Educação I “A vida sem música seria um erro”

Se nos perguntarem qual dos 5 sentidos nós consideramos mais crucial para a nossa vida, partindo do princípio de que temos a grande felicidade de nenhum deles nos faltar, talvez não consigamos responder porque é difícil conceber a vida com a perda de qualquer um deles, mas a audição não será, certamente, um dos que nos surgirá. Imaginarmos um mundo de repente silencioso, reaprender a  interpretar a Natureza e a viver a música de outra forma, provoca-nos um susto de alma difícil de explicar. 

O sistema auditivo é uma das etapas que mais precocemente começa a ser desenvolvida. Há estudos que apontam para a possível reação do feto a sons altos pela 9ª semana de gestação e que por volta do segundo trimestre, ele já consegue captar vibrações e sons. De facto, na sua vida intrauterina, o feto não vive no silêncio. Ouve os sons internos do corpo da mãe, como o batimento cardíaco, o fluxo sanguíneo e a respiração, que são os primeiros estímulos auditivos do bebé, mas depois, entre a 20ª e a 24ª semana, começa já a reconhecer a voz da mãe e outros sons externos, como música ou conversas. 

Segundo a etnomusicóloga Michel Jeandot, a criança ao nascer já traz consigo um capital de proximidade com o universo sonoro exactamente porque antes de nascer ela já teve um forte contacto com o ritmo e a pulsação do coração da mãe. A investigadora considera indiscutível o facto de as crianças desenvolverem o sentido rítmico desde o útero da mãe. Michel Jeandot relata um episódio extraordinário que aconteceu com uma criança de 2 anos que, a dada altura, se encanta com o som produzido por uma folha de cartolina manuseada na sua mão que provocava uma cadência regular resultante de uma sucessão de sons repetidos, alternados por curtos momentos de silêncio. “Eu observei-a por algum tempo, e em seguida aproximei dela um tambor e duas baquetas. Qual não foi a minha surpresa ao ouvir a mesma cadência dos sons no tambor, produzida ainda com alternância de braços, o que é raro nessa idade! De facto, ela estava prestando atenção ao som que realizava.” Concluiu.

De resto, é consensual o efeito relaxante que a música suave exerce sobre o bebé mesmo durante a gestação, mas importa também ter em atenção que se deve ter especial cuidado em não expor o feto e o bebé a níveis sonoros elevados, mesmo com música tranquila. A Organização Mundial da Saúde (OMS) alerta que níveis de ruído acima de 75 decibéis (dB) são prejudiciais à audição humana e a professora de fonoaudiologia da Universidade Federal Fluminense (UFF), Karla Vasconcelos, avança que mesmo a exposição eventual pode causar danos consideráveis daí que se torna fundamental perceber os efeitos devastadores que o ruído ou sons com elevado volume podem acarretar na audição tendo que haver uma especial atenção com as crianças. Seria por isso salutar a interdição de bebés e crianças em concertos onde o nível de decibéis ultrapassa os limites saudáveis e uma mais apertada regulamentação relativamente a eventos dirigidos ao público infantil.

O ouvido deve ser considerado um órgão de grande fragilidade, mas ao mesmo tempo poderoso porque nos assegura uma especial ligação com a Casa Mãe que habitamos. As vozes do mundo e o arrebatamento dos temporais, o assobio das aves e o resfolhar dos campos, a poesia dita e a palavra bailada no ar. Toda esta orquestração de sons e de silêncios, é o ouvido que nos oferece e é também graças a ele que podemos experienciar vivencias musicais avassaladoras. E haverá poucos, muito poucos excertos na nossa vida que nos proporcionem um arrebatamento tão apaixonante como o da audição de uma obra musical, seja ela mais ou menos erudita porque o que verdadeiramente importa é que nos sintamos emocionalmente conectados.

Sobre a música, muito já se escreveu, mas nunca as palavras serão suficientes para traduzir em pleno e de forma justa o seu mágico poder. Para Beethoven a música unia a vida do espírito à vida dos sentidos. Dizia ele que a melodia era a vida sensível da poesia. 

A música entrou no ADN emocional da humanidade desde tempos pré-históricos. Estudos arqueológicos sugerem que os primeiros instrumentos musicais, como flautas feitas de ossos, datam de há mais de 40 mil anos. Segundo a tese de Jeremy Montagu, musicólogo da Universidade de Oxford, “a música pode ter começado com sons naturais e a imitação desses sons pelo homem primitivo, desempenhando um papel vital na comunicação antes do desenvolvimento da linguagem.” As pinturas rupestres também sugerem que a música já desempenhava um papel importante em cerimónias e na coesão social.

Hoje é consensual que o impacto positivo da música vai além da sua fruição lúdica. Integrando terapias de recuperação ou coadjuvando na educação integral das crianças promovendo-lhes equilíbrio emocional e desenvolvimento cognitivo. Certo é que a música exerce uma função tão essencial que levou Nietzsche a afirmar que “Sem música a vida seria um erro”.

No contexto escolar, as actividades musicais proporcionam às crianças uma melhor e mais feliz interação com os seus pares além de lhes permitir desenvolver uma melhor noção do seu corpo. A música funciona como um gatilho de emoções que a criança irá exprimir dançando, brincando, mimicando e por isso a educação musical e auditiva é um instrumento poderoso de crescimento cognitivo, motor, emocional e social da criança. Há estudos neurocientíficos que demonstram que a prática musical desde os primeiros anos de vida estimula a plasticidade cerebral, favorecendo a formação de conexões neurais entre várias áreas do cérebro, auditivas, motoras e cognitivas. o que potencia funções como memória, atenção, raciocínio, linguagem e criatividade ajudando no desenvolvimento de competências fundamentais para o sucesso académico e pessoal.

Do ponto de vista psicomotor, a educação musical potencia a coordenação motora fina e grossa que acontece principalmente quando a criança aprende a tocar um instrumento, a acompanhar ritmos com o corpo ou a dançar. 

No plano emocional e social, a música oferece oportunidade de expressão e também de autorregulação. Como já referimos ouvir música permite exteriorizar sentimentos, contribuir para a autoestima e construir empatia, tal como quando cantamos ou tocamos, especialmente se houver atividades coletivas envolvidas (corais, conjuntos, grupos). Neste último caso, quando está em causa a integração num grupo que exige um esforço colectivo, a nossa prática musical permite trabalhar e desenvolver outras competências essenciais como disciplina, persistência e sensibilidade estética.  

Podemos por isso reforçar a convicção de que a educação musical é indiscutivelmente uma das dimensões fundamentais no processo de desenvolvimento infantil e torna-se desta forma trágico o desinvestimento das políticas educativas estatais neste campo porque, definitivamente, os 90 minutos de Educação Musical oferecidos no 2º ciclo às crianças é ridiculamente constrangedor e ofensivo principalmente nos moldes em que é feito e circunscrito a uma fase da escolaridade.

                                                                                                                                                                Paula Timoteo

Paula Timóteo

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