Durante o breve período do Carnaval, festejam-se dias de alegria, comicidade, humor e liberdade. Em representações jocosas com recurso a vestuário e maquilhagem, há um desejo implícito em todas as festividades: o de cada um se tornar, mesmo que temporariamente, num outro diferente de si próprio, numa qualquer pessoa ou num qualquer ser ou objecto com o qual terá alguma ligação. Durante os dias que antecedem a Quaresma, período de 40 dias que para os católicos é marcado por uma atmosfera de maior recolhimento, vive-se o Entrudo que representa o despojamento de muitos limites e normas. Os que assumem o espírito carnavalesco sentem-se envolvidos por uma espécie de bolha temporal onde a caricatura, o burlesco e a partida inocente têm lugar. Com diferentes formas de manifestação em Portugal, onde podemos experienciar tradições e modelos diferenciados, o Carnaval é vivido com paixão tanto por adultos como por crianças, mas são estas as que mais enchem de colorido as ruas, as escolas, os espaços públicos e familiares com as suas fantasias. Uma profusão de alegria que dura todo o período mas que muitas vezes se alarga no calendário porque “fantasiar” a vida é mesmo divertido.
Se nos primeiros anos de vida os pais transferem para os filhos as suas próprias idealizações escolhendo os fatos de acordo com os seus gostos, gradualmente os filhos vão eles próprios conquistando a sua autonomia e vontade própria reivindicando fantasias de acordo com os seus ídolos inspirados em desenhos animados que assistem na televisão ou em séries em voga que se apresentam na altura. Por estes dias, as Cinderelas e Brancas de Neve, as Belas Adormecidas e os Capuchinhos Vermelhos, vão conseguindo manter o seu nível de popularidade, mas outras se vão impondo como as princesas Anna e Elsa, a Ariel, a Rapunzel….. No mundo dos rapazes, tradicionalmente são os super heróis que invadem os lugares enchendo a atmosfera de códigos verbais, gestos e sons identificativos com o Homem Aranha, o Batman e o Super Homem a liderarem as preferências. É evidente que existem outras fantasias possíveis e o reino animal é pródigo como fonte de inspiração.
Mas se os fatos carnavalescos facilmente se podem encontrar nas superfícies comerciais, aliviando de preocupações pais que não querem defraudar espectativas nem têm habilidade ou tempo para confeccionar figurinos, há porém famílias que fazem questão de criar os seus próprios trajes, disfarces esses que nem sempre se inspiram numa determinada personagem ou em alguém conhecido. E criar um disfarce absolutamente original pode ser um exercício extraordinário de mobilização de várias competências motoras e intelectuais além de constituir uma oportunidade de actividade lúdica capaz de envolver de forma divertida toda uma família ou grupo de amigos, promovendo a imaginação e desenvolvendo narrativas.
Realizar em família os adereços carnavalescos constitui igualmente uma boa ocasião para adquirir ou desenvolver a capacidade de gerir sentimentos de frustração e muscular a resiliência tão necessária diante dos pequenos ou grandes obstáculos que sempre surgirão. Mas seja qual for o projecto em curso, certamente assumirá um papel galvanizador de boa disposição fortalecendo a coesão e competências relacionais.
Importa notar que o Carnaval assume inequivocamente uma componente teatral. Um “faz de conta” que se pode prolongar ao longo do dia e durante tantos dias quantos os que o adulto ou criança desejarem e for possível, porque o fascínio de se ver “na pele” de uma personagem excede muitas vezes o próprio calendário carnavalesco.
E o teatro subjacente ao Carnaval, que nem de guião necessita, pode ser uma ferramenta poderosa de crescimento. Ao assumir uma roupagem que a transforma num outro “eu”, a criança ou jovem adolescente vence a timidez, exprime-se com maior liberdade e desenvoltura, arrisca-se no discurso e nos gestos, vive uma experiência de palco que o ajuda a preparar para falar em público.
Por outro lado, como a faceta teatral da fantasia se confunde e entrelaça com a brincadeira temos outro ganho a registar porque brincar é essencial para o desenvolvimento cognitivo, social e emocional. Há estudos e artigos jornalísticos que destacam os espaços carnavalescos infantis como ambientes ricos de brincadeira e aprendizagem. Participar numa festa ou manifestação de Carnaval permite às crianças expressar alegria e desenvolver a criatividade performativa mas num contexto de diversidade cultural que a música, a fantasia, a recuperação de tradições e a encenação proporcionam além de, por norma, ser uma oportunidade de brincadeira onde adultos e crianças partilham da mesma festa, da mesma alegria e do mesmo jogo de inversão de papéis.
Psicólogos destacam que as crianças que participam ativamente em festas e brincadeiras culturais, ou seja, não se limitam a ser espectadoras, constroem memórias afetivas significativas e desenvolvem confiança e sentido de pertença.
Façamos então do Carnaval um tempo de luz e gargalhada porque a gargalhada e a brincadeira também são ferramentas educativas para uma vida significativa e vivida em pleno.
Paula Timoteo

