O ano tinha acabado de nascer quando Pousão abriu pela primeira vez os olhos para um mundo onde viveria por escassos 25 anos. Pensar na morte de um jovem amarga-nos a alma porque é difícil aceitar um desaparecimento precoce. Há, no entanto, vidas que se cumprem de uma forma tão absolutamente plena e bela que os curtos anos significam na verdade muitos mais.
Henrique Pousão nasceu em Vila Viçosa no dia 1 de Janeiro de 1859 e ali morreria em Março, o mês da Primavera, tempo do esplendor das árvores em festa e das flores. E seriam exactamente as flores o tema inspirador do jovem pintor naquela que foi a sua última pintura dias antes de morrer.
Ainda em criança, Pousão evidenciara um talento raro que não foi, felizmente, ignorado pela família. É inevitável surgir-nos de imediato a imagem do pequeno Henrique de olhar inocente e doce desenhando a lápis retratos que causavam espanto aos que os rodeavam. Nem imaginava ele na altura, e certamente nem os pais, apesar de toda a admiração que sentiam, a dimensão que viria a alcançar no panteão dos maiores pintores de sempre.
Após uma curta passagem por Barcelos onde viveriam 2 anos, a família fixa-se no Porto em 1872 e será aí que Pousão, com apenas 13 anos, entra no atelier do pintor António José da Costa de forma a preparar-se para ingressar na Academia Portuense de Belas-Artes, antecessora da FBAUP. Será nesta instituição que, 7 anos mais tarde, se formaria em Desenho Histórico, Arquitectura Civil, Escultura e Pintura Histórica. Na Academia, onde obteve sempre todos os anos as classificações mais elevadas, foi discípulo de Tadeu de Almeida Furtado e de João António Correia, mas muitos consideram que foram as obras de Silva Porto e Marques de Oliveira que o conquistaram e influenciaram de forma mais marcante. Existe alguma discussão sobre a dimensão clara da influência destes pintores que chegam ao Porto em 1877 e trazem consigo os ventos da modernidade. Para uns parece inegável a influência de Marques de Oliveira em “Dafné e Cloé”, prova final de Pousão na Academia e que alcançou nota máxima. Para outros, Pousão antecipara-se e já havia intuído as marcas do Naturalismo da escola de Barbizon. O historiador de arte Carlos Silveira menciona que “no último ano de estudos, as paisagens que Silva Porto remete de França são-lhe uma grande revelação, transmitindo uma paleta de cores mais clara, que registava trechos de uma natureza simples e autêntica.”
É evidente que não podemos descontextualizar o tempo em que Pousão fez a sua formação, que aliás coincidiu com o seu tempo de vida como artista. Pousão surge numa época de grande fulgor para a pintura portuguesa, e já aqui fizemos desse facto referência num extenso artigo sobre o Naturalismo na revista de Setembro. Havia na altura uma nova geração de pintores como Silva Porto, José Malhoa, António Ramalho e Columbano Bordalo Pinheiro. Uma geração de ouro que defende uma nova forma de trabalhar e interpretar paisagens e costumes rurais do país, mas igualmente retratando as suas vivências urbanas.
Em 1880, Pousão ganha uma bolsa de estudo, na classe de pintura de paisagem para complementar a sua formação em Paris onde chega a 2 de novembro de 1880. Na cidade da luz, irá frequentar os ateliers de Alexandre Cabanel e, posteriormente, de Adolphe Yvon. A prática do desenho constitui o motivo central da sua aprendizagem e em 1881 é admitido na exigente Escola de Belas-Artes de Paris. Supõe-se que visita o Salon de Paris na companhia de Soares dos Reis e de Sousa Pinto e mais uma vez ecoa na nossa imaginação as vozes entusiásticas dos 3 jovens artistas. Que projetos, que sonhos, que medos ressoariam na alma de cada um?
Pousão trabalha intensamente. Pinta as margens do Sena, ou em locais como o jardim do Luxemburgo ou no bosque de Bolonha. Um amigo que o visitou naqueles dias deixou testemunho desta fase intensa: “Henrique Pousão começou com verdadeira febre os seus estudos. Os museus, as praças, os edifícios, os costumes, tudo enfim é para ele motivo de observação e análise artística. […] Trabalha com um afã extraordinário”.
Como bolseiro na categoria de Paisagem, Pousão estava preocupado com o trabalho que tinha de enviar à Academia Portuense até ao final do ano. O seu empenho e entusiasmo em pesquisar ideias para esse trabalho acaba por o levar a expor-se aos rigores do Inverno parisiense. Após uma saída que faz aos arredores da cidade para pintar um efeito de neve, contrai uma bronquite aguda que o irá afectar durante os meses seguintes. No verão desse ano, é obrigado pelo médico a fazer uma estadia nas termas de La Bourboule, no departamento do Puy-de-Dôme. Sentindo uma melhoria do seu estado, realiza na aldeia vizinha de Saint-Sauves uma série de três pinturas importantes, que foram o seu primeiro envio como estudante de paisagem.
Infelizmente, o agravamento dos problemas de saúde obriga-o a viajar para Roma, a conselho médico, onde o clima se apresentava mais adequado ao seu estado. Em Dezembro desse ano, instala-se no Instituto de Santo António dos Portugueses.
No ano seguinte, toma a difícil decisão de desistir da Academia de Belas-Artes de Paris. Numa carta que escreve ao pintor Marques de Oliveira confessa: “Como deve saber, vou deixar daqui a alguns dias Paris com destino a Roma. Fui obrigado pela saúde a tomar essa resolução, porque de contrário já não desejava fazer esta viagem e deixar esta linda cidade que ri sempre…”
Em Paris vivia-se o epicentro do que de melhor se fazia então na Europa, o ambiente era fertilmente inspirador e para o jovem Pousão aquela resolução terá representado uma forte desilusão, mas as cores e os ambientes italianos irão ter um impacto tão forte no seu vocabulário pictórico que não resistimos a conjecturar se teria ele sido tão intensamente singular caso tivesse ficado em Paris.
Com a autorização dada por parte da Academia portuense, consegue manter a bolsa em Roma. Aluga um atelier e integra-se no Círculo Artístico de Roma, nome dado à comunidade de artistas, principalmente pintores e escultores, de origens diversas que se concentrava em Roma, um dos grandes centros de formação artística da Europa. O Círculo representava um cosmopolitismo rico que se dividia por ateliers, academias, salões, cafés e residências.
Na recente capital italiana Pousão, muito embora não se incompatibilize com o academismo, acabará por se distanciar da narrativa naturalista ou, talvez seja mais correcto dizer, fará uma ligação entre o naturalismo e um pré impressionismo, embora sem ter adoptado plenamente a decomposição cromática impressionista.
Integrado no Círculo Artístico e influenciado também pelo ambiente da cidade, Pousão começa a interessar-se pela pintura de costumes, a partir dos modelos femininos que posavam habitualmente para os artistas com trajes regionais dos arredores de Roma, de Nápoles ou da Calábria. De acordo com alguns críticos, Pousão terá ficado fascinado não tanto pelo lado pitoresco do traje, mas encantado com a oportunidade de investigação formal.
Recorrendo a pequenas tábuas, uma prática encontrada no circuito naturalista e realista europeu, ele também se dedicará a pintar ruas, caminhos, pátios, casas, trechos de paisagens. A pintura “Casa de Persianas Azuis” é uma das mais icónicas pinturas de Pousão.
Talvez faça sentido aqui uma breve referência à pintura sobre madeira que nos remete para épocas mais antigas ocorrendo-nos de imediato a imagem dos retábulos. De facto, desde a Antiguidade e até ao final da Idade Média, altura em que a tela se impôs como suporte preferencial dos artistas, as pinturas ou eram feitas sobre madeira, ou na pedra (os chamados afrescos, nas paredes) ou em pergaminho (as iluminuras). Mas ao longo do século XV, os artistas venezianos foram procurando soluções mais práticas concluindo que o processo de esticar tecidos sobre molduras de madeira como algodão, mas, especialmente, o linho que era mais durável, acabava por oferecer muito mais leveza e flexibilidade. Por isso, no tempo de Pousão, a madeira tinha perdido o seu protagonismo como suportepictórico, apesar de uma certa recuperação de uso por parte dos Naturalistas.
Coloca-se então a questão: por que razão o jovem pintor optou por este material em muitas das suas obras? Bom, considera-se que a madeira lhe conferiria um maior controlo do gesto e precisão para o estilo de pincelada que ele adoptara, mas é inevitável também pensarmos que a madeira encerra em si um valor simbólico já que ela nos conecta com a terra e com a natureza de uma forma mais evidente, mais vigorosa do que a conseguida com as telas. Somemos ainda um outro pormenor interessante: comparando com a tela branca, a madeira recebe as cores com um timbre cromático diferente e certamente mais próximo com o efeito que Pousão pretendia. Uma luz que reflectia, de forma mais precisa, o que ele observava quando demorava o olhar sobre as paisagens que se ofereciam com benevolência e calmaria. Mas ainda poderá ser apontada uma outra razão, de ordem mais pragmática. Pousão produziu muito, cerca de 200 trabalhos nos escassos anos de actividade (quem sabe se a doença e o pressentimento de uma partida precoce o impelissem a essa urgência, a esse mergulho no esquecimento de si?) e o facto de a madeira proporcionar uma secagem mais rápida das tintas era condizente com a sua pressa de conclusão das obras.
É em Roma que Pousão pinta, entre muitas obras, Esperando o Sucessouma das pinturas mais carismática e interessante. Nela podemos ver um ciociaro, um habitante da região italiana do Lácio, representado como um rapazinho traquina, meio andrajoso, que se encontra num ateliê a servir de modelo e que é captado no momento de pausa da pose. De forma atrevida, ele mostra um desenho que poderá ser o retrato que fez de alguém.
Considera-se que este é, em grande medida, um auto-retrato simbólico visto que também Pousão espera alcançar o sucesso. A ideia do artista que ainda o não é que aproveita a ausência do verdadeiro pintor para tomar o seu lugar e mostrar com olhar matreiro, a sua obra, na expectativa de acolhimento, são aspectos que aparentam ser uma projeção de Pousão e das circunstâncias em que se encontra. Pode talvez mesmo dizer-se, como muitos defendem, que esta obra representa uma dimensão de “manifesto” artístico enviado de Roma pelo jovem pintor aos seus mestres.
Os elementos existentes no quadro, a forma como se organizam e como a figura central se apresenta, denota uma forma tão singular de trabalhar o tema que causou profunda admiração na Academia do Porto e para os académicos, fica confirmado o talento do jovem Pousão que já havia demonstrado durante os anos que ali passara em formação. A obra fez parte do cumprimento de remessa de trabalhos correspondente ao segundo ano de pensionista no estrangeiro e Pousão terá sempre este cuidado meticuloso de nunca falhar nos seus compromissos.
A pintura foi exibida em 1883, na Galeria Atheneu D. Pedro e, depois, na Exposição Trienal da Academia de Belas-Artes do Porto, no mesmo ano da morte do jovem pintor, em 1884.
Em 1882 produz significativas obras em Nápoles e Capri.
Nas paisagens de Pousão encontramos um entendimento e tratamento da luz originais que são a sua assinatura. Podemos confundir autorias em muitas paisagens de outros pintores naturalistas, mas quando estamos diante de um quadro de Pousão, por muito que ele seja para nós desconhecido logo reconhecemos naquela obra, o jovem mestre. Os seus retratos respiram uma autenticidade invulgar, uma crueza encontrada na simplicidade, na beleza cromática do vestuário. Nas figuras populares, tudo é palpável, próximo. São obras que revelam a Itália vista por um jovem que sente a vida galopar para fora de si, alguém que enche o seu corpo doente das cores vibrantes de Capri se deita nas paisagens de um poético colorido, se cumpre em exercícios de captação de luz e pinturas de género como em Cecília (MNSR), uma figura que traja a habitual indumentária dos modelos “ciociaro”, sendo aqui bem visível a blusa branca e o lenço colorido sobre os ombros, o habitual colar de contas de coral e a tradicional cobertura de cabeça.
Tudo o que Pousão fez em escassos anos revela uma modernidade precocemente amadurecida e invulgar no panorama artístico português de tal forma que Portugal levará décadas a reconhecer-lhe totalmente a dimensão. Considerado por muitos críticos como o mais inovador pintor português da sua geração, Pousão incorporou sabiamente na sua obra naturalista, influências de pintores impressionistas como Pissarro e Manet, mas as suas obras ultrapassam as fronteiras estéticas da pintura do seu tempo introduzindo pormenores desconcertantes e subtis que nos interpelam e nos permitem ficar a conhecer não apenas o Naturalismo, como a reconhecer já os traços luminosos do movimento que se seguirá porque Pousão tinha o que Carlos Silveira chama, “instinto colorista”.
Aliás, no entender de alguns críticos, Pousão inscreve-se mesmo numa lógica mais impressionista do que naturalista apesar de considerarem que confere a este movimento aspectos diferenciadores dos grandes impressionistas franceses. Abel Salazar diria de Pousão que este “não dissolve o objecto na vibração luminosa, não o dilui na atmosfera: apenas faz vibrar diante do objecto o écran luminoso. Na sua impressão, a matéria (qualidade) e a luz estão doseadas por forma tal, que a luz apenas fluidifica a matéria, sem a dissolver. Por outro lado, a velocidade da impressão óptica é moderada; não cabe assim na vertigem alucinatória das impressões ultra-rápidas. O estático e o que flui combinam-se na impressão de Pousão por forma tal, que a fluência domina, sem que o estático desapareça. Este equilíbrio representa, segundo creio, uma das mais sólidas intuições do artista e uma das qualidades que dão carácter mais perdurável à sua obra. Desta maneira, o artista não se deixou arrastar para exageros brilhantes, mas instáveis, no género, por exemplo, da pirotécnica fulgurante das catedrais de Manet”. Em 1934, numa altura em que Pousão ainda se mantinha numa incrível penumbra do desconhecimento, o mesmo Abel Salazar haveria de dizer, numa clara manifestação de entusiasmo, que Pousão podia não ter atingido “a elevação espiritual de Whistler”, mas que “era superior a Monet, a Sisley e a Pizarro. Mais luminoso e harmónico do que Monet, mais forte do que Sisley, incomparavelmente superior a Pissarro, o seu lugar é na primeira fila dos mestres desta escola”. Por sua vez, o advogado, jornalista e crítico de arte e de teatro, Joaquim Madureira, ou Brás Burity se preferirmos o seu pseudónimo, afirmou um dia que mesmo que Henrique Pousão tivesse destruído tudo o que pintara, mas se dessa destruição “houvesse escapado, por milagre, o «Retrato da Irmã» com os seus negros, o «Quintal da casa de Vila Viçosa» com os seus brancos, a «Impressão de Roma» com as suas águas, só com essas três pequeninas jóias de beleza, de técnica e de perfeição, um expoente sintético da escola impressionista de Monet, um breve e luminoso resumo de toda a obra pictórica de Renoir, Degas e Sisley, Henrique Pousão seria assim mesmo, e só por isso um dos grandes impressionistas de todo o Mundo, um grande paisagista de toda a parte e um dos grandes mestres entre os mestres pintores de Portugal”.
Naturalista, reinventando os modelos tradicionais da paisagem e da pintura de costumes e apontando dessa forma uma via diferenciada, pré impressionista ou mesmo um evidente Impressionista com um tratamento da luz, da cor e da pincelada muito particular, o certo é que há incertezas sobre o melhor enquadramento numa determinada corrente artística. E as diferentes visões têm alimentado um interessante debate. Mas o que não oferece dúvidas é o reconhecimento da sua modernidade, uma interpretação da luz e da cor reveladoras de uma sabedoria própria de um velho mestre apesar de Henrique Pousão mal tenha tido tempo de deixar a adolescência quando se despediu da vida.
Quando a tuberculose o vence aos 25 anos, temos a convicção que foi certamente chamado para que, liberto da sua mortalidade frágil e incapacitante, pudesse continuar a pintar o sublime junto de um divino lugar que será certamente seu por mérito próprio.
Paula Timóteo

