Oferecer um livro a um bebé, há muito que passou a ser encarado com normalidade. Muito embora saibamos que aquele ser minúsculo que nos olha e sorri, e para quem tudo lhe parece tentador para mordiscar, ainda está a anos de saber ler e nem entenderá o que lhe for lido, temos a certeza de que o banho é uma excelente oportunidade para lhe oferecer a experiência de mexer num livro. Acreditamos que o amor pela leitura, portal mágico do conhecimento, começa pelo amor ao próprio objecto e por isso entregar um livro, mesmo de plástico, a uma criança que apenas vocaliza e gosta de o morder com afã, é uma rotina em qualquer banheira de bebé.
E livro a livro, rapidamente vamos alargando a biblioteca dos nossos filhos e netos com histórias onde as palavras vão ganhando protagonismo ilustradas por imagens que auxiliam na descodificação das narrativas. Ler, antes de dormir ou numa pausa do dia, torna-se num momento deliciosamente relaxante e, apesar de sabermos que esse rebuçado diário associa a felicidade a uma estratégia educativa salutar, não temos total percepção do quanto é benéfico para a criança ouvir um adulto ler.
Existem diversos estudos que têm revelado que as crianças pequenas quando ouvem a leitura em voz alta também estão, em certa medida, a ler já que, ao escutar a linguagem escrita e na medida em que a vão compreendendo, estão a realizar, em simultâneo, um processo de apropriação dos símbolos linguísticos. Nesta primeira etapa de “leitura”, a da oralidade, quando a criança gosta da história e pede para a tornar a ouvir (e quantas vezes já todos nós repetimos contos até à exaustão?) ela acaba por memorizar falas e trechos o que a leva a desenvolver a sua linguagem enriquecendo o seu vocabulário. Mesmo quando já sabe ler, é sempre positivo a experiência de ouvir principalmente quando quem lê o faz envolvendo-se nas narrativas, mergulhando em vôo sereno nas palavras, dando voz aos significados e aos silêncios, suspirando as reticências e pasmando-se nos espantos. Viajando no embalo das frases ditas, a criança rende-se à harmonia silenciosa do texto escrito que o livro guarda.
Mas é importante que, nos primeiros contactos com a leitura, se garanta a diversidade e, em simultâneo, que a experiência aconteça de forma descontraída sem qualquer peso de obrigatoriedade. Com essa abordagem a leitura será encarada com prazer e até representar uma oportunidade para reforçar o afecto e laços de cumplicidade na família. Ler, não deverá ser visto como uma “tarefa obrigatória” porque dessa forma será colado a um momento desagradável para as crianças. Crianças que vão produzindo “anticorpos” em relação aos livros e, por arrastamento, ao conhecimento e pensamento criativo.
Entre os principais benefícios da leitura estão o desenvolvimento da atenção, o aumento da empatia e o desenvolvimento do sentido crítico. É claro que esses ganhos também podem ser adquiridos mais tarde, já na idade adulta, mas as vantagens de começar cedo são grandes. De acordo com um relatório da Unicef, nos primeiros anos de vida ocorrem as chamadas “janelas de oportunidades” porque é nesse período que as crianças estão neurologicamente mais propensas a desenvolver diferentes habilidades.
O relatório destaca que até os 6 anos de idade são formadas 90% das sinapses cerebrais, e que o potencial do vocabulário é determinado por palavras que são filtradas antes dos 3 anos. “Dessa forma, além de estimular o desenvolvimento de habilidades específicas, a educação infantil tem o potencial de aumentar a capacidade de interação social e promover a formação de sujeitos autónomos”, diz a Unicef. Por isso, é tão importante estimular, nutrir e proporcionar cuidados adequados às crianças onde o contacto com a leitura deve ser encarado como alimento para o espírito tão essencial como as proteínas para o corpo.
Um estudo da Universidade de Barcelona de autoria de Ana Teberosky, uma das maiores referências na área da alfabetização, infelizmente já falecida, e de Angelica Sepúlveda, especialista em Psicologia Educativa, teve como objetivo analisar a prática da leitura em voz alta e os seus efeitos nas crianças. Nesse estudo ficou evidenciado que, no dia a dia, a maioria das expressões orais usadas na conversação com as crianças não oferecem uma grande riqueza linguística e nem exigem produção da parte da criança. As investigadoras salientam que só 15% das interações verbais com crianças possuem construções sintácticas completas, ou seja, com sujeito, verbo e complementos o que é manifestamente pobre, mas que reflecte os limites naturais existentes na linguagem oral do quotidiano. Por isso, a leitura é uma plataforma essencial de enriquecimento lexical e aprendizagem na adequada construção frásica.
Por outro lado, o acto de leitura, especialmente no suporte físico do livro, exige um elevado nível de concentração numa única fonte de informação e, considerando que o cérebro processa imagens 60.000 vezes mais rapidamente do que texto, conclui-se que a leitura é mais exigente do ponto de vista de concentração. É aí que, lendo algo que nos interessa, aprendemos a prestar atenção e a manter o foco naquela tarefa. E adquirir essa capacidade na infância pode ser muito benéfico durante o resto da vida.
Além de robustecer e desenvolver a concentração, a leitura também aumenta a empatia. Um estudo da Emory University dos Estados Unidos, publicado na revista Brain Connectivity, revelou essa conclusão e explicou porquê. O aumento da empatia acontece porque ler ficção melhora as conexões e funções cerebrais já que, quando lemos uma história, mesmo que fictícia, colocamo-nos no lugar de uma pessoa que possui experiências, identidade e pensamentos diferentes dos nossos.
A pesquisa mostrou ainda que havia maior conectividade no córtex temporal esquerdo, uma área do cérebro associada à receptividade da linguagem, nas manhãs após a leitura. Esse efeito é chamado de “actividade de sombra” e funciona quase como uma memória muscular.
Além disso, também foi observada uma maior conectividade no sulco central do cérebro. Os neurónios dessa região têm sido associados à representação de sensações no corpo. Por exemplo, quando pensamos em correr, podemos acabar por activar os neurónios relacionados com o acto físico da corrida.
Desta forma, as mudanças neurais que se encontram associadas aos sistemas de sensação física e de movimento sugerem que a leitura de uma história pode transportar o leitor para o corpo do protagonista, como realçou o neurocientista e doutor em Engenharia Biomédica Gregory Berns, líder do estudo mencionado. “Já sabíamos que boas histórias podem nos colocar no lugar de outra pessoa no sentido figurado. Agora estamos a ver que algo semelhante também pode acontecer ao nível biológico” referiu.
Outro benefício da leitura na infância é o seu impacto no desenvolvimento da capacidade crítica. De acordo com o filósofo estadunidense Mortimer J. Adler, é possível identificar quatro tipos de leitura: elementar, inspecional, analítica e leitura sintópica.
A 1ª, a leitura elementar, é meramente funcional em que a pessoa consegue juntar sílabas, compreender frases e ler um texto sem ajuda, mas ainda sem profundidade.
Já a leitura inspecional ou exploratória divide-se em duas etapas. Depois de tomarmos conhecimento das informações que a capa e o prefácio nos fornecem, estamos então preparados para a leitura do livro, que corresponde à 2ª fase.
Na leitura analítica, o leitor deixa de ser passivo e começa o processo da compreensão do conteúdo, podendo até realizar anotações.
Por fim, a leitura sintópica, ou comparativa, acontece quando o leitor domina o texto e é capaz de compará-lo com outros, analisando os diferentes pontos de vista. É nessa etapa que o leitor é finalmente capaz de articular um pensamento original, impulsionado pela interligação entre os textos lidos.
Para se desenvolver a capacidade de atingir cada tipo de leitura, é necessário experiência que só se alcança com uma prática consistente e ao longo de um tempo longo. Iniciar a leitura na infância proporcionando o contacto com os livros desde os primeiros meses de vida, garante uma familiaridade com os textos escritos. E será este domínio das narrativas que garantirá uma maior compreensão textual e capacidade de análise crítica fundamentada. infância.
Paula Timoteo

