No nosso número de Setembro, abordámos o tema do Naturalismo, um movimento artístico e literário que se desenvolveu sobretudo nas últimas décadas do século XIX, em oposição ao romantismo. Pousão, o artista nosso convidado deste mês, viveu no epicentro desta época e a sua obra, profícua apesar de curta duração, deve ser entendida neste contexto. Com maior expressão ou evidências mais inquestionáveis nas artes plásticas e literatura, o Naturalismo entra também na esfera musical com uma nuance particularmente interessante já que irá incorporar o conceito nacionalista que emerge nesta altura através das influências do folclore e músicas populares que passarão a integrar as obras sinfónicas. Importa, porém, perceber de que forma o paradigma nacionalista se interliga com o contexto social e político vivido então.
Ao longo do século XIX, a Europa foi marcada por revoluções liberais que representaram uma importante ruptura conceptual de sociedade e modelo de poder e governação. Tratava-se de uma nova perspectiva que iria alterar profundamente a forma como cada um individualmente, os grupos sociais de forma mais alargada e as elites culturais em particular, passariam a observar o mundo e a revindicar o seu papel na sociedade. As convulsões sociais que acompanham este período ditarão uma nova visão política porque o entendimento dos Estados e das Nações por parte dos povos também se altera.
Importa lembrar o que representou o Congresso de Viena, realizado em 1815, que antecedeu e de alguma forma ajudou a despoletar o período revolucionário. O evento, que reuniu os Estados europeus, servira para concretizar o fim da era napoleónica, mas também tinha tido a finalidade de repor a configuração das fronteiras e dos Estados à realidade pré-existente a Napoleão. Por último, também era a vontade de todos os líderes ali reunidos, de devolver os poderes a quem deles tinha sido afastado com a Revolução Francesa. Para tal era necessário conter os movimentos sociais que haviam surgido. No fundo, pretendia-se um retorno ao Antigo Regime, à monarquia absoluta e ao profundo desequilíbrio social e subjugação dos grupos não privilegiados. Porém, esta tentativa de apagar os fundamentos da Revolução Francesa acabaria por ter um efeito contrário ao desencadear exuberantes revoluções especialmente as de 1848 um período que ficará conhecido como a Primavera dos Povos. As razões para este surto insurrecional encontram-se na ascensão de novos atores sociais capazes de alterar o panorama político da Europa do século XIХ. A burguesia, em especial, tinha se fortalecido com a expansão da industrialização e já não estava mais na disposição de assumir um papel subserviente e afastado dos centros políticos de decisão.
Mas as primeiras revoluções surgem ainda em 1820 a começar por algumas nos Estados do sul como Portugal, Espanha e Grécia. Em Portugal, por exemplo, exige-se na altura uma Constituição e o regresso da família real que fugira para o Brasil aquando da 1ª invasão napoleónica. Mas será entre 1830 e 1848 que de facto a grande onda sísmica atingirá a Europa com início em França com a deposição do rei Carlos X que sucedera a Luis XVIII. Um derrube monárquico que era uma reação à forma despótica como quer um quer outro haviam tentado restabelecer o absolutismo abolindo algumas conquistas do período revolucionário. É deste período a conhecida tela de Eugène Delacroix “Liberdade guiando o povo” de 1830 onde o pintor celebra a revolução de julho desse ano. Na tela, o povo e burguesia surgem aliados em combate evidenciando um mesmo objectivo, um mesmo desígnio que une todos os que ansiavam por um novo tempo. De acordo com o historiador Eric J. Hobsbawm “As revoluções de 1830 mudaram a situação inteiramente. (…) elas foram os primeiros produtos de um período geral de aguda e disseminada intranquilidade económica e social e de rápidas transformações”.
Mas será em 1848 que eclodirá na Europa uma onda de revoluções que são, em grande medida, despoletadas por uma grave crise económica. A Primavera dos Povos foi o fenómeno social que eclodiu simultaneamente em quase todo o continente e que pode ser considerado o momento mais importante das lutas do século XIX. Representou o golpe final dado ao Antigo Regime, que, apesar de se encontrar enfraquecido pelas ondas revolucionárias anteriores, ainda exercia influência sobre a sociedade europeia.
Ora é neste contexto galvanizador que surge o conceito político de nação. Precisamente quando a autoridade dos monarcas é contestada e, em seu lugar, conquista terreno ideológico o conceito de cidadania, a noção de pertença a uma nação. E o que ficara reservado aos estreitos círculos intelectuais alarga-se aos restantes grupos sociais. As reuniões e debates surgem agora com a participação de nobres, burgueses e até camponeses.
Desta forma, impulsionada pelos movimentos de unificação política e pelas lutas de afirmação cultural e social, a Europa irá ser protagonista de um resgate de tradições e cultura popular que irão ser integradas nos projetos nacionalistas bem como nas manifestações artísticas que inevitavelmente espelham o contexto em que se inserem. A identificação das populações com os novos Estados / Nação surgidos, por exemplo, das unificações italiana e alemã, ou com os já existentes, mas que procuram manter as suas fronteiras, passará pela valorização das suas narrativas tradicionais. No caso português, como reação ao humilhante Ultimato inglês, levantaram-se vozes tumultuosas contra a “infame” Inglaterra e defendeu-se a prossecução de uma arquitectura nacional/regional vernácula, de uma pintura nacional marcada pelo naturalismo bucólico e de uma música que olhasse para as potencialidades regeneradoras do folclore.
Desta forma, os nacionalismos procurarão valorizar as características distintivas de cada povo, promovendo uma identidade colectiva construída a partir da língua, da História, da paisagem e dos costumes populares. Em consonância com este espírito, irá desenvolver-se uma corrente artística, o Naturalismo, que privilegia a observação objetiva da realidade e a valorização do quotidiano incentivando artistas a aproximarem-se das manifestações autênticas da vida popular.
E é este caldo ideológico e artístico que exercerá impacto na música sinfónica. A este nível, muitos compositores passaram a integrar nas suas obras elementos provenientes do folclore e da música popular, como melodias tradicionais, ritmos de danças regionais, modos característicos e timbres associados a instrumentos típicos. A incorporação desses materiais não enriquecia apenas a linguagem musical, pois permitia a afirmação de uma identidade sonora nacional reconhecível. Surgiram, assim, escolas nacionalistas em diversas regiões da Europa, como a russa, a checa, a escandinava e a espanhola, cujos compositores procuraram traduzir musicalmente as tradições do seu povo para o universo erudito sinfónico.
Sob a influência naturalista, a música popular deixava de ser encarada como menor e uma mera manifestação exótica e etnográfica. Compositores como Antonín Dvořák, Edvard Grieg, Isaac Albéniz e Béla Bartók passaram a recolher e integrar melodias tradicionais, elevando o património musical popular ao palco erudito. Essa atitude contribuiu para uma representação mais “realista” da vida nacional, transformando a música sinfónica num meio de retratar paisagens sonoras típicas, celebrações populares e cenas do quotidiano.
O nacionalismo musical do século XIX revelou-se, assim, profundamente ligado ao naturalismo na valorização da cultura popular como fonte legítima de criação artística. A fusão entre o património folclórico e as formas sinfónicas permitiu a criação de obras que conciliavam a sofisticação técnica e a autenticidade cultural, abrindo caminho para uma nova conceção de música nacional: simultaneamente erudita e enraizada nas tradições do povo. A crescente atenção dada ao folclore nacional, encarado como uma manifestação de autenticidade popular era algo que se alinhava com o interesse naturalista.
Giuseppe Verdi, Giacomo Puccini ou Modest Mussorgsky são exemplos de compositores que integraram nas suas obras aspectos concordantes com o espírito naturalista: personagens comuns, situações da vida quotidiana, ambientes sociais verossímeis e representações emotivas mais diretas.
A música portuguesa no período naturalista
Em Portugal, apesar do panorama musical ainda ser muito marcado pelo Romantismo, havia já claros sinais de valorização do folclore regional numa procura de identidade nacional própria. Entre o final do século XIX e o início do século XX Alfredo Keil (1850–1907) e Viana da Mota (1868–1948) foram compositores que se notabilizaram ao incorporar os rasgos musicais que ecoavam das tradições populares. Keil, autor de óperas como Serrana (1899), introduziu temas ligados à vida rural portuguesa em coerência com a gramática estética do Naturalismo. Defendia a produção de uma música com traços identitários da nação e a sua obra reflectia essa postura porque nela reconhece-se a incorporação de melodias tradicionais.
Viana da Mota, pianista e compositor, esteve igualmente profundamente ligado ao nacionalismo musical. A sua obra integra danças e temas populares portugueses tratados com sofisticação romântica, mas refletindo o espírito de “autenticidade popular” associado ao naturalismo cultural da época. A par deste trabalho não devemos deixar de mencionar um outro trabalho que foi feito numa espécie de retaguarda e sem o qual teria sido bem mais difícil esta incorporação das matizes musicais populares nas obras eruditas. A recolha de música tradicional portuguesa, intensificada a partir de finais do século XIX, é revelador de um entendimento em conformidade com as tendências europeias. O papel da pesquisa e recuperação etnográfica passou a ser um aspecto encarado como fundamental para quem pretendia uma imersão nas raízes culturais de um povo. Aliás a palavra etnografia significa, precisamente, descrição cultural de um povo (do grego ethnos, que significa nação e/ou povo e graphein, que significa escrita) o que fazia todo o sentido no enquadramento conceptual dos finais do século XIX e inícios do XX. Afinal, para que o novo paradigma de configuração dos Estados/nações e uma nova relação de poderes vingasse, era essencial que se sustentasse num ideal de pertença e só se pode sentir que se pertence ao que se conhece. Para os compositores, esse mergulho no mundo amplo e profundo das raízes populares, representou a abertura de uma ampla caixa de pandora que lhes permitiu refrescar e renovar os padrões musicais ao nível da melodia, harmonia, ritmos e até uma diferente exploração instrumental. As melodias passaram a incorporar ornamentações típicas das canções populares, o ritmo tornou-se mais irregular, inspirado em danças tradicionais e, ao nível instrumental, surgiram novas sonoridades sobretudo incluindo, ocasionalmente, a inclusão de instrumentos populares.
Em Portugal, surgiram figuras determinantes neste caminho de recuperação de uma voz musical com o colorido intrinsecamente português. César das Neves notabilizou-se ao publicar cancioneiros que preservavam o património oral. Este interesse pelo real, pelo “popular autêntico”, traduzia uma das manifestações portuguesas mais inequívocas da sensibilidade naturalista. César das Neves foi introduzido no mundo da recolha etnográfica musical pela mão de Teófilo Braga que lhe lançou o desafio numa das muitas deslocações que fazia ao Porto. Também ele se havia dedicado â elaboração de um cancioneiro literário popular com especial destaque para a recolha de contos e canções tradicionais e em César das Neves, o escritor, ensaísta e político, reconheceu o colaborador que lhe faltava para a parte musical que não dominava.
Entre 1893-1895 a sociedade “César, Campos & Companhia” conseguiu editar na Tipografia Ocidental três volumes num total de mais de 600 melodias. O cancioneiro dito de “César das Neves” congregou o que de mais importante se cantou em Portugal nos campos, nas igrejas, nas romarias, no trabalho, nos salões, nos palcos, nos terreiros onde a dança rompia, nas ruas. Um trabalho iniciado na década de 1870 e que contou com colaborações diversas. Em 1883 juntaram-se ao projecto o comerciante a apaixonado pelo folclore Francisco Nogueira e o jornalista Gualdino de Campos ao mesmo tempo que se expandiram os contributos vindos de gente tão diversa como padres, regentes de filarmónicas e até estudantes de Coimbra.
É, pois, absolutamente justo atribuirmos um lugar de destaque a todo este esforço de descoberta, preservação e divulgação de um património musical popular e que acabaria por enriquecer quer o repertório erudito quer o fortalecimento de uma identidade nacional.
Podemos, em jeito de conclusão, dizer que não é possível reconhecer um movimento musical especialmente ligado ao Naturalismo, mas o ambiente cultural e político em articulação com a valorização das identidades nacionais influenciou a música europeia e portuguesa ao promover temas realistas, figuras do quotidiano e, sobretudo, a valorização do folclore como expressão genuína da vida das comunidades.
Paula Timóteo

