Machado de Castro nasceu em Coimbra a 19 de Junho de 1731. Portugal vivia em pleno século de ouro sob a égide monárquica de D. João V. Ao país chegavam maciças quantidades de ouro vindas do Brasil, a Biblioteca Joanina, expoente máximo do Barroco português e considerada uma das mais ricas bibliotecas europeias, ficara concluída 3 anos antes e a Basílica do Convento de Mafra, obra emblemática da arquitectura barroca, havia sido consagrada recentemente. Machado de Castro ainda chegaria a trabalhar nesta que foi a maior obra Joanina, 25 anos mais tarde.

O Absolutismo vigorava sob o beneplácito dos grupos sociais privilegiados que facilmente abdicavam da sua intervenção política desde que lhes estivessem garantidas as benesses que o ouro e diamantes do Brasil alimentavam. O povo, esse, ia-se resignando na sua fome e miséria diante a ostentação luxuosa do poder.
Machado de Castro nasceu, portanto, num tempo iluminado de ouro, mas também de ideias já que o Iluminismo, movimento intelectual que valorizava e priorizava a razão, ecoaria até ao início do século XIX com impacto na arquitetura e nas artes decorativas do século XVIII. Curiosamente, aquele que é considerado um dos maiores escultores de sempre faleceria, em Lisboa, 2 anos após a Revolução Liberal ter terminado com sete séculos de monarquia.
Filho de Manuel Machado Teixeira, escultor e organeiro e de sua primeira mulher, D. Teresa Angélica Taborda, Machado de Castro foi cumprindo uma educação a “dois tempos”. Ao mesmo tempo que aprendia gramática latina com os padres jesuítas e exercitava o espírito com o estudo dos livros, aprendia em casa com o pai, a quem reconhecia imenso valor, os processos de moldar revelando habilidades incomuns na arte da escultura. Na escola e na oficina, Machado de Castro surpreendia com as suas aptidões e a facilidade com que evoluía e rapidamente os lugares de aprendizagem lhe começaram a parecer escassos e começou a desejar saber e descobrir mais para alcançar maior qualidade e rigor. Acabaria por partir de Lisboa rumo a Mafra, uma localidade que se fez na sequência da colossal obra de arquitectura que ali se erguia. A obra, singular não apenas pelas dimensões, mas porque fundia, num espaço de paredes meias, convento, palácio e, pela primeira vez, uma basílica colada ao poder temporal do rei, representava um ateliê colossal e uma oportunidade de ouro de aprendizagem e evolução pessoal. Apesar de ir auferir um rendimento menor do que aquele que já possuía em Lisboa, e que era bem confortável, o jovem Machado de Castro sabia que ali, em Mafra, estava a acontecer uma escola viva, não se tratava apenas de um estaleiro de gente que erguia pedras, mas de um lugar onde, afortunadamente, se encontravam muitos artistas de grande mérito e que eram orientados pelo então ilustre professor estatuário romano Alexandre Giusti de quem passaria a ser ajudante pouco tempo depois, em 1756. Regressaria a Lisboa 14 anos depois no âmbito do concurso para a construção da estátua de D. José.
Mas Mafra não foi apenas um lugar de crescimento artístico. Ali se reuniam e confluíam viajantes estrangeiros, poetas, artistas e sábios portugueses e Machado Castro soube aproveitar a oportunidade para se instruir. Por isso, Machado Castro é considerado “um homem inteligente, talentoso, paciente e determinado”, como explica Anísio Franco, comissário da exposição O Virtuoso Criador, acrescentando que foi graças a essa inteligência que “Joaquim Machado de Castro soube gerir influências e atravessar um período marcado por transformações políticas e artísticas – do antigo regime para o liberalismo, do barroco tardio para o neoclassicismo – sem desvirtuar o que pensava da arte ou do poder real”.
Os Presépios
A palavra “presépio”, deriva do latim praesepium, que significa “curral”, “aprisco” ou “manjedoura” que terá sido onde Cristo foi colocado quando nasceu. Presépio passou então a designar o conjunto do cenário e dos personagens que, de forma artística, representam o acontecimento do nascimento de Cristo segundo o Evangelho de São Lucas.
Mas os presépios têm a sua própria história e durante muito tempo eram encenações ao vivo com pessoas reais. Com o édito de Milão, no século IV assistiu-se a uma difusão crescente das representações da Natividade, porém, estas acabariam por atingir um nível de exageros tal que levou à sua proibição, por parte da Igreja, na Idade Média.
Será preciso chegarmos ao século XIII para que o presépio regressasse à vida das comunidades muito embora num formato diferente. Em 1223 e depois de ter obtido autorização pontifícia, São Francisco de Assis recriou em Greccio o nascimento de Cristo no que é considerado o início da era moderna dos presépios. Numa humilde construção de madeira revestida de palha e tecido as figuras surgiam ali colocadas em tamanho natural, mas os únicos elementos vivos eram um boi e um jumento que Francisco de Assis integrou.
Em Portugal, sempre se celebrou a Natividade com representações cénicas – os autos de Natal, de onde surgiram no século XIV os vilancicos. Mas nos finais do século XIII, a Natividade surge esculpida num capitel do primitivo claustro do mosteiro de Celas (Coimbra) e no século XIV já figurava no túmulo de Inês de Castro no Mosteiro de Alcobaça.
Durante a segunda metade do século XVI foram esculpidos em calcário diversos relevos e na pintura sobre tábua ficaram-nos, da mesma época, entre outras obras, a Natividade atribuída a Gaspar Vaz (?-1569). A Natividade e a Adoração dos Magos (1501-1506) da autoria de Vasco Fernandes ou Grão Vasco (1475/1480?-1542/1543?), foram duas obras executadas para o retábulo da capela-mor da Sé de Viseu e merecem especial destaque até por um pormenor curioso que reflecte o tempo em que foram feitas: na última, o tradicional mago negro foi substituído por um índio do Brasil.
Com a chegada do século XVIII Portugal viverá uma das épocas áureas da sua História. Será um período de grande aparato e esplendor em vários aspectos e os presépios não foram excepção. Realizados em materiais tão diversos como a madeira, marfim, pedras e metais preciosos, vidro, cortiça ou têxteis, os presépios beneficiaram de enorme profusão e de grandes conjuntos escultóricos cheios de figurantes e cenas do quotidiano. Os exemplos são inúmeros como o presépio de madeira do Convento de Mafra, da autoria de José de Almeida (170?-1769) o qual, apesar de não ostentar um grande número de figuras, apresenta já sinais evidentes do barroco no vestuário da Virgem Maria e de São José.
Contudo, foi sem dúvida no barro que os presépios de mestres como António Ferreira (n. Braga ?), padre João Crisóstomo Policarpo da Silva (1734-1798), Joaquim de Barros Laborão (1762-1820), e de igual forma digno de atenção é o extraordinário presépio que se encontra na Capela de Nossa Senhora da Glória e São Gens, conhecida por Capela de Nossa Senhora do Monte. Ao escultor António Ferreira é atribuída a autoria do presépio original sendo que o actual apresenta uma diferenciação de grupos e peças executadas em épocas e oficinas diferentes, em grande parte como resultado do terramoto que fez ruir o templo onde o presépio se encontrava. Esta justaposição de personagens levou a que nele existam duas Sagradas Famílias, uma das quais colocada lateralmente, como que integrando um grupo de adoradores.
Mas foi, principalmente, com Joaquim Machado de Castro (1731-1822) que os presépios atingiram um nível superior de realização artística. Sobre a obra de Machado de Castro ao nível da representação escultórica da Natividade podemos ler no portal do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura o seguinte: “O tratamento teatral dado por Machado de Castro à elaboração dos seus presépios permitiu que as mais simples e humildes tarefas diárias desempenhadas pelos tipos populares neles representados ganhassem uma dimensão de grandeza, expressa na cor e movimento dos trajes e nas expressões alegres dos seus rostos. Os animais, instrumentos musicais e utensílios comuns integram a cenografia de forma natural, conferindo aos conjuntos o complemento essencial à compreensão da simbiose do divino e do profano. O século XVIII constituiu o século apogeu dos presépios portugueses, onde a vida, os costumes e a arte da sociedade nacional da época ficaram magnificamente reproduzidos nas figuras populares que António Ferreira e Machado de Castro, trabalhando isolados ou em parceria, elaboraram e integraram nos conjuntos encomendados.”
O Presépio da Basílica da Estrela
A obra de referência de Machado de Castro neste capítulo é o conjunto escultórico da Basílica da Estrela. Considerado o maior presépio de Portugal foi mandado construir pela rainha D. Maria I por volta de 1781 para o Convento das Carmelitas Descalças, anexo à Basílica e apresenta uma estrutura monumental: cerca de 5 metros de frente, 4 metros de altura e mais de 3 metros de profundidade. Com perto de 500 figuras o Presépio, que levou 5 anos a ser concluído (1781-1786) não se limita a representar o nascimento de Cristo até porque o faz numa escala maior do que era habitual transformando-o num palco da vida da população comum. A obra é um hino ao estilo barroco apresentando-se numa exuberância de contrastes luz-sombra, riqueza de detalhes, sequência de cenas e abundância visual. Tudo obedecendo a uma narrativa complexa de muitos e diversos actores, plena de pormenores de grande expressividade que faz deste presépio um símbolo da teatralização barroca. O espaço está organizado de forma cenográfica onde as figuras se agrupam impelindo-nos a uma contemplação que não é estática. Diante daquele conjunto escultórico sentimo-nos participantes, visitantes imersos no mundo que nos é ali apresentado. Se o visitarmos com tempo e atenção podemos identificar algumas cenas do quotidiano de Lisboa na viragem para o século XIX e assim ficarmos a conhecer personagens tipo como um cego com um instrumento musical, uma mulher a amamentar uma criança, uma ladra a meter a mão em sacola alheia.
Uma taberna escondida na penumbra da cortiça, uma briga entre duas aguadeiras ou a matança do porco, são lugares e episódios de um tempo que embora antigo nos parece próximo, mas também o espelho da “arraia miúda” que compunha a vida nas cidades e marca presença nesta peça monumental. De tudo um pouco somos ofertados nesta verdadeira montra da vida lisboeta da época.
As figuras em barro ou terracota policromada, com o uso da madeira e cortiça para o cenário, permitem uma ligação natural entre o sagrado e o profano porque o Menino Jesus, sua mãe, a Virgem Maria e São José são ali verdadeiramente simples mortais que comungam de um registo de humanidade semelhante ao das figuras que ali se apresentam na sua banalidade, gente que facilmente identificamos sem necessitar de recorrer a um “tradutor” iconográfico. Mas a Sagrada Família que ali se apresenta humildemente e para a qual foi feita toda aquela monumentalidade cénica também possui e representa o lado sagrado que não é ali menorizado nem secundarizado. E é igualmente nessa simbiose e articulação perfeitas que reside a magia apaixonante da obra.
O presépio da basílica da Estrela é muito mais do que uma mera representação da Natividade: é uma obra onde a escultura, o espaço, a cor, a figuração popular e a devoção se fundem. Representa o auge da tradição barroca dos presépios em Portugal e marca um momento em que a arte sacra se assume como um recurso visual na catequização do povo que ali se revê e se reencontra: nos vícios e virtudes, no sagrado e no profano. Não é uma obra com ambições eruditas, mas sim uma obra sacra que retrata gente comum a vivenciar cenas do quotidiano como a das aguadeiras que brigam para ver quem enche primeiro a bilha na fonte. Neste monumental presépio há ainda um outro pormenor importante: pela primeira vez os reis Magos surgem representados o que não era costume na tradição portuguesa. Este facto tem uma explicação. A obra tinha sido encomendada por uma rainha, a rainha D. Maria I e Machado de Castro fez questão de a homenagear com a presença destas figuras.
Mas devemos ter presente que este tipo de encomendas de enorme envergadura, era executada em grande parte pelos colaboradores do mestre sob a direção deste, evidentemente. Neste caso em que estamos a falar de centenas de elementos, nem terá sido Machado de Castro a realizar as figuras principais como as da Sagrada Família.
A ele interessava-lhe as que lhe davam mais prazer porque permitiam um trabalho mais exigente e onde se alcançava maior expressividade. Pensa-se que muitas serão mesmo retratos de pessoas conhecidas do mestre.
Machado de Castro era sobretudo o autor da ideia que depois mobilizava e instruía a equipa para a executar. “Joaquim Machado de Castro acreditava no poder das ideias. Mais: acreditava que o artista era o que concebia a ideia, não necessariamente o que concretizava a obra, uma atitude corrente na Itália do Renascimento, mas ainda revolucionária no Portugal do século XVIII.” (e-cultura.pt).
A historiadora de arte Ana Duarte Rodrigues ressalva que “muitos conhecem Machado de Castro como um autor de presépios, embora só três lhe possam ser atribuídos sem reservas, e de outras imagens religiosas, como a Nossa Senhora da Encarnação ou o S. João Batista de Almeirim, mas o que o escultor sempre procurou foi fazer obras em grande escala, de preferência em pedra. Machado de Castro era um estatuário e não um imaginário. Era como estatuário que se concretizava como artista. Um estatuário que valorizava o desenho, o estudo do “antigo” (escultura clássica) e o processo técnico. Se fazia muitas imagens é porque precisava de sobreviver e dar trabalho aos canteiros, discípulos e ajudantes que trabalham com ele no laboratório.”
De facto, Machado de Castro priorizava a escala monumental e o espaço público, mais do que a tradicional escultura de devoção privada. Neste sentido, a sua obra mais famosa é a estátua equestre de D. José I (1775), na Praça do Comércio em Lisboa, que lhe garantiu o cargo de escultor da casa real a partir de 1782. Após a inauguração da estátua do rei D. José, o escultor ampliou bastante a sua rede clientelar além de ter ficado responsável pelas principais obras da capital, situadas entre o final do século XVIII e os primeiros anos do XIX.
Estátua equestre de D. José e pormenor
D. Maria I, quando construiu o convento da Estrela, encarregou-o de todas as esculturas e baixos-relevos, além do grandioso presépio a que já nos referimos. Neste edifício podemos destacar o grupo escultórico central na fachada com a adoração do “Sagrado Coração de Jesus” e as estátuas inseridas nos nichos do coro-alto da igreja, em frente à fachada alegóricas à “Fé”, “Devoção”, “Gratidão” e “Liberalidade” que são fruto de um conceito neoclássico, pois já não representam santos, mas sim virtudes.
Fachada da Basílica da Estrela
Na Patriarcal também deixou muitas obras: as imagens de Nossa Senhora e de S. José, as dos santos apóstolos Simão, Judas Tadeu e Matias. No vestíbulo do palácio da Ajuda, encontramos as icónicas representações da Generosidade, Gratidão e Conselho e à entrada da Biblioteca Nacional de Lisboa somos convidados a demorar o olhar diante da estátua de D. Maria I, em mármore de Carrara.
Em 1802 viria a ser incumbido, pelo Príncipe Regente D. João, de dirigir os trabalhos escultóricos do Palácio da Ajuda.
A estátua equestre de D. José, representou assim um marco decisivo na carreira de Machado de Castro, apesar de, num primeiro momento, tivesse sido o fundidor, o coronel Bartolomeu da Costa, quem tivesse granjeado maior fama e elogios, por ter conseguido concluir, com sucesso, o processo de verter o metal para dentro do molde em poucos minutos. Machado de Castro escreveu ainda obras teóricas sobre escultura, como a Descripção analytica da execução da estátua equestre, em 1810, e foi pioneiro no ensino da escultura em Portugal. Neste capítulo criou a primeira aula de escultura e um laboratório que trabalhava num sistema de subcontratações pouco habitual para a época. No laboratório eram realizados os moldes de cera e barro, concebidos pelo mestre e discípulos e que depois eram levados para as mãos dos artífices que as esculpiam em pedra ou madeira.
Machado Castro sempre preferiu intervir no espaço público e conseguiu realizar uma ligação coerente entre os cânones do barroco e o neoclassicismo. Morreu aos 91 anos sem imaginar que seria, uns séculos depois, mais conhecido entre o povo pelos presépios que fez e orientou do que pela estatuária que realizou ele que “sempre quis fazer estátuas e não imagens de devoção” (e-cultura.pt). Contudo, se pensarmos que o mestre se preocupava em deixar uma obra “que ficasse nos olhos de toda a gente.” (idem) Então, podemos garantir que conseguiu em pleno este último intento.
Paula Timóteo

