Amélia Rey Colaço nasce no dia 2 de Março de 1898 no seio de uma família privilegiadamente ligada ao mundo artístico. Era ainda muito jovem quando soube com uma certeza inquebrável que o palco de um teatro seria em grande medida o seu palco de vida. Em Dezembro de 1911, parte com a sua irmã Maria para casa da avó materna em Berlim, a fim de estudarem música. Na altura, Amélia tocava violino que acabaria por abandonar e a irmã piano e será precisamente em Berlim que a linha de vida de Amélia muda e o violino passará a ficar na caixa.
A casa da avó onde viveu não era apenas um lar acolhedor e familiar. Ali vivia-se o epicentro de serões de tertúlia partilhados por muitos do que viviam intensamente a vida erudita da capital. Na casa da avó, as jovens estudantes conviviam com um ambiente culturalmente privilegiado que, de resto, não lhes era estranho visto que em Portugal, na casa paterna, também haviam tido esse privilégio. Vários elementos da família estavam ligados à vida artística a começar pelo pai, Alexandre Rey Colaço, que era pianista e compositor tendo sido professor dos príncipes D. Luis Filipe e D. Manuel. Numa entrevista dada ao também actor e locutor Igrejas Caeiro, em 1955, Amélia Rey Colaço, a mais nova de 4 filhas, haveria ainda de referir as duas irmãs artistas, Maria e Alice que era cantora e pintora. Havia ainda um primo, Jorge Colaço, pintor e caricaturista a mulher deste, Branca de Gonta, poetisa e dramaturga, os filhos do casal, o escritor e dramaturgo Tomás Ribeiro Colaço, a escultora Ana Raymunda Colaço e a escritora Maria Christina Colaço. Por isso é legítimo dizer-se que um código genético invulgar corria nas veias e alma da família.
Mas em Amélia além de um capital cultural invulgar e que ia sendo forjado pela educação a cargo sobretudo da mãe que se encarregava da escolarização das filhas, pulsava-lhe na alma um outro tipo de herança, a que uma ascendência franca-alemã lhe legou. O avô paterno era francês, a sua mãe nasceu em Valparaíso, no Chile, e era filha do cônsul alemão Hermann G. Schmidt que ali estava em serviço e da francesa da francesa Marie Alice Constant Lafourcade e descendendo assim de uma elite cultural europeia de origem francesa e alemã. Amélia é ainda descendente, pelo lado materno, da alemã Madame Kirsinger, conhecida proprietária de um dos mais conhecidos salões literários e musicais de Berlim.
Mas, e apesar do contexto familiar se fundir com o meio artístico, a casa dos pais recebia com regularidade alguns dos maiores vultos da cultura: músicos, pintores, escritores, artistas, não deixava de ser considerado inapropriado uma jovem pisar os palcos do teatro que não era ainda assumido com a seriedade e confiança cultural de outras manifestações artísticas. Como é que na altura, uma jovem conseguiu romper com as barreiras que o preconceito social faziam surgir? Em 1954, na entrevista a Igrejas Caeiro e já aqui mencionada, Amélia Rey Colaço confessa que se havia apaixonado pelo Teatro aos 14 anos “Fui para a Alemanha estudar violino e foi aí que tive a sorte de ver os espectáculos de Max Reinhardt e perdi a cabeça com o teatro. Já não pensei mais em outra coisa. Apaixonei-me” e acaba por recordar particularmente um dia em que regressava de um espectáculo absolutamente deslumbrada a tal ponto que nos dias seguintes obrigaria a irmã a assistir a representações suas. Fora de resto a avó quem a incentivara a ver um espectáculo de Max Reinhardt e tudo ali a deslumbrou.
A actriz diria um dia o seguinte: “Entrou-me nas veias o veneno do teatro e nunca mais me largou. Ainda hoje o sinto bem vivo” uma confissão que daria o mote ao título da sua biografia escrita por Vitor Pavão Santos em 2015.
Regressada a Portugal inicia aulas com Augusto Rosa por quem confessava sentir “imenso orgulho e saudade. Um extraordinário amigo do meu pai” que vai tentando demovê-la do caminho da representação dado que era uma opção profissional considerada quase um escândalo se assumida por uma mulher e até imprudente para alguém vindo de um meio social privilegiado. Mas para Amélia era tão certo desejar ser atriz quanto o respirar. A atriz confidenciaria anos mais tarde, numa entrevista dada em 1983 ao jornalista Jorge Cobanco, que teve de lutar bastante para convencer o seu professor a ceder diante a sua escolha. Augusto Rosa não só ficou convencido como tomou em mãos o papel de convencer os pais, que sentiam algumas reservas quanto aos desejos da sua filha, a deixá-la seguir o seu vôo.
Em 1917, com apenas 19 anos faz a sua estreia no Teatro República, atual São Luiz, com uma peça, “Marinela” da autoria de Benito Pérez Galdós na época bastante conhecido e aplaudido, assumindo o papel de companheira de um cego. Curiosamente fora precisamente o pai quem aconselhou a peça. A mãe irá sempre acompanhá-la durante os ensaios acabando por se confessar agradavelmente surpreendida com o ambiente de profundo profissionalismo e respeito que tinha encontrado naquele contexto. Amélia Rey Colaço entrega-se de alma e coração à construção da personagem começando por andar descalça, mesmo em casa e nos jardins.
Depois de “Marinela”, Amélia não mais deixará de estar ligada ao teatro seja como atriz, encenadora ou dirigindo a companhia que fundaria com o marido, Robles Monteiro.
Em dezembro de 1920, numa capela armada em casa dos pais para evitar a imprensa, casa-se com o actor Robles Monteiro, dez anos mais velho, a quem jura todos os sacramentos “menos o da obediência que esse não podia cumprir a um homem mesmo sendo meu marido” (documentário RTP). São ambos actores do teatro D. Maria onde Amélia se estreara recentemente com a peça “Um sonho numa noite de Agosto”. A propósito desta estreia não deixa de ser interessante o facto da irmã Alice ter colaborado com a concepção e pintura do padrão do figurino destinado a ser usado por Amélia. Um fato, que se encontra no museu do teatro e considerado pelo seu director como um dos mais belos do acervo, claramente inspirado em Gustav Klimt o que confirma um conhecimento actualizado e abrangente acerca dos movimentos artísticos e principais protagonistas por parte de Alice.
No ano seguinte o casal funda uma companhia de teatro: a Companhia Rey Colaço-Robles Monteiro que foi a mais duradoura companhia teatral da Europa, sendo que há quem considere que seja mesmo a mais duradoura do mundo, com 53 anos de existência 46 dos quais sediada no Teatro Nacional D. Maria II. Foi oficialmente extinta em 1988 após anos de luta contra infortúnios que começaram com o devastador incêndio no teatro D. Maria II em 1967 e 3 anos mais tarde o incêndio no teatro Avenida para onde a companhia se havia mudado.
Em 1922, e confessadamente deslumbrada pela 7ª arte, faz a sua única incursão no cinema ao lado do marido no filme “O primo Basilio” no que acabaria por ser uma desilusão declarando mais tarde que se tinha detestado ver, que tinha achado tudo muito falso e por isso nunca mais quis repetir a experiência. Décadas mais tarde participaria na série de comédia da RTP 1 “Gente Fina é outra coisa”, emitida entre 1982 e 1985. Uma experiência que não lhe agradou minimamente tendo considerado que a sua personagem não fora eficazmente concebida. Acabaria mesmo por confessar a sua tristeza ao constatar que em espaços públicos era mais facilmente reconhecida pelo seu papel na série do que por qualquer outro ao longo da sua vida.
No final de 1922 nasce a única filha, Mariana, que também iria optar pela carreira de actriz. Sobre essa escolha Amélia Rey Colaço confessaria que se tinha oposto e até com mais convicção e durante mais tempo do que os seus pais em relação a si porque sabia, já nessa altura, que aquela era uma paixão sofrida de se viver. Mas tanto ela como o marido acabariam por ceder e Mariana faz a sua estreia no D. Maria II aos 24 anos.
Do marido, Amélia Rey Colaço falaria sempre com profundo amor e gratidão. Em entrevista a Jorge Cobanco, em 1983, reconhece a generosidade do marido que desistira da própria carreira para satisfazer os sonhos da esposa. Amélia diria na altura que o marido se foi “apagando” em grande medida por culpa da pesada tarefa que a administração da Companhia representava e que Amélia Rey Colaço passaria a administrar sozinha a partir de 1958, após a morte de Robles Monteiro.
Amélia Rey Colaço e Robles Monteiro
Em 1929 e após uma digressão de sucesso no Brasil, o casal concorre e ganha a concessão do Teatro D. Maria II. Após meses de obras de recuperação conseguem abrir as portas para apresentar a peça “O Alfageme de Santarém”, de Almeida Garrett que voltará a ser encenado muitos anos mais tarde, em 1978, aquando da reabertura depois do grande incêndio de 1964.
Os anos 30 serão um tempo de enorme actividade consolidando D. Maria II como um lugar de prestígio que oferecia um repertório abrangente e exigente. Era ali que o Teatro acontecia a nível nacional! À frente da companhia, Amélia Rey Colaço e Robles Monteiro trouxeram aos palcos portugueses obras de grandes dramaturgos internacionais como William Shakespeare, Luigi Pirandello, George Bernard Shaw e Tennessee Williams, sem nunca esquecer ou menorizar a dramaturgia nacional levando ao palco nomes grandes como José Régio, Virgínia Vitorino, Bernardo Santareno, Luís de Sttau Monteiro, entre outros. O resultado do trabalho rigoroso, sério e de entrega sem máscaras à arte do teatro, alternando obras clássicas com o de melhor o modernismo oferecia, permitiu aproximar o teatro português dos grandes movimentos europeus.
Quando ouvimos o nome de Amélia Rey Colaço surge-nos de imediato a imagem de um palco, de uma voz e presença que se impõem de forma absolutamente singular. E de tantos papéis representados, a diva do teatro português sublinharia na conversa tida com Igrejas Caeiro em 1954 que talvez tivesse sido a Castro a que mais comoção e mais alegria lhe dera tendo explicado que não fora “pelo trabalho de intérprete, mas porque por muito tempo havia sido criada a lenda que seria irrepresentável por ser muito pesada na íntegra. Considero que talvez um dos momentos de que mais me orgulho na minha carreira foi o ter tido um dia a coragem de dizer ao meu marido para fazermos A Castro na íntegra”. Convém lembrar que a A Castro ou Tragédia muy sentida e Elegante de Dona Inês de Castro, de António Ferreira é considerada a primeira tragédia clássica portuguesa. Baseada na vida e morte de Inês de Castro foi publicada pela primeira vez em 1587, embora tendo sido escrita entre 1558 e 1561 e desenvolve-se em 5 actos envolvendo um coro grego seguindo o modelo da tragédia clássica, com influência do teatro grego e latino.
Contudo as primeiras representações não tiveram grande sucesso “das primeiras vezes que levámos à cena no teatro da Trindade não teríamos mais de cerca de 10 espectadores, mas depois tivemos a enorme compensação de levar a Alcobaça e foram duas noites em frente do mosteiro com milhares de pessoas a aplaudir de pé e chorando connosco. Vieram pessoas do norte e sul do país”. De resto o espectáculo perdurou na memória e teve uma repercussão que a crítica publicada no Diário de Notícias na época ilustrou, “Amélia Rey Colaço acabara de encontrar a expressão definitiva de um espetáculo nacional.No templo gótico transformado pela magia da luz, aconteceu um milagre”.
Amélia Rey Colaço em A Castro
Atriz, encenadora e empresária teatral, Amélia Rey Colaço teve um papel decisivo na profissionalização e modernização da realidade teatral portuguesa ao longo do século XX. Mestre na arte de representar, Amélia Rey Colaço foi também responsável por lançar grandes actores nos palcos, como Eunice Muñoz, aluna predilecta de Amélia a quem Eunice considerava Mestra, Carmen Dolores, Maria Barroso, que Amélia Rey Colaço várias vezes defendeu das perseguições políticas, João Perry, Rogério Paulo, Ruy de Carvalho, entre tantos outros. E apesar de ser um nome gigante na arte da representação confessaria que “o germinar do espectáculo, a escolha e preparação das peças, todo o processo de encenação que antecedia o levar ao palco era talvez a parte mais emocionante. Há uma agitação interior em nós que é maravilhosa”. Enquanto o marido, Robles Monteiro, geria a parte financeira, ensaios e gestão, ela escolhia as peças, envolvia-se na concepção dos cenários e até nas questões de iluminação intervinha. Tinha ainda a preocupação e interesse em convidar artistas de renome, como Almada Negreiros, Eduardo Malta ou Rui LIno para colaborarem nos aspectos cénicos e em 1941 começa com Lucien Donnat uma das mais duradouras colaborações da sua carreira e uma das mais importantes relações de amizade. Donnat iria estar com a Companhia até ao seu fim desenhando figurinos e cenários.
Tudo no teatro era vivido com grande satisfação, antes das representações, durante e depois do pano descer. O teatrólogo Vitor Pavão, numa entrevista a propósito da biografia que escreveu sobre Amélia Rey Colaço, conta que após as representações a sala contígua ao camarim de Amélia enchia-se de gente, nomes proeminentes da cultura portuguesa como Ramada curto ou Álvaro Cortês, criando-se um ambiente de tertúlia que se prolongava até bem tarde, 2 ou 3 da madrugada.
Não devemos ainda esquecer que a actividade da companhia decorreu em grande parte durante o Estado Novo, período marcado pela censura, o que tornou ainda mais relevante a sua persistência na manutenção de um teatro culturalmente exigente. Apesar de tudo e de ter conseguido manter relações cordiais com o poder houve peças censuradas. Uma delas foi “Mãe coragem” de Bertolt Brecht. Amélia Rey Colaço fez tudo para conseguir fazer a peça considerando ter sido a maior afronta não o ter conseguido porque como empresária ela sentia que tinha a obrigação de mostrar o teatro de Brecht. Anos mais tarde seria a sua pupila, Eunice Muñoz que diria que ela era de uma generosidade enorme que aprendera muito Rui de Carvalho repreendia com delia fazê-lo o que a deixou, naturalmente muito feliz.
Em 1941
Nos últimos anos colaborou de perto na criação do museu do teatro doando peças, efectuando contactos e realizando diligências para que mais contributos pudessem ocorrer, aconselhando, apoiando com o seu conhecimento e experiência. Até ao fim da vida os projectos nunca a abandonaram, mas infelizmente aquele que seria a criação de uma pequena companhia de teatro funcionando como uma espécie de viveiro de actores, não conseguiu realizar.
Amélia Rey Colaço foi muito mais do que uma grande atriz: verdadeira construtora do teatro moderno português a quem beneficiou com a sua visão artística, coragem e dedicação incansável, marcou gerações de intérpretes e elevou o nível de exigência cultural em tempos particularmente difíceis. A sua herança permanece não apenas na memória do palco que pisou, mas na continuidade de um teatro que ajudou a profissionalizar, dignificar e transformar.
Paula Timóteo

