Amaro della Quercia I O Desenho como uma Devoção

Um dia, um frade que observava Amaro della Quercia, disse-lhe que desenhava como quem rezava. Amaro entendeu então “que o desenho podia ser uma forma de oração, uma escuta do mundo e do humano”.

Amaro della Quercia I Foto: José Luís Teixeira

Amaro della Quercia nasceu em Vila Nova de Famalicão há 43 anos no seio de uma família onde o “respeito quase sagrado pelo esforço e pelo detalhe” terá sido determinante para que no “território solitário e fértil da infância” encontrasse o seu caminho, aprendesse a luz e a sombra ou os opostos que a vida contém e tenha feito do traço e das linhas desenhadas ou riscadas a sua maneira de falar sobre o mundo e com o mundo.

Confessa que ser artista não é uma escolha, mas um “estado de necessidade” e defende que os artistas devem manter a lucidez para que vejam e escutem “o que muitos preferem ignorar”. Amaro della Quercia cumpre-Se por inteiro no que faz e encontrou no desenho a linguagem perfeita para traduzir os caminhos múltiplos e as nuances polissémicas da existência humana. Confessa um desejo: o de tornar visível o invisível porque para ele a arte “muda o modo como o mundo é percebido.”

Amaro della Quercia desenha como quem desvenda o insondável oferecendo o “reconhecimento de nós próprios” através dos seus desenhos.

Num momento em que prepara uma investigação sobre o tema da “figura em desaparecimento” continuando a desenvolver o ciclo de desenhos “Ritos de Carne e Papel”, estivemos à conversa com Amaro della Quercia, uma extraordinária revelação para quem ainda não o conhece. Não apenas pela obra que apresenta, forjada numa
gramática singular e onde reconhecemos uma “escuta amorosa do mundo”, mas também pelo seu discurso inteligente, profundo e pleno de significado.

Que primeiras memórias tem de si a desenhar?

As minhas primeiras memórias de desenhar confundem-se com as da própria infância, como se o desenho tivesse sempre estado ali, à espera de um gesto. Sempre fui uma criança reservada e tímida, e talvez por isso procurasse o isolamento como espaço de conforto. O desenho tornava-se então o meu refúgio, uma forma de ocupar o tempo e, ao mesmo tempo, um modo de diálogo com o mundo. Desenhava as figuras que inventava ou copiava de livros e revistas, e através delas construía uma espécie de companhia silenciosa, um universo íntimo onde podia existir sem constrangimentos. Com o tempo, compreendi que o desenho não era apenas passatempo, mas linguagem: uma forma de pensar, de sentir e de dar corpo àquilo que não sabia ainda dizer.

Penso que foi aí, nesse território solitário e fértil da infância, que começou a nascer o meu modo de estar no mundo, através da linha, do traço e da escuta atenta do que o silêncio tem para revelar.

Fale um pouco da família e de como era a dinâmica familiar.

Nasci numa família sem tradição artística marcada, mas profundamente sensível à beleza das coisas simples. O meu pai era um homem de gestos práticos; a minha mãe, uma mulher de delicadeza discreta. Entre ambos aprendi o valor do silêncio, da observação e do trabalho dedicado.

Não havia em casa muitos livros de arte nem grandes referências culturais, apenas algumas noções gerais de arte universal, mas existia uma curiosidade natural, um respeito quase sagrado pelo esforço e pelo detalhe. Creio que daí nasce a minha atenção ao quotidiano e à humanidade comum, que atravessa tudo o que faço. O pseudónimo artístico italiano (della Quercia) é, na verdade, uma tradução do meu apelido português, escolhido no primeiro ano em que estudei no AR.CO (Centro de Artes e Comunicação Visual), em Lisboa. Contudo, a ligação com Itália tornou-se verdadeira apenas mais tarde, após concluir os estudos em Artes Plásticas. Senti então a necessidade de trabalhar as minhas referências, de desenvolver uma linguagem própria, de me conhecer como pessoa que sente e produz, que reflete, questiona e procura traduzir para o papel aquilo que o pensamento e a emoção não conseguem exprimir apenas por palavras. Foi em Itália que compreendi que a arte podia ser um ofício espiritual: uma forma de comunhão entre o sagrado e o humano, entre o passado e o presente, entre a transcendência e o quotidiano.

Em criança, tudo servia de matéria à imaginação, um galho podia ser uma espada, um lápis, um universo. Creio que foi essa infância despojada que me ensinou que a criação nasce mais da carência do que da abundância.

Quando decidiu que o caminho era assumir-se como artista?
Creio que nunca houve uma decisão propriamente dita, antes uma lenta revelação, um reconhecimento íntimo de que o desenho era o único modo possível de estar no mundo. Concordo com Julião Sarmento: não se escolhe ser artista, descobre-se que já se é. Há em nós algo que, desde cedo, reclama forma, corpo, linguagem e que nenhuma outra atividade consegue satisfazer.

Ser artista não é uma opção de carreira, é um estado de necessidade. É um modo de sobreviver ao excesso de realidade e de devolver-lhe sentido. É um ofício de lucidez e de ferida: exige entrega total, uma vulnerabilidade que é também coragem.

Em Portugal, essa escolha, ou melhor, essa fidelidade, carrega um peso particular. O país tem uma relação ambígua com a arte: admira-a, mas teme-a; reconhece-lhe valor, mas raramente lhe concede lugar. Assumir-se artista aqui é um gesto quase ascético, implica aceitar a solidão, o risco e a invisibilidade.

Ainda assim, é nesse espaço de incerteza que reside a liberdade. O artista, ao desenhar, afirma a possibilidade de outro olhar, de outra respiração. É uma forma de amor pelo mundo, mesmo quando o mundo não o retribui.
Ser artista é, para mim, um acto de resistência e de devoção, uma fidelidade ao espanto e à beleza, mesmo quando ambos parecem ausentes.

Há alguma explicação para a opção da simplicidade do carvão sobre papel em contraste com as grandes dimensões que me parece ser a regra geral?

O carvão é, para mim, uma matéria primordial do desenho, o regresso à origem, àquilo que é mais elementar e sincero. É pó, é terra queimada, é o vestígio do fogo. Trabalhar com carvão é lidar com a fragilidade da matéria e com a sua força arcaica: cada traço é uma respiração entre a presença e o desaparecimento.

Mas não trabalho apenas com o carvão: uso também a tinta-da-china, a grafite e, no fundo, todos os riscadores que me permitem desenhar. O gesto é o mesmo, o de riscar, ferir, revelar a forma a partir da matéria. Cada material tem a sua temperatura e a sua música: a tinta-da-china impõe precisão e fluidez, a grafite traz a vibração da carne, o carvão oferece densidade e sombra.

A escolha do papel e desses materiais nasce da tensão entre o efémero e o essencial. São suportes humildes, silenciosos, quase ascéticos, mas capazes de uma intensidade absoluta. O papel é a pele onde a ideia se manifesta; o risco, o sopro que a anima.

Embora muitas das minhas obras se estendam em formatos amplos, onde o corpo inteiro participa no gesto e o desenho se torna quase litúrgico, trabalho também com formatos mais pequenos, onde a escala muda e a relação com o espectador se torna íntima, quase confidencial. No desenho de menor dimensão há uma respiração diferente: o olhar aproxima-se, o tempo abranda, e o gesto ganha a delicadeza de quem toca algo frágil.

Creio que tanto a monumentalidade como a contenção correspondem a estados interiores distintos: uma responde à necessidade de confronto, a outra à de recolhimento. Ambas, porém, partilham a mesma origem, o desejo de inscrever o humano no seu limite, de tornar visível o invisível.

O desenho, assim, é um corpo que respira, uma oração em pó.

Por aquilo que já expressou numa anterior entrevista existe uma marcante componente espiritual / religiosa na sua obra. Sempre se sentiu conectado com o Cristianismo ou essa foi uma descoberta mais tardia? O Centro de Estudos Bíblicos que frequenta apresenta leituras críticas sobre a forma como a Igreja enquanto instituição interpreta o Evangelho e aplica os seus princípios. Revê-se neste caminho?

Durante grande parte da minha vida, a religião esteve longe dos meus horizontes. Fazia parte de um mundo distante, um universo de ritos e códigos que eu observava com respeito, mas sem verdadeira pertença. Só mais tarde, já como artista, essa distância começou a transformar-se em curiosidade.

Foi a experiência conventual, o período em que vivi como artista residente numa instituição religiosa, que me permitiu descobrir um mundo vasto e inesperadamente fértil. Ali, o tempo tinha outra densidade, e o silêncio era matéria viva. Foi também através da convivência com a liturgia, com o estudo e com o quotidiano dos frades, que percebi que a espiritualidade podia ser uma forma de conhecimento e, sobretudo, de criação.

O Centro de Estudos Bíblicos de Montefano veio aprofundar esse caminho. A leitura crítica das Escrituras revelou-se para mim não apenas um exercício intelectual, mas uma fonte de liberdade interior. A Bíblia, mais do que um texto religioso, tornou-se um território simbólico e humano, onde a dimensão divina se manifesta através do amor, da compaixão e da beleza. É ali que encontro os temas que mais me tocam: o amor que se faz gesto, a bondade que resiste, a caridade como forma de presença no mundo.

Revejo-me nessa forma de fé que não se impõe, mas que questiona; que não aprisiona o pensamento, mas o liberta; que se renova na escuta e no respeito pelo outro.

Hoje compreendo que o Cristianismo, lido à luz da sua dimensão poética e ética, é também um espaço de criação. O artista e o crente partilham a mesma inquietação, a de procurar o invisível através da matéria. O meu desenho, nesse sentido, tornou-se a minha forma de oração: não uma prece, mas uma escuta amorosa do mundo.

O que é que mais o incomoda no mundo atual?
Incomoda-me a velocidade, essa forma moderna de indiferença. Vivemos num tempo que consome tudo com pressa: as ideias, as imagens, os afetos. A aceleração tornou-se o novo vício coletivo, e com ela perdemos a capacidade de contemplar, de escutar e de cuidar.

Sinto que o mundo atual confunde ruído com presença e visibilidade com valor.

As pessoas falam muito e dizem pouco; mostram-se, mas raramente se revelam. A arte, a política, a vida quotidiana, tudo parece contaminado por uma superficialidade que esvazia o sentido das coisas.

Mas o que mais me fere é a violência, essa violência gratuita e desmesurada do homem contra os seus semelhantes. Uma violência que não se manifesta apenas nos conflitos armados, mas também nos gestos quotidianos, na linguagem, nas relações humanas. É uma brutalidade subtil e persistente, muitas vezes travestida de indiferença.

Essa incapacidade de reconhecer o outro como semelhante é, talvez, o maior fracasso do nosso tempo. Falta-nos compaixão, escuta, e sobretudo o sentido de limite, esse reconhecimento de que a vida do outro tem o mesmo valor que a nossa.

A arte, quando é verdadeira, continua a lembrar-nos disso. Através do desenho, procuro restituir humanidade aos rostos que o mundo esquece, devolver peso e dignidade à fragilidade.

Acredito que a beleza pode ser uma forma de resistência, uma luz que se opõe à violência, uma ternura que salva, mesmo que por instantes, o que em nós ainda é humano.

Viveu durante 5 anos num mosteiro e diz que sentiu um renascimento. Pode explicar melhor? Foi a partir daí que a Bíblia se tornou a sua grande fonte de inspiração? (O que mudou em si e de que forma isso se refletiu na sua arte? Nos temas, no traço, na técnica…?)

A experiência conventual foi, sem dúvida, uma das etapas mais transformadoras da minha vida. Cheguei ao Montefano com a intenção de trabalhar o meu referencial artístico, mas acabei por ser trabalhado pelo próprio silêncio, pela rotina e pelo tempo. Ali o tempo não era linear, mas circular, respirava, como se tivesse corpo e memória. Foi nesse compasso mais lento que aprendi a escutar o que em mim permanecia em silêncio ou adormecido.

Falar em “renascimento” é talvez o modo mais justo de o descrever. Nesse período, a arte e a vida reconciliaram-se. A convivência com os frades, o convívio quotidiano, a partilha das refeições e dos gestos simples despertaram em mim um sentido profundo de humanidade. Percebi que o sagrado não está apenas nas
Escrituras, mas na vida concreta: nos rostos, nas mãos, na ternura e até na dor.

Mais do que a Bíblia, embora ela tenha sido um instrumento de leitura e reflexão, foi a vida humana que se tornou o centro da minha inspiração. As emoções, as expressões, os sentimentos mais próximos da tristeza, da perda ou da compaixão tornaram-se a verdadeira matéria do meu trabalho. Descobri que o sofrimento pode
conter uma beleza silenciosa, e que compreender o outro é uma forma de amor.

A partir daí, o meu desenho mudou: tornou-se mais interior, mais compassivo.

As figuras que surgem nas minhas obras já não representam, confessam. São fragmentos de uma humanidade ferida, mas viva.

O renascimento foi, portanto, este: o de olhar o humano com piedade e gratidão, e transformar essa visão em imagem. Desenhar, desde então, é o meu modo de amar o mundo.

Por isso digo muitas vezes que: Nasci em Portugal, mas renasci em Itália.

Quais eram as interrogações que o levaram a procurar essa experiência?
Encontrou respostas? Recorda algum episódio marcante nessa experiência?

O que me levou ao convento não foi a fé, mas a necessidade do encontro e, de certa forma, de sobrevivência. Sentia que me isolava demasiado, fechado no meu próprio mundo, e tive a nítida sensação de que, se morresse naquele momento, ninguém se aperceberia. A ideia de viver em comunidade surgiu então como uma urgência vital: reaprender a partilhar, a escutar, a estar com os outros.

O convento deu-me isso, um tempo humano, circular, onde o silêncio não era ausência, mas presença viva. As interrogações que me levaram até lá, o sentido da vida, da criação, da dor e da beleza não encontraram respostas, mas transformaram-se em matéria de consciência. Descobri que o essencial é permanecer dentro das perguntas, com humildade e atenção.

Recordo um momento que guardo com ternura: enquanto desenhava em silêncio, o frade Alberto Maggia disse-me: “Desenhas como quem reza.” Só mais tarde percebi o alcance da frase. Foi ali que compreendi que o desenho podia ser uma forma de oração, não uma súplica, mas uma escuta do mundo e do humano.

Em Itália o que viu, que experiências artísticas o marcaram, viagens que fez…

Itália foi uma experiência formativa no sentido mais amplo do termo. Viver entre cidades que são, por si só, tratados de história, arte e arquitectura é confrontar-se diariamente com a ideia de continuidade cultural. Ali, a arte não está confinada aos museus, integra o tecido da vida. Cada fachada, cada ruína, cada fragmento urbano é um palimpsesto de séculos de pensamento e de criação.

O património italiano ensina-nos algo que em Portugal, por vezes, esquecemos: que a beleza é um trabalho de persistência. Em Itália, a história é visível, mas sobretudo habitável. Caminhar por Florença, Roma ou Urbino é participar numa herança coletiva que se renova no olhar de cada visitante. Foi essa densidade de estratos históricos, estéticos e humanos que me marcou profundamente.

Mais do que uma epifania estética, foi uma educação do olhar. A proximidade física com obras de Giotto, Piero della Francesca, Masaccio ou Morandi transformou a minha relação com o desenho e com o espaço. Compreendi que a arte é uma forma de pensamento visual e que cada obra é um diálogo entre o tempo e a matéria.

A arquitectura, em particular, revelou-me a importância da proporção, da escala e do vazio. Aprendi a pensar o espaço não apenas como cenário, mas como presença.

Viajar por Itália foi, no fundo, um exercício de escuta: da pedra, da luz, da memória. Tudo ali parece ensinar que o artista não cria do nada, mas a partir de um imenso património de gestos, de formas e de silêncios acumulados. Essa consciência histórica tornou-se, desde então, um dos pilares da minha prática, a ideia de que
desenhar é também continuar uma conversa iniciada há séculos.

Quais são as suas referências no mundo da arte ou artistas que admira e o influenciam?

As minhas referências são múltiplas e atravessam épocas muito diferentes, porque vejo a história da arte como uma grande conversa que se prolonga no tempo. Interesso-me menos pelas modas e mais pelos artistas que transformaram a perceção do humano, aquelas figuras que fizeram da arte uma forma de pensamento.

No desenho, sinto-me próximo dos mestres que compreenderam o traço como extensão do espírito: Leonardo, Dürer, Poussin ou Ingres, pela disciplina entre a linha e a ideia. Mas também me tocam a modernidade inquieta de Egon Schiele, a densidade psicológica e narrativa de Paula Rego, e a serenidade luminosa de Giorgio
Morandi. Admiro Francis Bacon pela violência expressiva e pela revelação do corpo como território da alma, e Goya pela sua lucidez moral, pela forma como uniu compaixão e denúncia num mesmo gesto.

Entre os contemporâneos, David Hockney é para mim uma referência fundamental. A sua liberdade formal, a inteligência com que atravessa técnicas e épocas, e sobretudo a persistência da observação, esse olhar disciplinado que encontra beleza no quotidiano, representam uma ética de trabalho que admiro profundamente. Hockney recorda-nos que a arte é também um exercício de vitalidade, uma afirmação de curiosidade e de alegria perante o visível.

As minhas influências não vêm apenas das artes visuais: encontro-as também na literatura e na filosofia, alguns exemplos como Camões, Pessoa, Saramago, Bataille, Simone Weil. São vozes que interrogam o sentido do corpo, da alma e do tempo.

No fundo, o que procuro na arte é essa síntese rara entre pensamento e emoção, entre lucidez e fragilidade. Cada artista que admiro foi, a seu modo, alguém que tentou compreender o humano através da forma e é nessa tentativa que também me reconheço.

Revê-se em alguma corrente estética?

Não creio pertencer a uma corrente estética em particular. Interesso-me mais pelo diálogo entre tempos, pela possibilidade de fazer coexistir o passado e o presente dentro da mesma imagem. A minha obra é, nesse sentido, um espaço de confluência, entre o clássico e o contemporâneo, entre o rigor e a emoção.

Reconheço afinidades com certas tradições do desenho europeu, o naturalismo, o expressionismo, o simbolismo, mas nunca as tomo como modelos fechados. Prefiro pensar o meu trabalho como um campo de trânsito, onde a herança figurativa se reinterpreta à luz do presente. O desenho, para mim, é sempre um gesto
de resistência contra o efémero: uma tentativa de fixar o instante num tempo que tudo dissolve.

A corrente a que mais me sinto ligado é, talvez, a da observação, essa linhagem silenciosa de artistas que acreditam que o olhar é um acto moral. A estética, para mim, é inseparável da ética: o modo como olhamos o mundo determina o modo como o representamos.

Por isso, se há uma corrente que me define, é a da humanidade. Acredito que o desenho pode ainda ser um espaço de verdade, de lentidão e de encontro, um gesto que une, em vez de dividir.

Para si o que é que pode ser considerado Arte? É possível uma definição de Arte?

A arte resiste à definição e talvez seja essa a sua força. Tudo o que é verdadeiramente artístico escapa à rigidez das palavras, porque nasce da liberdade e do imprevisto.

Vejo a arte como uma forma de conhecimento sensível: um modo de pensar com o corpo e com a emoção, de tornar visível o invisível. Não explica, revela. Quando é autêntica, a arte não representa, encarna. É um gesto humano que dá forma ao que nos ultrapassa: o amor, a dor, a memória, o espanto.

Mais do que um objeto, é um estado de atenção, um modo de estar no mundo, de o olhar e de o sentir com lucidez e ternura.

No fundo, a arte é o que nos impede de adormecer espiritualmente. Um breve milagre de consciência e de beleza.

O artista tem um dever cívico de se posicionar sobre os problemas sociais?

Acredito que sim, mas não no sentido panfletário ou militante. O dever do artista é, antes de tudo, o de permanecer lúcido, o de ver e de escutar o que muitos preferem ignorar. A arte não muda o mundo diretamente, mas muda o modo como o mundo é percebido. E essa transformação do olhar já é, em si, um gesto político. O
artista tem a responsabilidade de não se deixar anestesiar pelo ruído do tempo. De resistir à indiferença, à banalização da dor, à facilidade das respostas. O posicionamento do artista nasce da sua atenção ao humano, da compaixão, da inquietação, da consciência crítica.

Não acredito numa arte neutra: toda a obra, mesmo a mais silenciosa, transporta uma ética.

Por isso, o dever cívico do artista é, acima de tudo, o de permanecer fiel à verdade do seu olhar. Criar é um acto de consciência, e cada gesto artístico é também uma tomada de posição, discreta, talvez, mas profundamente moral.

Os seus desenhos revelam algum desconforto e por vezes surgem desconcertantes. São sobretudo figuras humanas, homens velhos que se revelam circunspectos, angustiados ou em aparente desconexão com a realidade. Alguns desenhos lembram-me um pouco a narrativa grotesca e surreal de Paula Rego, especialmente em alguns que fizeram parte da exposição “Ritos de Carne e Papel”. Faz sentido esta leitura?

É uma questão pertinente e que tenho pensado desde muito cedo e faz sentido ser colocada, na medida em que o desconforto é parte integrante do meu trabalho. A arte, para mim, não é um lugar de apaziguamento, mas de revelação. O desenho nasce sempre de uma inquietação, da necessidade de olhar o humano na sua fragilidade, nas suas contradições e nos seus abismos. As figuras que represento não procuram a beleza convencional, mas a verdade emocional. São corpos que carregam o peso do tempo, rostos onde a vida deixou marcas. Gosto de pensar que neles há mais perguntas do que respostas e que o desconforto vem precisamente daí: do reconhecimento de nós próprios.

Paula Rego é uma artista que admiro profundamente. Há nela uma coragem narrativa e uma acutilância psicológica que muito me inspiram. Partilhamos, talvez, esse impulso de confrontar o espectador com o que é difícil de ver: o grotesco, o absurdo, o inconfessável. Mas, enquanto em Paula Rego o drama é teatral, encenado,
no meu trabalho ele tende a ser mais interior, mais silencioso, um teatro íntimo, onde o gesto e o olhar são o palco.

Interessa-me o ponto em que o humano se torna símbolo, onde a figura se transforma em espelho moral. O grotesco, quando surge, não é caricatura: é a tentativa de exprimir a dignidade possível dentro da deformação.
No fundo, o que me move é essa busca de humanidade, não idealizada, mas verdadeira. O desconforto que o meu trabalho possa provocar é, espero, o de quem se vê e se reconhece para lá das aparências.

Quando fala das figuras antropomórficas, por que razão escolhe os animais não humanos para auxiliar no objetivo de espelhar “os vícios, as fraquezas e contradições que nos habitam”?

Os animais surgem no meu trabalho como espelhos da condição humana.

Neles encontro uma pureza de instinto, uma ausência de cálculo que contrasta com a complexidade e, por vezes, a perversão do comportamento humano. Ao associá-los às figuras humanas, procuro construir uma metáfora moral, uma fábula contemporânea onde o animal é a consciência que observa, ou o duplo que revela.
A figura antropomórfica permite-me aceder a um território simbólico mais vasto.

Ao fundir o humano e o animal, o desenho ganha uma ambiguidade que é, para mim, essencial: aquilo que nos é familiar torna-se estranho, e o estranho, por sua vez, denuncia o que há de mais íntimo em nós.

O animal, nesse contexto, não é um adorno narrativo, mas um mediador, um intérprete silencioso das nossas pulsões, dos nossos medos e desejos.

Gosto de pensar que, no fundo, esses seres híbridos restituem ao humano uma verdade que ele tenta esquecer: a sua natureza instintiva, vulnerável e, por vezes, cruel. Através deles, o desenho fala daquilo que somos quando a máscara civilizada cai. Mais do que representação, essas figuras são exercícios de consciência. Cada corpo misto é um espelho da alma e talvez por isso provoquem simultaneamente fascínio e desconforto. São, em última análise, alegorias da nossa própria condição: a de seres permanentemente divididos entre a razão e o instinto, a culpa e o desejo, a luz e a sombra.

Fale um pouco sobre os autorretratos da exposição “Fissare lo sguardo” de 2016, sobre a série “Alice e a iconografia do espanto” e o que para si Camões representa.

Os autorretratos de Fissare lo sguardo nasceram de uma necessidade de confronto. Mais do que retratar-me, procurava compreender-me, observar o rosto como território simbólico, lugar onde o tempo, a memória e o pensamento se inscrevem. O desenho, nesse caso, funcionava como um espelho sem complacência: o olhar fixava-se, mas também interrogava. “Fixar o Olhar” era uma forma de resistência contra a dispersão, um exercício de consciência e de presença.

Na série Alice e a iconografia do espanto, procurei outro tipo de olhar, o olhar da descoberta. Alice é, para mim, a figura da curiosidade e da dúvida, o símbolo da infância como estado mental, como lugar de espanto diante do real. Nela concentram-se a inocência e o delírio, o desejo de compreender e a vertigem de não o conseguir.
Essa série foi um modo de pensar o olhar antes do juízo, o instante em que ver ainda é um gesto de assombro. Quanto a Camões, é talvez a presença que mais silenciosamente me acompanha. Nele encontro a consciência trágica da condição humana, a tensão entre o sublime e o naufrágio. Camões não é apenas o poeta da pátria, é o poeta do exílio interior, do homem que sabe que ver demasiado tem um preço.

Leio-o como quem contempla um espelho antigo: nas suas palavras, reconheço a luta entre a lucidez e o desengano, entre a fé e a perda.

Creio que, no fundo, todos estes trabalhos, o autorretrato, Alice e Camões, convergem num mesmo ponto: a necessidade de olhar o humano com espanto e compaixão, de o compreender na sua fragilidade luminosa.

Nos desenhos há uma significativa carga simbólica. Como idealiza cada desenho? Pensa na mensagem e depois na figura e “acessórios” iconográficos, ou a figura inspira a mensagem?

O desenho nasce quase sempre de uma imagem interior, um pressentimento, uma sensação, algo que me perturba antes mesmo de se tornar pensamento.

Raramente parto de uma ideia racionalmente estruturada; parto de um estado. É o gesto que chama a figura, e a figura, por sua vez, desperta o sentido. Gosto de pensar que o desenho se faz num espaço de reciprocidade: não sou eu que o conduzo inteiramente, é ele que me conduz também.

A simbologia surge depois, de forma orgânica, como sedimentação do pensamento. Cada elemento, um animal, um objeto, uma postura, nasce do diálogo entre o instinto e a memória. Não me interessa o símbolo enquanto código fixo, mas enquanto energia poética, capaz de abrir camadas de leitura. O símbolo, quando é verdadeiro, não ilustra: respira. Os meus desenhos funcionam, assim, como pequenas dramaturgias interiores. A composição vai-se revelando à medida que trabalho, num equilíbrio entre a intuição e o raciocínio formal.

Muitas vezes só compreendo o que fiz depois de terminar: o desenho explica-me aquilo que eu próprio não sabia dizer.

Em última análise, não busco transmitir uma mensagem, mas criar uma experiência de olhar, um espaço onde a figura e o observador se encontrem num mesmo silêncio interrogativo.

Gostaria que falasse um pouco sobre projetos em que esteja a trabalhar ou pensados para o futuro.

Neste momento, continuo a desenvolver o ciclo de desenhos “Ritos de Carne e Papel”, apresentado recentemente pela Galeria São Mamede. Trata-se de um projeto que reflete sobre a condição humana, o corpo como território de memória e o confronto entre o sagrado e o quotidiano. São desenhos que exploram o limite entre o gesto e a consciência, entre o real e a sua representação, uma espécie de cartografia do humano.

Em paralelo, mantenho viva a série “Cortejo de Solitários”, também apresentada pela Galeria São Mamede, onde a figura humana surge como metáfora da solidão contemporânea, seres deslocados, quase espectrais, que ainda assim conservam uma dignidade silenciosa. Ambas as exposições fazem parte de um mesmo caminho: o de interrogar o lugar do homem no mundo, o seu corpo, a sua fragilidade e o seu mistério.

Trabalho ainda em novas séries de menor escala, mais concentradas no detalhe e no silêncio, e preparo uma investigação sobre o tema da “figura em desaparecimento”, uma reflexão sobre a erosão da presença e a vulnerabilidade do olhar no nosso tempo.

O futuro, para mim, não é um território de ambição, mas de continuidade.

Procuro apenas manter-me fiel ao acto de desenhar, esse gesto simples e inabalável que continua a ser, no meio de todas as distrações, a minha forma de compreender e de agradecer ao mundo.

Confessamos que é raro conhecermos alguém tão fiel como Amaro della Quercia,
ao que o heterónimo de Pessoa, Ricardo Reis, aconselhava.

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui. 
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és 
No mínimo que fazes. 
Assim em cada lago a lua toda 
Brilha, porque alta vive.

Ricardo Reis

Estaremos absolutamente atentos ao caminho que Amaro della Quercia decidir percorrer e expectantes com o que brevemente surgirá.

Paula Timóteo

Paula Timóteo

Um comentário

  1. Belíssima entrevista, muito bem dirigida e escrita. Que artista incrível, que profundo e filosófico, e que obras maravilhosas. Parabéns

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