Harmonia Radical I Colecção Neo-Impressionistas de Helene Kröller-Müller

Harmonia Radical na National Gallery, em Londres: como Seurat, Signac e outros se envolveram com a política turbulenta da sua época

Até 8 de Fevereiro de 2026 pode-se admirar a exposição: “Harmonia Radical

Colecção Neo-Impressionistas de Helene Kröller-Müller” na National Gallery, em Londres. Com artistas como Anna Boch, Jan Toorop, Henri-Edmond Cross, Théo van Rysselberghe e Signac, a mostra destaca Seurat e o seu meio artístico à luz da política da época. À medida que uma nova exposição salienta os artistas Neo-impressionistas admirados pela coleccionadora Helene Kröller-Müller, onde a escritora Jessica Lack analisa as ideias que os impulsionaram na sua busca por inaugurar uma “era de felicidade e bem-estar”.

Georges Seurat era um anarquista com uma paixão pela harmonia — um visionário que não via contradição entre revolução e simetria. Todos aqueles pontos de cor cromaticamente equilibrados, aplicados minuciosamente na tela, aludiam tanto à autodisciplina e à ajuda mútua quanto à observação científica.

Como líder do movimento Neo-impressionista, Seurat foi pioneiro no “pontilhismo”, uma técnica que consistia em colocar cores complementares lado a lado para alcançar luminosidade. Os resultados tornavam o mundo comum extraordinário: “Grandes coisas são feitas por uma série de pequenas coisas reunidas”, ele disse certa vez.

Se isso parece em desacordo com o que o poeta John Milton descreveu como o “caos selvagem” da anarquia, vale lembrar a célebre declaração do filósofo francês Pierre-Joseph Proudhon de que “Anarquia é ordem.” Para Seurat e os seus companheiros conspiradores, o anarquismo era sobre a liberdade de impor as suas próprias regras e estruturas sem a função do governo: “Justiça na sociologia, harmonia na arte: a mesma coisa”, disse Paul Signac.

Actualmente, a Belle Époque é celebrada pela sua decadência e glamour — um mundo de balarinas de cancan e lembranças proustianas. No entanto, também foi uma era de extrema desigualdade e conflitos industriais. Essa dicotomia é exemplificada nas duas obras-primas de Seurat, “Banhistas em Asnières” e “Um Domingo na Ilha de La Grande Jatte”, ambas pintadas em 1884. Uma retrata nadadores da classe trabalhadora contra o pano de fundo de fábricas e fumaça de chaminés, enquanto a outra mostra a classe média fazendo piqueniques na agradável ilha de La Grande Jatte.

O co-curador da exposição, Julien Domercq, afirma que as pinturas dos neo-impressionistas causaram ondas de choque na sociedade parisiense: “O pontilhismo é uma técnica sistemática que eliminou a natureza arbitrária do impressionismo. Em vez de impressões fugazes, Seurat e Signac elaboraram um método que parecia remover a individualidade do artista.” Isso, junto com a crítica social à sociedade francesa, fez com que os artistas fossem denunciados como iconoclastas. Os críticos argumentavam que o pontilhismo era a morte da pintura — mas isso pouco incomodava Seurat. Ele acreditava que o Estado precisava ser esmagado para que uma nova forma de sociedade pudesse emergir. Por que não aplicar a mesma lógica à pintura?

De muitas formas, esse radicalismo surgiu como consequência da efêmera Comuna de Paris, em 1871. Seurat e os seus colegas neo-impressionistas cresceram após a brutal repressão da comuna, mas algumas das suas ideias progressistas — como sindicatos de trabalhadores e ajuda mútua — encontraram apoio popular na cena anarquista em ascensão durante a década de 1880.

O jovem jornalista anarquista Félix Fénéon foi quem baptizou o movimento de “Neo-impressionismo”. Ele via Seurat como um artista à frente do seu tempo, proclamando que ele e os seus seguidores representavam o futuro da arte. A morte prematura de Seurat, em 1891, somada à onda de violência e atentados anarquistas que assolou Paris nos anos seguintes, interrompeu essa visão.

A coleccionadora Helene Kröller-Müller era mulher de um comerciante holandês, que vivia em Haia, se tornou uma entusiasta tão apaixonada desse movimento artístico radical.

Esta colecção dos Neo-impressionistas pode ser encontrada na singular “casa-museu”: o Museu Kröller-Müller e o seu jardim de esculturas, localizados no Parque Nacional De Hoge Veluwe, no Países Baixos. Este verdadeiro templo da arte moderna foi criado pela filantropa Helene Kröller-Müller em 1938, como um espaço dedicado à investigação espiritual e filosófica. Actualmente, possui um acervo de 11.500 obras, incluindo uma das melhores colecções de Van Gogh do mundo e uma impressionante selecção de pinturas neo-impressionistas.

Kröller-Müller era uma mulher fora do comum, nasceu em Essen, na Alemanha, em 1869, ela rejeitou cedo a religião organizada, procurando uma experiência mais espiritual por meio da arte. O seu interesse pelos neo-impressionistas começou em 1912, quando visitou o estúdio de Signac acompanhada do seu mentor, o crítico de arte H.P. Bremmer. Foi lá que adquiriu uma das suas pinturas favoritas: “O Canal de Gravelines, na Direção do Mar” (1890), de Seurat, uma obra fascinante que retrata uma cidade portuária fortificada no norte da França.

A Exposição: “Harmonia Radical: Os Neoimpressionistas de Helene Kröller-Müller “apresenta algumas das obras mais célebres de Seurat da colecção Kröller-Müller, como “Domingo em Port-en-Bessin” (1888) e “O Canal de Gravelines”. Entre outras obras estão “Em Julho, antes do Meio-dia e O Pomar” (1890), de van Rysselberghe, meticulosamente compostas, incluindo uma pintura de chá no meio a um festival de verdes-limão e amarelos vibrantes que parecem pulsar com o calor do dia; “Crepúsculo” (cerca 1889), de Henry van de Velde, de atmosfera envolvente; e “A Sala de Jantar, Opus 152” (1886-87), de Signac, que transmite toda a rigidez e repressão da respeitabilidade da classe média.

A dominação dos Neo-Impressionistas na vanguarda artística foi breve. A tragédia atingiu o movimento em 1891, quando Seurat faleceu repentinamente, possivelmente de pneumonia, aos 31 anos. Sem o ‘Messias de uma nova arte’, o movimento teve dificuldade em se manter relevante, embora as suas ideias tenham influenciado modernistas posteriores, como Piet Mondrian e Barnett Newman.

Alguns anos após a morte de Seurat, Signac pintou a eufórica obra “No Tempo da Harmonia: A Idade de Ouro Não Passou, Ainda Está por Vir”. O quadro surgiu em resposta ao apelo de Henri-Edmond Cross, que sugeria abandonar a representação dos conflitos sociais em favor do futuro utópico almejado: “Vamos imaginar, em vez disso, a era sonhada de felicidade e bem-estar,” escreveu ele, “e mostrar as acções humanas, seu lazer e o seu trabalho nesta era de harmonia geral.”

Theresa Bêco de Lobo

Theresa Bêco de Lobo

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