No último número de Novembro, lembrámos Amadeu de Sousa Cardoso e a sua rebeldia de génio que não seguia nenhuma escola nem modas artísticas. Amadeu fez parte de uma geração vanguardista que rasgou compromissos com o academismo reinante cujos paradigmas estéticos eram definidos, em grande medida, pela Sociedade Nacional de Belas-Artes, cujo primeiro presidente foi o pintor José Malhoa que este mês, o mês do seu aniversário, é o nosso convidado de honra.
José Victal Branco Malhoa nasceu nas Caldas da Rainha no dia 28 de Abril de 1855, cidade onde, em 1933, ano da morte do pintor, foi decidida a criação do seu Museu, que seria inaugurado na Casa dos Barcos a 28 de Abril de 1934 e que representa uma oportunidade para visitarmos um importante acervo dos seus trabalhos.
Malhoa muito cedo revelou qualidades artísticas ímpares que lhe permitiram não apenas ingressar com apenas 12 anos na escola da Real Academia de Belas Artes de Lisboa como ganhar todos os anos o 1º prémio da Academia. Curiosamente, quando viera para a capital tinha sido com o intuito de aprender o ofício de entalhador, mas os conselhos do seu mentor, Leandro Braga (1839-1897), foram decisivos para o irmão de Malhoa o inscrever na Academia, onde estudará durante 8 anos, sempre com as melhores classificações. Na Real Academia, viria a ser discípulo do pintor romântico Tomás da Anunciação e dele absorveria a técnica e a paixão da pintura de paisagem levando-o a passar longas tardes a desenhar os arredores da cidade.
Quando acaba o curso, deseja ir estudar fora de portas lusas, mas verá frustradas as duas tentativas de bolsa de pensionista do Estado para estudar no estrangeiro acabando por só fazer a 1ª viagem a Paris muito mais tarde, em 1906. Depois da desilusão, trabalhará 3 anos na loja do irmão, muito provavelmente vacilando entre uma dedicação à arte ou uma opção mais pragmática de vida. Fosse o que fosse que Malhoa pensasse, o certo é que irá manter a sua actividade e não levará muito tempo até à decisão final que o levará a dedicar-se em exclusividade à pintura para o que certamente terá contribuído o facto de em 1881, quando envia “Seara Invadida” a uma exposição em Madrid, ter recebido rasgados elogios.
A sua decisão rapidamente se comprovaria acertada já que, logo em 1882, ao participar na 2ª. Exposição de Quadros Modernos em Lisboa, terá o seu quadro Crepúsculo comprado pela rainha D. Amélia além decomeçarem a surgir as primeiras encomendas. Entre as várias solicitações destacam-se “A fama coroando Euterpe” pintada no tecto do Real Conservatório e, em 1883, a A Lei pintura que ilustra o tecto do Supremo Tribunal de Justiça de Lisboa.
Ainda em1880, será um dos fundadores, com Columbano Bordalo Pinheiro e Silva Porto, do bem conhecido Grupo de Leão, referência ao café Leão de Ouro, situado ao lado da estação do Rossio, onde se reunia uma tertúlia de artistas que Columbano reterá para a posteridade na pintura que se encontra no museu do Chiado.

O Grupo do Leão 1885, Columbano Bordalo Pinheiro. Cortesia Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado
É inserido neste grupo que Malhoa se sentirá validado para pintar ao ar livre, no campo, dando continuidade ao que já era a sua apetência desde os tempos da Real Academia. Figueiró dos Vinhos, onde adquirirá uma pequena casa que ele alcunhará de Casulo, passaria a ser um local de eleição para a pintura de paisagem.
Malhoa será considerado como o mais decisivo divulgador do Naturalismo, que marcaria a “Política do Espírito” da época. Tratou-se de um movimento estético-literário da segunda metade do século XIX intimamente vinculado ao cientificismo, que alimentará no espírito humano um maior desejo de retratar de forma mais verossímil a realidade. Considerado uma “ramificação” do Realismo, o Naturalismo nasce da observação da realidade, que se pretende retratar fielmente, e da experiência, mostrando que o indivíduo é determinado pelo ambiente e pela hereditariedade.
Malhoa emprestará um inequívoco cunho luso ao Movimento. Considerado o “mais português” dos pintores a óleo, Malhoa surge como o paradigma do artista que nasce do povo para se tornar dele pintor. Na sua obra encontramos o Portugal das tabernas e das procissões, dos altares e dos bordéis, das figuras anónimas de todos os dias, mas também o Portugal de grandes vultos como D. Carlos, rei por obrigação e pintor por vocação e até considerado como um dos melhores naturalistas.

As Promessas, 1933. Cortesia Museu José Malhoa.

Clara, 1903. Cortesia Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado

D. Carlos, 1890. pintura de José Malhoa. Cortesia do Palácio Nacional da Ajuda
Quando pensamos na pintura de Malhoa, ocorre-nos a memória das cores fortes e da luz sempre presentes na sua obra. Malhoa confunde-se com o Portugal rural, campónio, mas também com o Portugal burguês até porque a burguesia era, afinal, o seu público, aquele que na época o aplaudia e conhecia das galerias, espaços elitistas que o campónio, o operário, a criada ou a varina não frequentavam. Malhoa incorpora o Portugal dos costumes e tradições que lhe são familiares e por isso incorpora genuinamente e como poucos os fundamentos do Naturalismo associando a realidade com a experiência que ele próprio tinha dela. Podemos mesmo dizer que Malhoa retratou bem o país porque o conhecia bem. Nas palavras do historiador Paulo Pereira “Portugal era a arte de Malhoa, e a arte de Malhoa era Portugal – como o fado”. E curiosamente, uma das suas obras mais icónicas e conhecidas, apesar da extrema dificuldade nesta seleção, tal é notoriedade da sua extensa obra, é precisamente o seu quadro “O Fado”. Datado de 1910, numa época em que o pintor vai optando, ocasionalmente, por temas retratados em tons menos luminosos, “O Fado” é uma pintura que sintetiza a gramática simbólica e estética de Malhoa, no que de mais profundamente português, genuíno, libertino, rebelde e divertido ela possui.

O Fado, 1910. Cortesia Museu do Fado
Um lado marginal da urbe que faz das noites, “lugares” de canto e de boémia e onde o destino, a saudade e os ciúmes, os amores e os dramas se soltam no vibrato das gargantas de mulheres de xaile e homens gingões. As peripépcias que se conhecem em torno da execução do quadro também são ilustrativas do empenho do pintor em estar próximo da genuidade do que pintava. Depois de ter desistido dos modelos profissionais que contratara para os primeiros esboços sabia que só com modelos associados àquela realidade poderia retratar a essência que o Fado representava. Desta forma, e depois de ter percorrido durante muito tempo os bairros de Alfama e Bairro Alto, conheceu os dois modelos retratados no quadro. Ele, Amâncio Augusto Esteves, rufia, fadista e tocador de guitarra e ela, Adelaide da Facada, assim chamada, pois tinha uma grande cicatriz no lado esquerdo do rosto. Adelaide era, durante o dia, vendedora de cautelas e à noite, prostituta.
Malhoa pinta “Lugares da nossa memória”, aqueles que fazem parte do nosso imaginário quando pensamos no país rural e simples, mas também no Portugal urbano e vadio, ou natural e pleno de sol e mar como encontramos em “Praia das Maçãs”.

À Beira-Mar – Praia das Maçãs de 1926. Cortesia Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado.
Malhoa considerado por Paulo Pereira o mais conhecido e acessível pintor português de sempre, foi também na época considerado como “Um artista bem nacional”. O facto de não ter estudado fora de Portugal acabaria por ser determinante no carácter único da sua obra. Sem “estrangeirismos” é como encontramos a sua narrativa, a sua voz pictórica. Antítese do modernismo, um tardo-romântico das paisagens, um pintor de género e retratista da corte, assim foi e é Malhoa que ajudou a reorientar o gosto dos colecionadores voltando-lhes o olhar para o que cá se fazia. Com José Malhoa surge uma nova geração de colecionadores, como José Relvas e o Dr. Anastácio Gonçalves que, ao contrário do que acontecia até então em que apenas havia interesse pela arte estrangeira, começam a desenvolver o gosto pelo naturalismo nacional. Será com esta burguesia ascendente de médicos, advogados e lavradores, que Malhoa se relacionará fazendo dela sua clientela.
Mas Malhoa não é apenas o pintor do pitoresco, da paisagem, da Lisboa boémia. A partir de 1888 também se interessará pela pintura histórica e receberá o 1º lugar no concurso para Quadro Histórico com a “Partida de Vasco da Gama”

Partida de Vasco da Gama,1988. Cortesia do Museu de Lisboa.
e do mesmo ano datam os primeiros dos inúmeros retratos que pintou sendo o mais célebre, considerado pelo próprio como a sua obra-prima, o Retrato de D. Laura Sauvinet, que era sua aluna.

Retrato de Laura Sauvinet, 1988. Cortesia Museu José Malhoa.
Em 1900, Malhoa receberia a medalha de prata Grupo II – Classe VII na Exposition Universelle de Paris onde expõe e no ano seguinte aquando da fundação da Sociedade Nacional de Belas-Artes, Malhoa é nomeado sócio honorário. No início do século XX, Malhoa é de forma indiscutível um artista consagrado, acarinhado pela crítica e pelo público. Em 1906 viaja até ao Brasil a convite do Real Gabinete Português de Leitura onde deixa uma das suas obras mais importantes, Clara, que actualmente podemos visitar no Museu do Chiado, em Lisboa, e que retrata uma das pupilas do Senhor Reitor de Júlio Dinis. Em 1928 é aceite como membro da Academia Nacional de Belas-Artes e terá a sua primeira exposição retrospectiva. Continuará a sua intensa actividade até à sua morte e as cerca de 2000 obras de desenho e pintura que deixou, entre paisagens, retratos, pinturas de história, cenas religiosas e cenas de género, testemunham a sua extraordinária versatilidade. Alheio às polémicas que marcariam as primeiras décadas do século XX na comunidade artística que se opõe ao “estilo Malhoa” e que o associa a uma visão estética ultrapassada, Malhoa continua a simbolizar o que de melhor se fez dentro do movimento naturalista e a ele regressamos inúmeras vezes mergulhando num Portugal autêntico, retratado com fidelidade e conhecimento, desnudado de fantasia.
Paula Timóteo