No Natal dos meus 9 anos, o meu irmão mais velho ofereceu-me um diário. Ou melhor, um caderninho verde de capa acolchoada que fechava com um pequeno cadeado e que passei a considerar como o meu “querido diário” uma espécie de amigo confidente a quem eu contava tudo e de quem nunca recebia uma má resposta. Por essa altura, na escola, ficava radiante quando a professora mandava fazer uma redacção. Melhor ainda quando o tema era livre. E nas férias do Verão, aquelas a que chamávamos “férias grandes” porque duravam uns saborosos 3 meses, os momentos em que me sentava para num exíguo postal contar aos meus pais as novidades das férias na avó da praia, só se tornava uma tarefa difícil por ter de gerir o escasso espaço que tinha para escrever. Naquela época, há 50 anos atrás, escrevia-se muito e à mão. Era considerado incorrectíssimo receber uma missiva escrita à máquina a não ser que fosse um documento formal. Não eram só as crianças que escreviam. Os adultos comunicavam à distância mais por carta do que por telefone. Mesmo havendo já uma rede telefónica alargada, as cartas e os postais comemorativos de Natal, aniversários ou de férias eram rotina entre familiares e amigos até porque telefonar era dispendioso especialmente para fora das localidades de residência.
Escrevia-se. Escrevia-se muito, à mão e recorrendo ao conhecimento adquirido, recuperando de memória o vocabulário e construções frásicas que por vezes pareciam saberes esquecidos, mas nessas ocasiões consultava-se um dicionário, quem o tinha, naturalmente. A caligrafia era cuidada porque também nesse pormenor se mediam os afectos. Escrevia-se para que o outro pudesse ler sem esforço nem amargos de boca na tentativa de decifrar a mensagem.
O Natal era, como uns imaginam e outros recordam, uma das épocas mais ricas e emblemáticas na euforia da troca de desejos de quadra feliz a que se juntavam os votos de um Ano Novo, que já se avizinhava a passos ligeiros, recheado de leveza e bem-estar. Era uma época pródiga de frases escritas com fervor e sabor a açúcar e canela. As crianças escreviam aos avós, aos tios, aos primos e recebiam, encantadas, postais com ilustrações fascinantes que eram, depois de lidos, colocados na árvore de Natal. Finda a quadra festiva, desmontado o presépio e a árvore, as mensagens eram guardadas em caixas de folha ou de madeira aonde ao longo do ano se regressava deliciosamente, relendo nas linhas escritas as vozes de quem nos era próximo mesmo na distância.
Hoje não se escreve, ou melhor, escreve-se cada vez menos e também se fala cada vez menos optando por comunicações através de curtas e efémeras mensagens de telemóvel, algumas sugeridas pela IA e por isso despidas de cunho pessoal, espoliadas de alma e significado. Mensagens que vão amputando palavras, emagrecendo frases, esquecendo-se dos elementos de coesão textual, assassinando o rigor linguístico. Já José Saramago alertava, há uns 20 anos, para o que ele considerava ser um retrocesso na linguagem, depois de milénios de evolução.
Alertados para as consequências neurais de uma perda gradual do mecanismo da escrita, muitos estudos apontam para o facto de a escrita manuscrita traduzir pensamentos em palavras obrigando a um acto físico na reprodução simbólica do pensamento. O mesmo não acontece com o clicar das teclas de um computador porque aquelas são todas iguais e todas com a mesma necessidade de pressão.
O esforço da escrita “à mão” estimula a mente e não será por acaso que a palavra “itálico” vem do latim currere, que significa correr, fluir, porque as ideias que se traduzem pela escrita correm e voam.
A própria caligrafia perdeu a elegância de outros tempos porque na escrita também se afirmava a beleza e a arte, como uma moldura que se escolhe para receber uma pintura. O brio de um desenho esmerado das letras extinguiu-se, mas importa clarificar que na defesa de um regresso ao acto de escrever à mão não existe a primordial preocupação estética, mas tão somente a de chamar à atenção para diferentes conexões neurais mobilizadas quando escrevemos em forma manuscrita ou através de um teclado e as consequências no desenvolvimento das crianças caso só sejam estimuladas para a comunicação digital.
Do ponto de vista cognitivo, a escrita manual reforça a memória e a aprendizagem da leitura. Vários estudos mostram que as crianças recordam melhor as palavras e as ideias quando as escrevem à mão, porque o movimento de desenhar as letras ativa diferentes áreas do cérebro relacionadas com o reconhecimento visual e a memória motora. Assim, escrever ajuda não apenas a reter informação, mas também a compreendê-la de forma mais profunda.
Estudos sugerem que anotações manuscritas podem aumentar a retenção em cerca de 10 a 20 % face à digitação, sendo que alguns relatórios apontam para que a retenção possa subir para 30 % ou mais, embora estas sejam estimativas menos bem validadas.
Num mundo em que computadores, tablets e telemóveis fazem parte do quotidiano desde muito cedo, a escrita à mão deve, pois, recuperar um lugar fundamental na educação escolar das crianças porque ela envolve um processo com múltiplas competências cognitivas, motoras e emocionais.
Ao aprenderem a escrever à mão, as crianças desenvolvem a coordenação motora fina, pois o acto de segurar o lápis, tendo de controlar a pressão, e depois desenhar letras, exige precisão na coordenação entre a mão e a visão. Este exercício contribui desta forma e em simultâneo com a habilidade motora, para a concentração e, com esta, desenvolve-se uma qualidade que se tem vindo também a perder: a paciência.
A escrita à mão tem ainda uma dimensão pessoal e criativa. Cada letra traçada é única e revela algo da individualidade de quem escreve. Ao praticarem a caligrafia, as crianças aprendem a expressar-se com autonomia e desenvolvem um sentido estético e de identidade. Por fim, escrever manualmente promove uma relação mais próxima com o texto: o ritmo mais lento convida à reflexão e à organização das ideias.
Esta época festiva surge como uma excelente oportunidade para se promover o valor da escrita manuscrita através do regresso aos postais de Natal. Retomemos o hábito de nos sentarmos com as nossas crianças e jovens e, com o vagar que nos escasseia na vida, pensar em cada amigo e familiar para lhes dedicarmos um momento de ternura desdobrado em caligrafia cuidada.
Neste Natal, voltemos a encher as caixas de correio físicas e não as virtuais de doces mensagens de amor.
Paula Timoteo

