Educação I A Paciência

Há uma frase atribuída a Van Gogh, curta e simples como o são quase todas as coisas extraordinárias que traduz um apelo: “Ache belo tudo o que puder”. Certamente que Van Gogh acreditava que era na descoberta da beleza que se cumpre o nosso encontro com o mundo, nos seus pequenos e simples pormenores. Viver é respirar, olhar, sentir e ouvir beleza reconhecendo-a sem pressa, deliciando-nos no momento infinito da contemplação. É nesse encantamento permanente que o milagre da existência se realiza em plenitude. Mas para isso necessitamos de respirar o tempo inspirando profundamente as moléculas da vida, não apressando nada, mas também não perdendo tempo com o que não possui significância.

O poeta e filósofo do século XIX, Henry Thoreau, dizia que nada era “tão útil ao homem como a resolução de não ter pressa.” uma convicção que concordava em absoluto com o pensamento do historiador grego Heródoto (século V a. C) que culpava a pressa pelos erros cometidos. Pensamentos que o povo português traduziu para um simples “depressa e bem não há quem”. Bom, certo é que parece não haver dúvidas sobre os malefícios da pressa em oposição a uma ponderação cuidada que se conjuga com o tempo vagaroso. 

Sabemos também e com admiração o citamos muitas vezes, que as culturas orientais, particularmente a chinesa, japonesa e budista, encaram a paciência como um pilar central da sabedoria e da maturidade. Mais do que uma virtude social, é entendida como uma demonstração de harmonia interior, uma capacidade de observar o mundo com olhar atento e cuidadoso, aceitar que tudo tem o seu ritmo e confiar nos processos naturais. A ideia de que “o tempo é parte da solução” está profundamente enraizada em muitas narrativas, práticas filosóficas e expressões quotidianas orientais.

Na cultura chinesa, por exemplo, a paciência é associada à força interior e à capacidade de suportar dificuldades com resiliência e dignidade. O ideograma (rěn) frequentemente traduzido como “paciência”, é composto por duas partes:刃 (lâmina) na parte superior e 心 (coração) na parte inferior o que significa “suportar uma lâmina sobre o coração” ou seja, suportar dor, controlar emoções e aguentar dificuldades. Desta forma sugere-se simbolicamente que a verdadeira calma exige disciplina emocional e contenção. Importa não cair em equívocos: esta visão não é de passividade, mas de controlo consciente: saber quando avançar e quando esperar, mantendo lucidez e concentração.

É neste contexto cultural que surge, no imaginário ocidental, a expressão “paciência de chinês”. É evidente que esta expressão apresenta-se como demasiado simplista e redutora de todo um complexo entendimento conceptual, porém é irrefutável que se sustenta no facto de que várias tradições orientais têm valorizado e cultivado: a paciência como parte do desenvolvimento pessoal e comunitário. Em sociedades influenciadas pelo confucionismo, como a China, a Coreia ou o Vietname, a paciência é assim associada à virtude, à maturidade e ao respeito pelos outros. Saber aguardar com serenidade e mantê-la diante a adversidade, são vistos como sinais de sabedoria. 

Por isso, a capacidade de esperar, de adiar impulsos e de tolerar pequenas frustrações é uma competência fundamental no desenvolvimento infantil. Longe de ser apenas uma característica de temperamento, trata-se de uma habilidade aprendida, profundamente moldada pelo ambiente familiar e escolar, e amplamente estudada nas últimas décadas no campo da psicologia do desenvolvimento.

Os estudos clássicos de Walter Mischel, conhecidos como a “experiência do marshmallow”, mostraram que as crianças que conseguiam esperar por uma recompensa revelavam, anos mais tarde, melhor autorregulação emocional, maior persistência e melhor desempenho académico. Porque a autorregulação faz parte de uma componente de autonomia essencial à sobrevivência. Sobreviver aos impulsos primários é o que nos permite mantermo-nos saudavelmente vivos. Isso somado à persistência permite-nos evoluir numa trajectória de evolução. 

Contudo, a realidade que se presencia desde há alguns anos e que se tem agravado gradualmente, revela um sinal contrário a esta educação da espera, de controlar impulsos, gerir frustrações. Fruto de uma série de circunstâncias, fomos assistindo à normalização de cenários em que o “Não” passou a ser encarado como violência traumatizante quando dirigido às crianças enquanto a conjugação prática de “esperar” saiu da lista dos verbos conjugados. 

As razões que podemos identificar na família são diversas e de entre elas não podemos escamotear a existência de um mundo laboral pautado pelo stresse, pela competitividade feroz, pela desregulação dos horários e carga de trabalho excessiva que causa níveis de exaustão incompatíveis com atuações em contexto parental mais assertivas. Os pais não são pais em exclusividade. São trabalhadores que sentem uma pressão constante para atingirem mínimos e revelarem a produtividade que lhes garanta o emprego. Este facto que gera elevada exaustão física, mas sobretudo psicológica encontra no “Sim” aos filhos, uma estratégia tentadora de costurar sossego no final do dia, no final da semana, nas férias…e lentamente as crianças vão trilhando trajectos em algodão doce sem muscular emocionalmente a frustração do “Não” ou do “mais tarde, talvez”; “vamos pensar sobre o assunto”. A paz podre do “encolher de ombros” é isso mesmo…uma paz que apodrece o presente e futuro.

A neurociência confirma esta perspetiva ao mostrar que as funções executivas, onde se incluem o controlo inibitório, a atenção e a regulação emocional,  desenvolvem-se de forma gradual e prolongada, influenciadas pela qualidade dasinterações sociais. Crianças que vivem em ambientes com rotinas consistentes, limites claros e adultos emocionalmente disponíveis desenvolvem mais facilmente a capacidade de gerir impulsos e tolerar frustrações

Mas, não são apenas as crianças e jovens que respiram a vida na resposta imediata, na expectativa de curtíssima duração, no desejo atendido no momento em que é formulado.  Por vezes nem precisamos de exemplos muito sofisticados. Pensemos na rapidez com que conseguimos uma simples mudança de canal na televisão (deixámos de ter de nos levantar do sofá) ou encontrar uma informação usando os motores de busca virtual (que tanta vez oferecem erros em vez de acertos), para além da satisfação de vontades mais caprichosas quase instantaneamente atendidas como acontece com as ofertas de Natal ou de aniversário. Quantas vezes encontramos crianças deambulando nos corredores das lojas escolhendo elas os seus presentes. O acelerado atendimento de vontades tem criado um efeito perverso na capacidade da espera. Uma espera que pode ser usada para a produção de pensamento sobre o assunto em questão mesmo que aquele seja uma simples mudança de canal porque, insistimos neste exemplo tão prosaico, o zapping tem se tornado hoje um exercício promotor de desconcentração, hiperactividade, desistência e ansiedade. No número de Dezembro falámos aqui dos benefícios da escrita manuscrita na aquisição e fortalecimento de hábitos de atenção e de cuidado com o trabalho e a escrita “à mão” assume-se como uma ferramenta essencial para o desenvolvimento global da criança, físico, cognitivo e emocional.

Em Outubro de 2023, António Banderas em conversa com Meryl Streep aquando da entrega do prémio Princesa das Astúrias na categoria das Artes à actriz, falou da importância fundamental da paciência para a compreensão do que desejamos entender bem como do papel transformador da arte. E a esse propósito explicou de que forma “aprendeu” a gostar de Wagner que só foi possível porque dedicou tempo a tentar entender a razão que levava tanta gente a gostar daquela música que não o entusiasmava. Banderas reforçou a importância do tempo e da paciência ainda com outra experiência que viveu quando também necessitou de tempo para compreender Faulkner. Dizia o actor nessa conversa que por vezes não se entende algo de imediato, seja um livro, um filme, uma música, uma pintura e por isso regressamos à obra, insistimos, sentimos por vezes frustração, regressamos uma e outra vez até que um dia, de repente, tudo se encaixa e um mundo se abre. Para Banderas, é pois fundamental cultivarmos a persistência. E é precisamente isso que a arte nos ensina: a ter paciência para aprofundar  conhecimento e não viver à superfície.

É pois através da arte que as crianças poderão desenvolver essa capacidade de  saber viver um tempo mais lento que lhes permita a observação, fruição e compreensão do que as envolve. 

No nosso número de Novembro, dedicámos um artigo sobre a importância da Arte na Educação das crianças e jovens e por isso não podíamos estar mais de acordo com o testemunho de Antonio Banderas que aliás recebeu ampla concordância de Meryl Streep. A Arte beneficia os aspectos emocionais ajudando-nos não apenas a equilibrar os chumbos de alma e a clarear as sombras dos dias como a reeducar para a resiliência, a espera, a concentração, a expectativa.

Façamos, pois, da Arte uma das rotinas da vida para que a paciência possa ser uma qualidade cultivada desde a infância.                                                                                                                                                       

Paula Timoteo

Paula Timóteo

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