Livro I Uma viagem no tempo

Numa época em que ler um livro parece estar a perder público ao mesmo tempo que sentimos um declinar de competências intelectuais e relacionais entre os jovens, e que tem sido comprovado em estudos publicados (será mera coincidência?), faz sentido realizarmos uma viagem no longo caminho que o registo escrito do pensamento, imaginação e acontecimentos, tem cumprido. 

O livro nem sempre teve o aspecto físico que a ele nós associamos, mas não se trata tanto da sua existência como objecto, com o seu formato familiar, mas da sua função enquanto ferramenta de transmissão e construção de conhecimento que nos interessa. Como facilmente se pode intuir, os suportes de escrita foram variando ao longo dos séculos e milénios. Se considerarmos as pinturas rupestres o meio através do qual o ser humano começou a expressar-se simbolicamente e se encararmos a escrita como um conjunto de símbolos que representam pensamento abstracto e concreto, então podemos situar algures por volta dos 4 mil anos antes de Cristo o surgimento de uma narrativa escrita apesar de muito longe do que hoje habitam as bibliotecas. 

A invenção da escrita, mais próxima da que hoje reconhecemos como tal, abriu caminho para suportes mais duradouros usados ao longo tempo lento da Antiguidade: tabuletas de argila, placas de madeira, inscrições em pedra ou, por volta do ano 2500 a.C, o papiro que foi amplamente usado no Antigo Egipto. O papiro era um material proveniente de uma planta da família das ciperáceas, o Cyperus papyrus, e resultava do corte em tiras finas do caule da planta que, depois de molhadas, eram sobrepostas, cruzadas, prensadas, coladas de forma a se disporem em fita e, dessa forma, enroladas e armazenadas. 

Planta Cyperus papyrus

Apesar do avanço que significou a adopção do uso do papiro, o facto é que o formato em rolo não era prático tornando-se difícil de manusear e encontrar a informação pretendida, obrigando a desenrolar e enrolar constantemente o volumen. Surge então, por volta do século I, o códice (do latim codex, casca de árvore), que já se assemelha ao livro moderno. Trata-se de um manuscrito em formato de livro, composto por folhas de pergaminho ou papiro, dobradas e costuradas ao longo de uma aresta e que, entre os séculos I e IV, substituiu o formato em rolo. É, sem dúvida, o antepassado do livro moderno. Além de facilitar a consulta, apresentando páginas numeradas, possibilitava a escrita em ambos os lados e permitia conter textos mais extensos como a Bíblia.

 Os textos cristãos, desde os mais antigos, foram escritos em códices que, após a adopção do Cristianismo no Império Romano foram amplamente reproduzidos. 

Ao longo da Idade Média, serão os monges copistas os principais responsáveis pela preservação do património bibliográfico antigo. Copiando, recuperando e desta forma salvando do desaparecimento obras notáveis da Antiguidade Clássica, além de dar ao mundo muitas outras produzidas na época, os mosteiros tornaram-se, durante este período, o lugar sagrado do conhecimento. Um conhecimento que não se limitava ao divino porque cuidava também da sabedoria secular. No scriptorium (do latim, scribere, que significa “escrever”) monges e monjas copiavam os evangelhos e textos de autores gregos e romanos. O pergaminho, sobre o qual escreviam, havia surgido pela primeira vez em Pérgamo por volta do  séc. II a.C. Tratava-se de um material feito da pele de cabra, carneiro ou ovelha, muito fino, macio, branco e flexível. De acordo com a museóloga Adília Alarcão seria, no entanto, o proveniente da pele de cabrito com 4 a 6 semanas, caracterizada por escassa gordura, o preferido relativamente ao de origem na pele do borrego. Porém, as peles eram sempre seleccionadas de acordo com critérios de qualidade e de características como a espessura, grão, cor, macieza da superfície, transparência ou opacidade, resistência e flexibilidade. Depois de limpa e depilada, a pele era deixada a secar à temperatura ambiente, sob tensão. Quando um pergaminho se destinava a manuscrito em rolo, era o lado do pêlo que se utilizava para escrever; quando se tratava de um livro, ambos os lados eram escritos. Nestas circunstâncias. polia-se o reverso com carbonato de cálcio espalhado com a palma da mão na pele ainda húmida. 

Sobre o pergaminho escrevia-se com a ponta de uma pena que era mergulhada na tinta. Mas tão importante quanto a escrita, eram as chamadas iluminuras. Numa época em que a alfabetização era uma competência definidora de uma minoria sobretudo ligada à Igreja, a ilustração assumia um papel fundamental para a compreensão do que estava escrito. As iluminuras, como o nome indica, eram pinturas que recebiam folhas de ouro que “iluminavam” a imagem. As cores eram obtidas de plantas, minerais, sangue e insectos e os pigmentos eram misturados com clara, gema de ovo e cera de abelha para deixá-los mais consistentes e permanentes. A tinta preta vinha do carvão; o branco, da cal ou das cinzas de ossos de pássaros; a cor azul, muito apreciada pelos monges, era extraída das sementes de uma planta ou da azurita e lápis-lazuli moídos; o verde obtinha-se dp mineral malaquite; o amarelo do açafrão.

Durante os séculos que marcaram a Europa medieval, o livro tornou-se para uns fonte de sabedoria, mas para muitos outros representava apenas um objecto de luxo e ostentação de riqueza. As capas eram feitas de madeira grossa revestida com couro, frequentemente com pêlos visíveis nos casos de peles exóticas de animais.

Os manuscritos mais valiosos, sobretudo os que registavam textos sagrados como as Bíblias ou os Livros das Horas, apresentavam uma decoração Luxuosa que incluía metais preciosos como ouro e prata, esmaltes e pedras preciosas e até marfim esculpido. Encadernados à mão, foram concebidos para durar séculos e têm cumprido bem o objectivo com excepção dos que sofreram incúria humana ou foram destruídos em incêndios ou inundações. No final do século XIV e beneficiando da influência do Oriente, surgiu a xilogravura usada para a produção de estampas religiosas simples. A técnica havia surgido na China, por volta do século VI-VII e consistia em entalhar um texto ou imagem num bloco de madeira que seria depois preenchido com tinta para a seguir pressioná-lo contra o papel ou tecido. O livro impresso mais antigo, O Diamond Sutra, um livro budista impresso na China em 868 d.C., é um dos exemplos mais antigos de xilografia, séculos antes de surgir a Bíblia impressa por Gutenberg. Ainda na China, por volta de 1040, durante a dinastia Song, Bi Sheng inventou tipos móveis de cerâmica, permitindo que os caracteres fossem retirados, reorganizados e colocados nourra ordem para imprimir um novo texto.  Na Europa, esta técnica acabaria por se expandir à medida que o papel se ia tornando mais acessível surgindo os “livros de xilogravura”, onde texto e imagem eram esculpidos no mesmo bloco de madeira.

No século XV dá-se uma verdadeira revolução quando o alemão Johannes Gutenberg dá a conhecer ao mundo o livro impresso com uma nova técnica.  A grande inovação de Gutenberg não residiu na impressão em si, já existente, mas na conceção de um método que inaugurou uma nova era. Gutenberg criou tipos móveis (letras individuais) duráveis e reutilizáveis, uma tinta à base de óleo que era mais aderente que as tintas à base de água além de uma prensa de parafuso adaptada de prensas de vinho/azeite. Podemos dizer que o principal mérito de Gutenberg foi o de ter sido capaz de combinar e melhorar técnicas tornando possível a impressão em larga escala.

Portanto, estamos a falar da passagem de uma impressão pré-Gutenberg predominantemente artesanal, fixa (xilografia) e muito lenta, para uma produção em massa. E este facto fez toda a diferença porque permitiu a produção de livros em série. A famosa Bíblia de Gutenberg foi o primeiro livro impresso com esta técnica e podemos falar de uma revolução porque efectivamente a alteração foi amplamente significativa na divulgação e acesso ao conhecimento redefinindo o rumo da humanidade. 

Apesar do posterior gradual aperfeiçoamento da prensa de madeira, o princípio fundamental permaneceu o mesmo por mais de 300 anos e permitiu baixar os custos associados à edição de livros democratizando a difusão do conhecimento e impulsionando movimentos culturais como o Renascimento e a Reforma Protestante. 

Chegados ao século XX/XXI o livro conheceu novas ferramentas que o lançaram numa desafiante viagem tecnológica. Com a Revolução Industrial, as técnicas de impressão evoluíram (como a impressão offset e, depois, digital) o que provocou um novo e importante impulso na produção em grandes tiragens, acessíveis a um público cada vez maior. Em simultâneo, assistimos à expansão das bibliotecas públicas e dos sistemas educativos alargando o alcance da leitura. Porém, novos desafios e debates surgiram quando o livro começou a ganhar novas formas electrónicas. E-books (livros digitais) e bibliotecas digitais que permitem ler em computadores, tablets ou leitores eletrónicos têm ganho protagonismo  e ampliado o acesso ao património bibliográfico mundial, mas importa também questionar os limites desse novo veículo de utilização.

As principais críticas feitas em relação aos livros em formato digital centram-se sobretudo na experiência de leitura, nas questões de propriedade e no impacto cultural e económico. Muitos leitores consideram que a leitura em papel favorece maior concentração, melhor retenção de informação e uma relação sensorial mais rica com o texto, enquanto que, com o digital, especialmente em tablets e telemóveis, pode provocar fadiga ocular e facilitar distrações. Acresce que, ao adquirir um e-book, o leitor normalmente compra apenas uma licença de utilização, ficando dependente de plataformas e de restrições técnicas como o DRM, o que levanta dúvidas sobre a verdadeira posse da obra. Do ponto de vista cultural, critica-se a possível desvalorização do livro enquanto objeto físico e o impacto da digitalização nas livrarias independentes, além da desigualdade no acesso a dispositivos e competências digitais. Por fim, a dependência tecnológica, baterias, formatos e equipamentos sujeitos a obsolescência, é vista como uma fragilidade adicional do formato digital.

Apesar destes desafios, a história do livro mostra que a sua essência nunca esteve presa a um único suporte, mas antes à capacidade de transmitir conhecimento, memória e imaginação através do tempo. Do papiro ao códice, da imprensa tipográfica ao livro digital, cada transformação abriu novas possibilidades de acesso e circulação das ideias.

Queremos acreditar que o futuro do livro não depende da escolha de um formato, mas antes na convivência entre diferentes formas de leitura, adaptadas às necessidades e aos contextos de cada leitor. O livro impresso mantém a sua materialidade, durabilidade e dimensão simbólica, enquanto o digital amplia horizontes de difusão e democratização do saber. Ainda assim, devemos manter o sentido crítico desperto atentos e permeáveis aos críticos dos formatos digitais. Principalmente quando estes surgem, na óptica de decisores, como o formato a adoptar sem reservas.  

Mas, para já, e independentemente do suporte que venha a assumir, é consensual que o livro continua a desempenhar o seu papel essencial como instrumento de conhecimento, reflexão e diálogo entre gerações, preservando aquilo que, desde a sua origem, constitui a sua verdadeira razão de existir: a transmissão da palavra e do pensamento humano.

Paula Timóteo

Paula Timóteo

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