Uma Deriva Atlântica I As Artes do Século XX a partir da Colecção Berardo
O MUSEU DE ARTE CONTEMPORÂNEA MAC/CCB MAC/CCB inaugurou recentemente a exposição permanente: “Uma deriva atlântica. As artes do século XX a partir da Colecção Berardo.”
O notável destaque nas artes do século XX, que a exposição oferece corresponde ao desejo por parte do MAC/CCB de disponibilizar, ao público que a visita, uma nova leitura sobre as histórias da arte e do mundo.
“A Deriva Atlântica. As Artes do Século XX a partir da Colecção Berardo” inclui 270 obras de 170 artistas, através de ligações entre Marcel Duchamp e Lourdes Castro, Amadeo de Souza Cardoso e Morandi, Gabriel Orozco e Mondrian, Bertina Lopes e Asger Jorn, entre outros.
A exposição apresenta de uma forma original as colecções inseridas no MAC/CCB — principalmente a Colecção Berardo, mas também a Colecção Holma/Ellipse, a Colecção Teixeira de Freitas e a Colecção de Arte Contemporânea do Estado —, integrando ainda cedências de colecções em Portugal que permitem traçar o lugar da arte portuguesa no amplo panorama internacional das artes do século XX. Segundo a directora artística do museu, Nuria Enguita disse: “Olhar e interpretar as colecções é a vocação essencial de um museu, e no MAC/CCB a diversidade e riqueza das colecções em depósito permite-nos mostrar abordagens inéditas e complexas das artes do século XX a partir de Portugal.”
A mostra para além de estabelecer o diálogo entre as colecções em depósito, mostra uma nova visão sobre a participação da arte portuguesa na âmbito geopolítico e artística do século, ultrapassando as ideias de «isolamento» e «atraso» que marcaram alguma da historiografia canônica da arte em Portugal, e promovendo uma visão de modernidades dialogantes localizadas em diversos pontos geográficos do mundo.
Para a curadoria da exposição, Nuria Enguita (directora artística do MAC/CCB), Marta Mestre (curadora do MAC/CCB) e Mariana Pinto dos Santos (assessora científica), afirmaram: “A abordagem curatorial da exposição Uma deriva atlântica. As artes do século XX a partir da Colecção Berardo procurou um novo olhar sobre as colecções, com novas relações entre obras e artistas. Escolhemos perturbar ideias-feitas da história da arte, e colocar a arte portuguesa no contexto internacional, interrogando, ao mesmo tempo, cronologias ou rótulos estanques e permitindo interferências entre movimentos artísticos, geografias e artistas. É, por isso, uma abordagem crítica e com alguma ironia.”
A exposição abrange uma época de 1909 a 1977, marcada pela primeira obra da mostra, a pintura de Pablo Picasso “Tête de femme” (1909) e pelo evento “Alternativa Zero”(1977), organizado por Ernesto de Sousa em Lisboa, no período após a Revolução de 25 Abril. Delimitada entre estes limites cronológicos, a exposição segue uma cronologia inconstante, com desvios e saltos temporais, alguns deles propondo, com humor pontual, relações improváveis entre artistas e movimentos artísticos. Tal permitirá ao público do museu uma compreensão menos canônica e mais orgânica das artes do século XX, abrindo também para ligações com artistas contemporâneos e com a arte em Portugal. A modernidade, etapa fundamental para reflectir sobre o presente, é aqui entendida como eclosão múltipla de histórias ligadas à escala global, entre periferias e centros em permanente diálogo.
No centro da exposição está o Atlântico, visto como lugar geográfico e histórico, mas também mental e afectivo. O Atlântico é desde há séculos um meio para a construção económica e cultural que moldou a profunda desigualdade do mundo, e palco de várias disputas, domínios e circulações. Tornou-se, a partir de meados do século XX, um espaço fundamental de trânsitos e exílios durante e após a Segunda Guerra Mundial.
A mudança do centro artístico de Paris para Nova Iorque ao longo do século, intensificada pelos exílios de artistas na Segunda Guerra Mundial, configura novas relações atlânticas que são aprofundadas pelo facto da exposição «acolher», dentro do seu percurso, outra exposição: “31 Mulhere”s, uma evocação da exposição que Peggy Guggenheim, que promoveu na galeria “Art of This Century” em Nova Iorque em 1943. Vários artistas como André Breton, Max Ernst, Man Ray, Marcel Duchamp, Leonora Carrington ou a própria Peggy Guggenheim, fugidos dos horrores da guerra na Europa, passaram na década de 1940 por Portugal, país que se afirmou neutral na guerra, antes de embarcar rumo aos EUA.
Por outro lado, o Atlântico também faz referência ao Sul, e na exposição mostra-se o uruguaio Joaquín Torres-García, ou o alemão Max Bill, que, pela via do concretismo, estabeleceu diálogos com artistas brasileiros; assim como obras dos moçambicanos Bertina Lopes, Ricardo Rangel ou Malangatana.
É pensando nessa ideia do Atlântico que se destacam duas pinturas de cronologias diferentes colocadas lado a lado: uma de Almada Negreiros de 1925, e outra de Nikias Skapinakis de 1973, ambas abordando o tema clássico das «Banhistas». Estes dois exemplos sintetizam a abordagem inventiva da curadoria de Nuria Enguita, Marta Mestre e Mariana Pinto dos Santos, para lá das ideias de estilos, movimentos e autores convencionais.
Enquanto a colecção permanente “em permanente transformação”, como descrevem as curadoras, “Uma deriva atlântica. As artes do século XX a partir da Colecção Berardo” está organizada em 11 secções que não são extintos, mas permeáveis entre si, e apresenta um total de 170 artistas e 270 obras, entre pintura, desenho, escultura, instalação, filme, ephemera, som, etc. A exposição aproxima nomes como Pablo Picasso, Amadeo de Souza-Cardoso, Lourdes Castro, Marcel Duchamp, Andy Warhol, Wifredo Lam, Maria Helena Vieira da Silva, Joaquín Torres-García, Jackson Pollock, Malangatana, Lucio Fontana, Ana Hatherly, Alexandre Estrela ou Gabriel Orozco, entre vários outros.
O Atlântico (e Lisboa) como lugar de encontros e derivas
A mudança do eixo artístico de Paris para Nova Iorque
Vários artistas da exposição: “Uma Deriva Atlântica, como André Breton, Max Ernst, Man Ray ou Marcel Duchamp”, e artistas da exposição “31 Mulheres”, como Leonora Carrington ou a própria Peggy Guggenheim, passaram por Lisboa antes de atravessarem o Atlântico rumo a Nova Iorque nas décadas de 1940 e 1950, fugidos dos horrores da guerra na Europa.
Na exposição: “Uma Deriva Atlântica”, mostram ligações e confrontos entre as extremidades europeia e americana para indicar possíveis relações e origens por vezes esquecidas da história da arte. A pintura “Je suis Max Ernst” (1976), de Mário Cesariny, destaca a sua semelhança com o surrealista alemão. Na primavera de 1941, Max Ernst (que esteve num campo de concentração nazi, entre 1939 e 1940), a coleccionadora Peggy Guggenheim e um grupo de familiares e amigos ficaram retidos algumas semanas no Estoril, enquanto esperava pela viagem para os EUA.
O Atlântico é desde há séculos um espaço de trocas e exploração, e através dele pessoas e bens circularam, impérios fizeram-se e desfizeram-se, num desequilíbrio do mundo com reflexões até à actualidade. A partir de meados do século XX, testemunhou afluências e exílios que contribuíram para reconfigurar a geopolítica que molda as subjectividades modernas.
Theresa Bêco de Lobo