O nascimento de Jesus há mais de 2000 anos tem sido provavelmente o acontecimento mais representado na arte pictórica e escultórica ao longo do tempo. A Natividade encerra em si um significado tão transcendente que não se limita ao universo dos crentes tornando a sua representação a mais emblemática e poderosa de todos os tempos. Atravessando os séculos e épocas culturais e artísticas, o nascimento de Cristo tem inspirado crentes e não crentes até aos dias de hoje.
De acordo com o padre António Pedro Boto, director do Centro Cultural do Patriarcado de Lisboa “Desde cedo a arte cristã usou a imagem do Menino para transmitir a mensagem evangélica, mas, acima de tudo, com carácter celebrativo. A imagem associa-se à celebração da fé, à vivência dos sacramentos e à projecção, na vida dos cristãos, desses acontecimentos da revelação. A figura de Cristo, representada inicialmente através de múltiplos símbolos e variados modelos iconográficos, ganha um relevo imprescindível.” (In Correio das Manhã 25.12.09). Com efeito, o tema da Natividade começa a ser registado desde os primeiros tempos do cristianismo. Segundo São Máximo, o Confessor, um monge, teólogo e mártir bizantino conhecido pela sua defesa inabalável da fé ortodoxa face às heresias do seu tempo e que foi uma das figuras teológicas mais importantes da Igreja cristã do século VII (580-662), Cristo recém-nascido é o centro para onde convergem todas as linhas do cosmos. Por isso, as primeiras imagens do seu nascimento colocavam em evidência a manjedoura onde Jesus descansava sendo que sua escolha não foi aleatória já que encerra em si um significado alegórico. A manjedoura é o lugar aonde os animais voltam sempre para se alimentar. Por isso, Jesus ali colocado representa o alimento espiritual que será consubstanciado no sacramento da Eucaristia além de, numa mensagem mais imediata e óbvia, representar a humildade e a proximidade com as pessoas simples do povo que serão, aliás, as primeiras a visitar o Menino.
Entre os séculos II e IV a arte Paleocristã é realizada nas catacumbas pelos motivos que todos conhecemos e nessas imagens, o tema é tratado de forma muito simples e minimalista, mas com elevada carga simbólica. Surge, obviamente, o Menino Jesus deitado numa manjedoura junto da Virgem Maria. Gradualmente a Virgem Maria irá reforçar a sua centralidade e surgirá sentada ou reclinada, mas revelando sempre uma expressão de grande serenidade. Surgem também o boi e o burro, como símbolos (Isaías 1:3: “O boi conhece o seu dono e o jumento o presépio do seu senhor”). Já São José é representado durante séculos numa posição mais secundária. Afastado da cena central ele aparece pensativo ou adormecido (símbolo da dúvida ou do mistério da encarnação). Das representações estão ainda ausentes os pastores, anjos, Reis Magos e o povo.
Do período da arte Paleocristã, surge aquele que é considerado até agora o afresco mais antigo com a imagem da Virgem Maria e o Menino Jesus à frente de Balaão, que aponta ao céu profetizando a vinda do Messias.

Maria com o Menino e Balaão século III Catacumba de Priscila Roma
A partir dos séculos V e VI, já num tempo em que o Cristianismo se consolidara como religião oficial, a iconografia enriquece-se e desenvolve-se introduzindo novos elementos e integrando ciclos da vida de Cristo. No mundo bizantino, entre os séculos V e XIII, a Natividade torna-se uma composição iconográfica bem codificada: Maria surge reclinada, o Menino deitado na manjedoura, São José, tal como já foi referido, é apresentado muitas vezes isolado surgindo como um ancião meditativo e todos os elementos são integrados numa gruta como espaço simbólico. O ouro de fundo, a hierarquia das figuras e a presença de anjos ajudam a angelicar o acontecimento.

Arte bizantina, 1025
No período gótico surgem narrativas mais ricas: peregrinos, cenas paralelas (Anúncio aos Pastores, Adoração dos Magos) e maior interesse pela emoção individual.

Púlpito de Pisano século XIII
No século XIII, Pisano recebeu uma encomenda para um batistério e nele irá realizar uma síntese entre o gótico dos escultores franceses e a narrativa mais clássica que persistia nos artistas italianos. No pormenor aqui reproduzido o canto esquerdo apresenta o anjo Gabriel dizendo à Virgem Maria que ela seria a mãe do Salvador. No centro da composição uma enorme Virgem Maria, deitada num estrado de cama, olha para a sua direita; São José encontra-se agachado no canto inferior esquerdo, enquanto Sant’Ana e uma mulher dão banho à criança recém-nascida. No canto superior direito a cena refere-se à anunciação dos pastores, mostrando o Menino Jesus numa manjedoura.
Surgem também as encenações vivas que mais tarde originarão o presépio como devoção pública. Na evolução da composição da representação da Natividade, vai ficando evidente que as representações da Natividade se vão tornando num ícone profundamente mariano à medida que a Virgem Maria vai ocupando definitivamente uma posição central. Até ao fim da Idade Média, as representações irão manter uma certa homogeneidade na organização e integração das figuras representadas com São José a manter uma posição mais tímida.
No início do século XIV, Giotto introduz alterações significativas tornando a narrativa mais realista. Desenvolve-se o sentimento humano e uma organização espacial (Maria, o recém-nascido, pastores, anjos) que denota um esforço para criar verossimilhança dramática apesar de São José se manter ainda num plano secundário.

Giotto, Nativity, (1304-1306)
A partir do século XIV surge uma representação mais individualizada do Menino Jesus que nos é apresentado adorado por Maria enquanto São José se mantém afastado. Uma posição que irá manter até por volta do século XVI quando começa a ser incluído nas imagens de forma mais explicita.
O maior protagonismo de São José irá também ser acompanhado por uma mudança na sua imagem que passa a ser apresentado como um homem mais novo em oposição à do idoso de cabelos brancos que até então surgira. A comparação entre a Natividade de Piero della Francesca do século XV e a de Jacopo Tintoretto do século XVI ilustra exactamente esta mudança.

Piero della Francesca Natividade (1470-1475) National Gallery Londres com S. José num plano menos central atrás de Maria

Jacopo Tintoretto. Natividade. (1550-1570). Museum of Fine Arts. Boston, EUA
Será a partir do Renascimento que artistas como Rafael, Leonardo entre outros, nos passarão a oferecer obras onde o cuidado com o equilíbrio, a luz e as proporções irão imprimir um carácter de esplendor clássico e profundidade psicológica.
A Natividade passará a apresentar-se como um episódio histórico plausível, ainda que carregado de simbolismo cristão e referências iconográficas explícitas.

Gentile da Fabriano, Adoração dos Reis Magos, 1423
Devemos aqui dedicar alguma atenção às restantes figuras que costumam integrar a representação do nascimento de Cristo porque elas possuem o seu próprio simbolismo. Os pastores surgem mencionados na narrativa do Evangelho de São Lucas como tendo sido os primeiros a receber o anúncio do nascimento de Jesus por parte dos anjos e encarnam conceitos como a humildade e a simplicidade. Eles são o povo que vive no campo, os invisíveis, mas fundamentais da sociedade, os que menos têm, mas mais dão, os puros e os que confiam e possuem a capacidade da fé absoluta. Surgem com cordeiros que é a alegoria de Cristo “Eis o Cordeiro de Deus”. Eles são o povo que Deus elegeu e convidou a ir à presença do seu Filho.
No Evangelho de São Mateus, surge a menção aos Magos do Oriente que seguem uma estrela até Belém para adorar o Menino. Importa referir que o termo “mago” tem origem no persa antigo e é atribuído a uma casta sacerdotal do zoroastrismo que estudava astronomia e astrologia o que torna consistente a história de seguir uma estrela interpretando os sinais celestiais. Mais tarde, surge na tradição cristã a interpretação de que eles eram “reis” sustentando-se esta nuance nas passagens do Velho Testamento que previam que reis de outras terras iriam adorar o futuro rei dos judeus. Assim, em claro contraste com a simplicidade dos pastores, apresentam-se os Reis Magos que simbolizam a humanidade em busca da Salvação e do Bem, mas igualmente a sabedoria humana, porque eram estudiosos, que perseguem a verdade. Com eles há um reconhecimento de Cristo como rei universal e por isso vêm de longe para adorar o Messias, mostrando que a salvação é para toda a humanidade, não só para os judeus.
Na iconografia cristã (pintura, escultura, ícones) Pastores e Magos passam a surgir juntos, formando um quadro simbólico de universalidade e unidade.
A Natividade é a cena anunciada por São Lucas como uma grande alegria trazida ao mundo e de facto as diversas representações apresentam o acontecimento pleno de uma emoção mal contida e gradualmente marcado por referências e marcas de uma opulência que contrasta com a carga simbólica de grande simplicidade que Cristo carrega. Não é por acaso que, sobretudo na arte bizantina, o nascimento surja como tendo acontecido numa gruta de montanha que representa um dos lugares privilegiados das Sagradas Escrituras para as revelações de Deus, porém a gruta é o ponto mais baixo da kenosis divina, pois a escuridão é o símbolo do pecado. Jesus nasce nesse lugar sombrio, aquecido pelos animais, porque veio assumir para si o mal do mundo descendo ao mundo com a humildade que o misto da sua condição divina e humana lhe confere.
Ao longo dos séculos XVII e XVIII chegam até nós inúmeros e ricos exemplos destas características associadas ao culto do Menino e à expressão devocional embora importa não esquecer que as imagens do Menino que são apresentadas correspondem, em muitos casos, aos desejos dos encomendadores.

Philippe de Champaigne, La Nativité de la Vierge, 1638
Em Portugal, a pintura deste século conserva algumas representações natalícias impressionantes com fortes contrastes de sombras e luz, tendo Josefa de Óbidos (1630-1684) tratado o tema de forma invulgar ao incluir numa cena da Natividade apenas as figuras de São Francisco de Assis e de Santa Clara adorando o Menino Deus, numa referência simbólica à reconstituição do primeiro presépio.

Josefa de Óbidos, Natividade, 1667
Em 1828, Domingos Sequeira que se encontra em Roma realiza a Adoração dos Magos a que é considerada a mais emblemática e bem conseguida obra de um conjunto de quatro pinturas religiosas que representa um verdadeiro testamento artístico. Notável pelo extraordinário tratamento plástico das figuras, composição cénica e luz transcendente, esta é uma obra que retrata a chegada do cortejo do Reis Magos a Belém. Em 2016 concluiu-se com sucesso uma campanha de angariação de fundos que permitiu a aquisição da obra pelo Museu de Arte Antiga.

Domingos Sequeira, Adoração dos Magos, 1828
Mas, independentemente da época e marcas culturais de tempo e lugar, a representação de Jesus Cristo foi sempre um elemento absolutamente central na iconografia cristã. Uma gramática simbólica que recorrendo ao Belo apela à fé na dimensão divina de um menino que traz consigo uma mensagem de Amor e Compaixão universais.
Mas, se durante mais de mil anos os artistas eram simples artesãos, que trabalhavam para a Igreja, coroa ou famílias nobres e obedeciam, de certa forma, aos cânones estabelecidos para realizarem as suas obras, após o Humanismo e o Renascimento italiano, a arte passou a ter assinatura e gradualmente os artistas foram conquistando a sua individualidade e notoriedade. A pintura e a escultura deixaram de ser as “artes oficinais” que haviam sido e que resultavam de encomendas que estabeleciam um guião a cumprir. Com o tempo, os artistas foram conquistando um estatuto nobre, de quem segue e concretiza a sua ideia, aproveitando a viagem luminosa do racionalismo Humanista, muito embora continuassem a ser apoiados por mecenas. No Barroco a Natividade ganha teatralidade: contrastes fortes de luz e sombra, movimentos dramáticos e ênfase na afetividade. Artistas como Rubens acentuam gestos, corporeidade e o papel da Virgem como mãe humana e mediadora divina — a cena envolve o espectador num momento de êxtase devocional.

Peter Paul Rubens, Adoração dos Reis Magos, 1633-1634
A arte da Igreja vai aos poucos assumindo um carácter naturalista e com o princípio da perspectiva as figuras tomam o seu lugar no espaço de uma forma compreensível e realista ao mesmo tempo que todo o ambiente se articula numa nova lógica cenográfica e os fundos, que representavam o Paraíso onde a luz nunca se apaga e não há sombra, passaram a dar lugar às paisagens naturalistas. Os artistas passam a retratar o ambiente quotidiano, o céu agora é azul, como é na Terra e os personagens apresentam-se segundo os costumes da época. A arte vai deixando de ser absoluta e exclusivamente litúrgica para se tornar arte com tema religioso.
Vamos assistir a um ecletismo de linguagem artística que tanto retoma um discurso estético mais clássico como integra o tema litúrgico nas concepções e tendências vanguardistas da época.

Be Be ( A Natividade) Paul Gaugin 1896 Museu Hermitage
No Renascimento a arte alcançou o ápice da perfeição estética, isso é inegável, porém há um outro lado a ser observado: o aspeto litúrgico. Na verdade, a partir dessa época a arte tornou-se, em termos de referências e linguagem estética, mais próxima dos leigos, dos espaços laicos e públicos como os salões e palácios, mas para muitos autores houve um empobrecimento gradativo da visão teológica, litúrgica.
O Concílio Ecuménico Vaticano II, convocado pelo Papa João XXIII e que decorreu entre 1962 e 1965, iria debruçar-se, entre outros assuntos, sobre a importância das artes como serviço litúrgico, preocupação essa que surge documentada. Em conformidade e fortalecendo a análise conciliar, surgiu ainda em 1965 a “Mensagem aos Artistas” pelo Papa Paulo VI, sucessor de João XXIII e, em 1999, a “Carta aos Artistas” do Papa São João Paulo II.
Ainda em consequência do evento surge um movimento marcado pelo lema “Um regresso às fontes” em queCristo volta a tornar-se a presença e o centro da toda a Igreja. Muitos artistas entenderam e incorporaram as orientações conceptuais, como é o caso do artista de S. Paulo, Cláudio Pastro (1948-2016), considerado o maior artista de arte sacra do Brasil, que se inspirou na arte paleocristã, Bizantina, Românica e na arte Moderna em estreito diálogo estético com os documentos conciliares. Cláudio Pastro enfatizava o divórcio existente na arte sacra atual, entre a forma e o conteúdo e, nos seus livros publicados, trabalhou e privilegiou temas que destacavam os conceitos de Imagem, Espaço, Arte e Beleza.
Na Europa, o padre jesuíta esloveno Marko Ivan Rupnik (1954-) que passou a dirigir o Centro de Arte Espiritual Aletti (Roma) desde que revestiu as paredes da Capela Redemptoris Mater no Vaticano a pedido do Papa São João Paulo II, tem realizado mosaicos em comunhão com outros artistas de várias nacionalidades em igrejas, catedrais e santuários da Europa, Américas e Austrália.

Marko Ivan Rupnik. Natividade. 2011. Batistério da Catedral de São Sebastião. Bratislava, Eslováquia
Muitos artistas contemporâneos que se dedicam à arte sacra já aderiram à simplicidade iconográfica sugerida pelos documentos sem abdicar de uma simbiose entre a gramática simbólica e a estética, o espiritual e o terreno, o passado que se distancia e um presente a ele ligado.
Terminamos com as significativas palavras de Marc Chagall nascido em 1887, em Vitebsk, na Rússia (hoje, Bielorrússia): «Tudo o que posso fazer é trabalhar para a arte. O resto é feito por Deus. Continuo a não ter teoria para explicar o meu método de trabalho. Não tentei seguir qualquer teoria. Deus criou o Homem sem uma teoria e a arte é melhor quando é criada sem uma teoria. Tudo o que posso fazer é trabalhar para a arte. O resto é feito por Deus.»
Paula Timoteo

