionados ao público infantil pela pena imaginativa de escritores como La Fontaine e Charles Perrault. Desde então, a literatura infantil foi vivendo o seu processo de crescimento conquistando cada vez mais um espaço de relevo e um suporte fundamental na educação dos mais novos. Numa época em que a frequência das escolas era muito restrita e o analfabetismo era grande, os livros impressos eram um luxo de acesso limitado, mas as histórias que se escreviam recuperavam, em grande medida, muito do que era a tradição oral através da qual foram sendo mantidos vivos os contos tradicionais garantindo a sua disseminação geracional. Todos tinham um apelo aos valores morais considerando a criança como um ser a esculpir de acordo com os valores éticos da sociedade e a sua faceta didática-pedagógica seguia um padrão paternalista, estimulando a obediência. Quer fossem impressos em livro ou relatados oralmente, os contos faziam parte de uma literatura intencional, cujas histórias acabavam sempre com a vitória do bem porque a história tinha a finalidade única de educar, apresentar modelos, moldar a criança de acordo com as expectativas dos adultos.

Hans Christian Andersen e os irmãos Grimm, contemporâneos de um século (XIX) particularmente produtivo para o que muito contribuiu os movimentos nacionalistas exaltantes da cultura popular e tradicional, ficariam imortalizados pela grandiosidade das suas obras que também conheceram o aroma do Romantismo.

Hoje, a literatura infantil alcança uma maior amplitude temática onde talvez entre menos o fantástico, mas onde as rotinas e preocupações actuais se fazem reflectir procurando preparar a criança para um melhor entendimento do mundo. Com outro paradigma de pensamento, certamente, porém há um objectivo que as histórias infantis mantêm: Educar as crianças. Hoje, pretende-se não tanto a obediência acrítica, mas antes tornar a criança num indivíduo mais capacitado para agir e se envolver activamente nas dinâmicas do devir histórico. Por isso, o desporto, a escola, as alterações climáticas, os recursos digitais, os direitos humanos ou até preocupações com a saúde fazem-se ouvir em páginas onde a ilustração tem ganho cada vez mais destaque, muitas vezes em grave prejuízo da palavra escrita.

Tal como a sociedade do século XVIII percebeu a importância das histórias infantis, hoje é absolutamente claro o entendimento sobre o papel desempenhado pela literatura no desenvolvimento das crianças. Segundo Abramovich, quando as crianças ouvem histórias passam a visualizar de forma mais clara os sentimentos que têm em relação ao mundo. As histórias trabalham medos, sentimentos de inveja e de carinho, curiosidade, dor, perda. E esse é o universo de problemas que afectam os mais novos e que os atormentam. Ainda de acordo com o mesmo investigador, é através de um conto, de uma obra de literatura infantil/juvenil, que se pode aprender História, familiarizar-se com a Filosofia, o Direito, a Política, Sociologia, Antropologia, sem o formalismo de uma aula. Ao mesmo tempo que se apropria de informação, a criança é estimulada a um exercício de reflexão, comentando, questionando, construindo a dúvida como trampolim da próxima descoberta e assim vai construindo conhecimento. E nem será necessário salientar os ganhos alcançados nas interações verbais. Interações essas que vêm ao encontro das noções de linguagem de Bakhtin que defendia que o confronto de ideias tem sempre um carácter social.

Uma boa história, principalmente contada através de um livro cujas ilustrações representam uma oportunidade exploratória extraordinária, é assim um excelente ginásio cerebral. Para além das competências emocionais e intelectuais trabalhadas, a leitura aumenta em grande medida a capacidade de concentração e absorção de informação. Uma realidade universal e transversal ao longo da vida.

Neste sentido, quanto mais cedo a criança tiver contacto com os livros, maior será a probabilidade de ela se tornar um adulto que fará da leitura uma rotina.

Daí que se torne premente a valorização do livro quer no seio familiar, privilegiando a leitura em detrimento do jogo virtual ou da televisão, quer na escola onde as bibliotecas escolares por vezes parecem ter cada vez menos um papel de engrandecimento do livro e da leitura tornando-se mais um espaço de convívio ou de apoio educativo centrado em disciplinas específicas.

Paula Timóteo

Paula Timóteo

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *