No final do século XIX, nascia em Mangualde, no seio de uma família culta e republicana, uma menina que viria a ser uma das figuras mais significativas da cultura portuguesa. Ana de Castro Osório atravessaria no seu trajecto de vida três épocas distintas da História portuguesa: decadência e fim da monarquia; 1ª República e a ditadura.
Em 1872, ano do seu nascimento, Portugal vivia ainda uma monarquia constitucional, mas o Partido Republicano estava prestes a ser formalmente criado e os ventos da mudança começavam a soprar. D. Luís era rei há 11 anos depois de ter sucedido ao irmão D. Pedro V, falecido precocemente, e o país entregava-se a um esforço de modernização, consciente do seu atraso em relação ao resto da Europa. Era o período de Regeneração que havia começado 20 anos antes ainda no reinado de D. Maria II. Apesar dos avanços e conquistas alcançados, Portugal ainda se mantinha maioritariamente rural preso a um quadro de profundas desigualdades sociais que se espelhavam, de forma mais evidente, no elevado índice de analfabetismo que ultrapassava os 70%. Com um quadro legal que, muito embora exigisse escolaridade obrigatória, não possuía mecanismos de controle para garantir a aplicação da lei, a miséria das famílias empurrava irremediavelmente as crianças para o mercado de trabalho, as escolas continuavam reservadas para as elites e o acesso ao livro era reduzido. Mas, se a iliteracia era uma realidade para a generalidade da sociedade trabalhadora ela também se fazia no universo feminino das elites para quem a educação académica era particularmente limitada. A instrução das mulheres centrava-se em competências domésticas, sendo rara a sua participação na vida intelectual e pública.
É neste cenário que o futuro papel de Ana de Castro Osório ganha especial significado porque o seu percurso contrasta com o contexto de exclusão cultural das mulheres da época. A singularidade da sua vida é, incontestavelmente, fruto da influência que os pais tiveram na sua maneira de ver e pensar o mundo. João Baptista de Castro era um homem das leis e dos livros. A mãe, Mariana Osório de Castro Cabral Albuquerque, provinha de uma família culta e aristocrática e também ela ajudou a filha nas suas múltiplas actividades.
Escritora, editora, pedagoga e ativista feminista, Ana de Castro é considerada uma pioneira da literatura infantil em Portugal e uma das grandes divulgadoras do livro como instrumento de educação e transformação social defendendo que a educação e a leitura eram pilares da construção de uma sociedade moderna.
Era ainda muito nova quando deixou Mangualde e foi viver com a família para Setúbal, em resultado da colocação do pai como juiz naquela comarca, e ali acabaria por dedicar uma parte significativa da sua vida e obra. Aos 26 anos, casou-se com o poeta, jornalista e político republicano Paulino de Oliveira, também de Setúbal e tiveram dois filhos: João de Castro Osório e José Osório de Oliveira.
Com uma intervenção lata e de enorme impacto, podemos, no entanto, arriscar e dizer que houve uma causa em particular que a mobilizou: a da literatura infantil. Certamente Ana de Castro percebeu muito cedo a importância para o desenvolvimento de competências intelectuais que tem a literatura infantil e a conquista do interesse das crianças pela leitura. Aliás, Ana defendia que se devia abordar a literatura infantil como um assunto sério contrariando uma visão simplista deste tipo narrativo e colocando em destaque a importância e complexidade que envolve escrever para as crianças.
Em 1908, no prefácio de um dos seus livros, escreveria:
Criar uma literatura infantil é criar o amor pela leitura, é despertar na criança a curiosidade — tão embotada nas crianças portuguesas — pelas coisas intelectuais e dar-lhe da vida uma nobre e alta noção. […]
A literatura para os grandes apossa-se de todos os assuntos e de todos pode fazer obras de valor, conforme o talento dos autores. O mesmo acontece, e deve acontecer, com a literatura infantil, que tem de ser vasta e variada…
Mas a acção de Ana de Castro foi bem mais lata. Num país monárquico e profundamente conservador, Ana de Castro ousou ser uma voz feminina em defesa de direitos que eram negados às mulheres. Em 1905, apresenta o primeiro manifesto feminista português, Às Mulheres Portuguesas, em 1907 é uma das fundadoras do Grupo Português de Estudos Feministas, em 1909, ajuda a fundar a Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, e, em 1912, da Associação de Propaganda Feminista, a primeira organização sufragista portuguesa, que, por iniciativa da escritora, integrou a International Women Suffrage Alliance. Dedicou-se igualmente, e desde muito cedo, ao jornalismo, tendo dirigido diversos periódicos. Imediatamente após a instauração da República, trabalhou com o Ministro da Justiça na elaboração da Lei do Divórcio, de 1910 e, em 28 de Maio de 1911, acompanhou Carolina Beatriz Ângelo quando esta, aproveitando uma lacuna na lei eleitoral da Primeira República, exerceu o direito de voto como chefe de família nas eleições para a Assembleia Nacional Constituinte. Ficaria na História como tendo sido a 1ª mulher a exercer o direito de voto.

Ana de Castro Osório e Maria Beatriz Ângelo
Ana de Castro Osório foi sobretudo uma acérrima defensora do acesso alargado ao conhecimento e cultura. O seu feminismo sustentava-se na convicção de uma verdadeira aliança entre homens e mulheres e, como tal, tanto uns como outros deviam ter igual acesso à escola e ao trabalho.
Saber ler e escrever era o princípio da mudança porque as primeiras etapas definem em grande medida os trajectos de vida. Ana de Castro preocupou-se com o que as crianças liam até porque era evidente que não havia, na altura, uma literatura adequada a quem ainda não desenvolveu, como é natural, a construção emocional e intelectual que se adquire com a vida. Nesse sentido, começa muito cedo a escrever e a publicar para crianças, histórias de príncipes e princesas, fábulas, traduções de obras marcantes de autores estrangeiros como os contos dos irmãos Grimm. E de tudo se foi compondo a extensa produção editorial. Fosse em fascículos ou em livros com ilustrações cuidadas, a produção consegue o mérito da continuidade e relevância e Ana consegue a proeza de fazer da literatura infantil “um assunto sério” em Portugal. A sua dedicação granjeou-lhe justamente o reconhecimento como criadora da literatura infantil em Portugal tendo sido responsável pela coleção “Biblioteca Infantil”. Iniciada em 1897, tratava-se de um projecto editorial pioneiro em que as obras cumpriam um roteiro: adaptar e recontar não apenas contos tradicionais portugueses que Ana de Castro recolhia junto do povo, como contos estrangeiros.
A estratégia pensada por Ana de Castro era simples, mas complexa principalmente num mundo profundamente marcado por elites masculinas e onde o lugar das mulheres era maioritariamente destinado a servir os sonhos dos homens. A pioneira da literatura infantil em Portugal desejava criar um espólio literário que fosse acessível às crianças portuguesas valorizando ao mesmo tempo a tradição popular. Acreditava que esta seria a estratégia certa para formar e fidelizar um público leitor em idades precoces.
Num período em que praticamente não existia literatura infantil estruturada em Portugal, o seu trabalho foi de facto revolucionário.
A par do projecto de literatura infantil, Ana de Castro elaborou manuais escolares para o 1º ciclo e estendeu o seu trabalho a uma obra literária que incluiu mais de cinquenta títulos, abrangendo ensaios, romances e contos. A ela se ficou também a dever-se a compilação, organização, edição e publicação em 1920, através da sua editora Lusitânia, de Clepsidra, o único livro de Camilo Pessanha, seu eterno apaixonado e um dos maiores poetas portugueses.
Para Ana de Castro Osório, a leitura não era apenas uma forma de entretenimento. Para ela os livros deviam representar instrumentos de Educação moral e cívica essenciais ao progresso social. Um progresso social que não seria possível sem a capacitação intelectual das mulheres e sua consequente emancipação. A leitura era absolutamente fundamental para a libertação intelectual das mulheres que representavam pilares estruturais da modernidade. A alfabetização e o acesso à leitura eram, por isso, fundamentais para o desenvolvimento de um país que não podia marginalizar ninguém.
Entre 1911 e 1914, Ana de Castro viveu no Brasil quando acompanhou o marido que fora nomeado cônsul em São Paulo. Ali viveria um período que aproveitou para promover a cultura portuguesa e o intercâmbio literário luso-brasileiro. A sua breve vivência em terras de Vera Cruz alargou a perspectiva de Ana de Castro sobre o papel da educação na construção das nações reforçando a sua militância em prol da literatura como ferramenta luminosa do conhecimento.
Ana de Castro foi uma mulher brilhante na visão audaz e pioneira que soube defender em várias frentes: na difusão da leitura, na elevação do estatuto da literatura infantil, na divulgação e preservação de uma identidade nacional que os contos tradicionais traduzem ao mesmo tempo que realizava uma mediação cultural entre tradição popular e modernidade republicana além de se ter notabilizado na defesa dos direitos das mulheres.
No mês em que celebramos o Livro e em que dedicámos o nosso habitual espaço da Educação à importância da leitura na formação das crianças, aqui fica a nossa homenagem a Ana de Castro Osório, alguém que elegeu a leitura como uma bandeira de vida. mória do palco que pisou, mas na continuidade de um teatro que ajudou a profissionalizar, dignificar e transformar.
Paula Timóteo

