Educação I Um ano diferente que deixa uma lição de civismo?

Educação I Um ano diferente que deixa uma lição de civismo?

Nas escolas iniciou-se o 3º Período e com ele já se vislumbra a reta final do ano lectivo, mas para professores, alunos e pais, este tem sido um ano particularmente difícil e anseia-se por paz.  Desde Setembro que se vive nas escolas e fora dos seus muros, uma atmosfera pesada de descontentamento por parte de quem, normalmente, apenas desabafa e suspira desalento nos círculos fechados da Família e amigos. Estamos naturalmente a falar dos professores que têm, de forma crescente, levantado ombros e voz contra uma realidade que perdura há demasiado tempo e que está a conduzir a Escola Pública a um abismo. E dizemos Escola Pública e não apenas uma classe profissional porque aquela será arrastada para o desastre caso os professores desistam de o ser.

​Quando se trata mal quem trabalha surgem, por norma, duas tendências reativas: uns abandonam a profissão outros começam a exercê-la num patamar mínimo de qualidade e sem paixão nem envolvimento, resta apenas a execução monocórdica e distante de tarefas. Sabemos que há uma 3ª opção que não desaparece de imediato. No caso concreto dos professores, haverá ainda os resistentes, os que continuarão a dar tudo pela escola e pelos alunos, mas gradualmente prevalecerá uma das outras escolhas e o Sistema de Ensino sofrerá irremediavelmente com isso. Os alunos serão as primeiras vítimas, mas a sociedade em geral não tardará a saborear o sabor azedo das consequências.

​ Nas últimas décadas, a Escola tem vivido uma falsa realidade que uma paz podre tem alimentado. Um dos aspetos dolorosos e que poucos ousam denunciar, tem a ver com a maquilhagem do sucesso escolar que os professores têm sido obrigados a pactuar. Os que questionam e tentam fazer prevalecer a prática da reflexão académica, crítica, opositora têm sido silenciosamente afastados de cargos de poder intermédio além de outras consequências com implicações na progressão da carreira. A somar ao peso emocional de serem cúmplices da manipulação dos números, os docentes confrontam-se com um pacote recheado de problemas e situações que justificam a sua exaustão. A indisciplina cada vez mais grave por parte de alguns alunos, episódios condenáveis com encarregados de educação, as remunerações indignas, o roubo no tempo de serviço, a recusa de reconhecimento de doenças profissionais, a aposentação tardia e miserável, são algumas das questões mais prementes. Quanto às condições de trabalho aviltantes elas são marcadas por uma teia kafkiana instalada nas escolas que só uma infame desconfiança institucional pode justificar. E esta permanente desconfiança com visitas de inspeção, exigência de relatórios absurdos e inúteis e a imposição de conceitos empresariais, cansa, desgasta, satura e implode a sanidade mental dos professores. Múltiplos e redundantes mecanismos de controlo e de pressão, orquestrados para apenas fingir que é o que de facto não é são as pinceladas finais de um quadro triste e preocupante que tem golpeado a alma dos professores.

​Há grupos profissionais que são, por norma, mais explosivos, menos pacientes e acomodados do que a classe docente. Convenhamos que a teimosia governamental em relação aos professores em contraste com outros grupos deriva, sobretudo, da convicção de que os professores acabam por ceder porque não aguentam a pressão que a sua ética lhes impõe em reação a objetivos académicos a serem alcançados pelos seus alunos. 

​Que fique claro que o descontentamento não deriva apenas (apesar de já serem motivos mais que suficientes) dos fracos salários, do sistema de avaliação e do roubo de tempo de carreira. O que foi azedando o estômago dos professores tem sido também esta batalha emocional diária de serem obrigados a cumprir o que sabem estar errado.

O certo é que ao fim de muitos anos a fermentar desagrado e revolta, eclodiu um amplo movimento de protesto que, como seria de esperar, tem causado grande perturbação na vida das escolas. Mas desta vez, e de forma não esperada, aos professores têm se associado as vozes de alunos e encarregados de educação, pelo menos os que perceberam que desprezar os professores é também desprezar a Escola Pública. E, a par da palavra Respeito, sempre presente em cartões de fundo vermelho e repetida à exaustão pelos professores, houve uma frase que marcou também os momentos de concentração dos docentes “A protestar também estamos a ensinar”.  

​A Escola dos tempos modernos tem vindo a afastar-se do que deveria ser o seu desígnio. De incubadora de pensamento e produção de conhecimento a partir das ferramentas científicas e culturais dadas a conhecer e perceber, a escola tornou-se laboratório de cobaias amestradas a quem tudo se permite desde que possam contribuir para um cenário estatístico simpático. 

​Ora, ter pensamento crítico exige capacidade de observação, mobilização de conhecimento e, finalmente, construção de um pensamento independente e autónomo a partir do qual se poderá ponderar se há ou não motivo para alterar seja lá o que for e contribuir para esse desígnio. E nesse contributo entra um manancial de possibilidades em três fases: dinamizar o encontro e discussão conjunta, elaborar propostas e saber a quem dirigi-las. As Associações de Estudantes deveriam ser uma oportunidade de acção política, mas infelizmente têm assumido, em muitos casos, um mero papel de comissões de festas.

​ Assistir ao desenrolar dos acontecimentos relacionados com os protestos dos professores acaba assim por representar uma possibilidade de formação cívica porque acompanhar este processo é, de alguma forma, também uma forma de participar nele e desenvolver competências de literacia política. O envolvimento dos alunos é natural, espectável e mesmo desejável porque a preocupação com a qualidade do ensino e o impacto que más políticas nele exercem, tem sido um tema transversal.

​Um protesto fundamentado será sempre um acto cívico porque representa o erguer do chão, a dignificação da existência, o contributo para a evolução, a salvaguarda dos direitos, o respeito por um passado em que muitos lutaram e pouco das conquistas acabaram por usufruir.  Num confronto de ideias e principalmente quando há um evidente desequilibro de poder, testa-se a sensatez institucional, o respeito pelo outro, a resiliência dos mais frágeis, a solidariedade e o trabalho colectivo, a concepção do bem geral e a vivência da solidariedade.  Por isso, quando os alunos assistem a todo um processo enredado em negociações frustradas e discursos divergentes provenientes dos protagonistas desta contenda, estão a trabalhar múltiplos conceitos e competências nomeadamente o da leitura lúcida do explícito com a consciência do não explícito e a perceber a relevância de um “Não” fundamentado.

​Espera-se e deseja-se pela paz, mas a convulsão que tem sacudido a vida da Educação em Portugal tem sido uma ferramenta importante que os professores, nas suas aulas e especialmente no âmbito de áreas das Ciências Sociais, e as famílias devem aproveitar para dissecar conceitos e discursos políticos sublinhando a importância do envolvimento informado com as causas. Porque a protestar os professores também estão a ensinar!

Paula Timóteo

Marionela Gusmão

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