Todos os anos, cumprindo um calendário variável, mas que em regra coincide com o mês de Fevereiro, vive-se um calendário de euforia, festa e máscara. É um tempo de fingimento teatral, um fingimento que se sabe que é e por isso mesmo aceite, consentido, assumido. Na época carnavalesca, vários são os lugares que se esmeram na exibição do que demorou largos meses de preparação. Os desfiles coloridos, plenos de simbolismo e enredo coreografado e cantado, sucedem-se numa celebração coletiva.
Poucos saberão, contudo, da ancestralidade e evolução do Carnaval até porque, ao longo do tempo, a festa foi se transformando acompanhando as alterações e evoluções religiosas, sociais e culturais. Mas, por muito que se tenha transformado, e talvez nem tenha sido tanto assim, há um conceito que atravessa os tempos de uma humanidade em busca da evasão dos dias iguais: o Carnaval, ou as festas que o antecederam no nome e calendário, mas que a ele se assemelhavam, suspende a rotina normatizada. E essa janela temporal de liberdade quase absoluta, de despenalização e condescendência, representa uma escapatória essencial para uma descompressão que ajuda a regularizar comportamentos.
Quando procuramos as raízes mais antigas do Carnaval, encontramos nas festas da Antiguidade o que melhor se lhe pode comparar sobretudo as do mundo greco-romano em particular as Saturnálias que, como o nome indica, eram festas dedicadas ao deus Saturno e inspiradas nas festas gregas como o festival Kronia. Várias eram, aliás, as festividades agrícolas celebrando a fertilidade da terra e também o fim de um longo período de trabalho, permitindo aos agricultores uma merecida pausa.
As Saturnálias coincidiam com o mês de Dezembro e, por essa razão, o Natal veio a ser instituído nesta altura como forma de melhor ser incorporado na cultura popular. As festas pretendiam celebrar o solstício de Inverno e apelar à abundância que o tempo das plantações agrícolas, iniciadas no Outono, podia proporcionar. E este facto, numa época marcada por fomes recorrentes eram excelentes motivos de celebração. Um sentimento de maior liberdade tomava lugar entre a população e a forma como esse sentimento era manifestado assemelhava-se, pelo seu teor, ao período do nosso Carnaval.
Em Roma, e no auge destas celebrações (que chegavam a durar uma semana) era costume instalar-se em frente do templo dedicado ao deus Saturno um ambiente especial marcado pelo excesso, comida e bebida abundantes, pela troca simbólica de papéis sociais e pela anulação momentânea da hierarquia permitindo, por exemplo, aos escravos sentarem-se à mesa com os senhores.
Entretanto, o tempo das festividades inspiradas em deuses do Olimpo deu lugar a um outro pulsar, a uma outra visão dos cosmos e da relação do Homem com o divino que passou a ser encarado como único e omnipresente, um Deus maior que deu o seu Filho à humanidade. Com o cristianismo as festas pagãs foram gradualmente desaparecendo ou, talvez melhor dizendo, se transmutando na cronologia da vida das sociedades, reintegradas no calendário cristão e alteradas na sua roupagem.
O Carnaval, cuja palavra derivará da expressão latina carne vale (“adeus à carne”), numa clara alusão à despedida dos prazeres gastronómicos, passou a anteceder a o período de jejum, penitência e contenção que se vive durante a Quaresma e que culmina na Páscoa. E assim, durante a Idade Média, o Carnaval tornou-se numa festa popular, por excelência, com jogos, sátiras ao clero e às autoridades, danças e, naturalmente, máscaras. Tal como na Antiguidade, os dias de Carnaval continuaram a ser uma oportunidade para o riso e para a liberdade mesmo que apresentada com evidentes traços grotescos. Neste espaço temporal, a legitimação da sátira e do exagero exercia uma função social porque a desordem controlada reforçava, paradoxalmente, a estabilidade da ordem social no resto do ano.
Incontestavelmente, um dos elementos mais marcantes do Carnaval é o uso de máscaras e se em outras épocas o anonimato que elas garantiam, permitia maior liberdade na chacota personalizada, na crítica social, na transgressão e nas encenações que ridicularizavam o poder político ou religioso, hoje a máscara, que se alarga a todo o vestuário, traduz-se na representação de um papel que propicia, por breves momentos, ser-se o que talvez se desejasse ser e não se é ou assumir uma personagem que se considera o oposto e, nessa inversão de papéis, torna-se possível viver o outro lado do espelho. Em cidades como Veneza, cuja celebração carnavalesca se tornou célebre, as máscaras apagavam temporariamente as diferenças sociais, permitindo encontros e comportamentos que seriam impensáveis noutras alturas do ano. Tendo alcançado seu apogeu no século XVIII, o Carnaval veneziano remonta ao século XI, embora não tenha sido declarado uma festividade pública até duzentos depois e durante séculos, foi a via encontrada pelos cidadãos para fugirem do grande controlo do governo veneziano. Actualmente reconstitui-se esse passado mantendo as icónicas máscaras e a vivência de um Carnaval com características muito próprias onde as roupas de época do século XVIII veneziano são a inspiração para as fantasias apresentadas.
O Carnaval foi acompanhando as épocas e as alterações de mentalidades passando por fases de maior controlo dos excessos, como aconteceu durante a Idade Média, ou pela sua apropriação pelas elites urbanas com o surgimento de bailes de máscaras, festas em salões e desfiles organizados, já na Idade Moderna.
Com a expansão colonial europeia, o Carnaval foi levado para outros continentes, onde se transformou profundamente em contacto com as culturas locais. A este propósito é inevitável falarmos do Brasil onde a festa se misturou com tradições africanas e indígenas construindo um património musical e coreográfico único e distinto.
Já no século XIX, com o crescimento das cidades e da imprensa, o Carnaval assume uma dimensão cada vez mais espetacular e pública, aproximando-se das formas que hoje conhecemos.
Seja qual a forma como o Carnaval é hoje vivido, desfiles organizados, como assistimos em Veneza, Brasil e Portugal, festas populares espontâneas ou celebrações locais com fortes tradições, o certo é que estes dias de festa continuam a representar um fenómeno cultural com uma forte tradição que sobreviveu ao longo de séculos e às profundas mutações sociais e culturais que tiveram lugar. A sua longevidade deve-se, por um lado, ao facto da sociedade continuar a necessitar de uma pausa na engrenagem repetitiva da normalidade e, por outro, à capacidade que as sociedades tiveram em adaptar o Carnaval aos novos tempos sem que os dias de festa percam a sua essência que se resume, no fundo, à celebração da liberdade, à possibilidade de revelarmos o nosso lado sarcástico e mordaz sem julgamentos ou, tão simplesmente, a oportunidade de sermos de novo crianças.
Apesar da sua aparente frivolidade o Carnaval não deixa de exercer, na sua descompressão, a um papel de crítica social. Como Gil Vicente dizia, “a rir se criticam os costumes” e assim tem sido sempre que se vivenciam estes dias de euforia que antecedem um calendário litúrgico que apela à contenção, à reflexão e a um desacelerar. Um tempo em que a sociedade se observa a si própria e, exagerando, critica e celebra as suas próprias contradições.
Importa também perceber que o Carnaval, por ser uma página na temporalidade das sociedades em que se cumpre um jogo de excessos entre a máscara e a realidade, a mentira e a verdade é ele próprio uma irresistível oportunidade de fazer arte, representando um terreno fértil para a criatividade. Pintura, literatura, música, teatro e, mais tarde, cinema e artes performativas encontraram no Carnaval um espaço privilegiado para explorar temas como a identidade, o corpo, a crítica social e o imaginário coletivo. As óperas, ballets e peças teatrais recorreram frequentemente a cenários carnavalescos para introduzir o disfarce e permitir jogos de identidade, mas talvez seja no teatro de rua e nas artes performativas contemporâneas que reconhecemos com maior vigor a tradição carnavalesca, porque é aí que o corpo explora o gesto, a expressão gestual, o improviso.
O Carnaval em Portugal
Em Portugal, o Carnaval apresenta uma grande diversidade regional e uma longa tradição histórica, marcada tanto por influências externas como por elementos locais profundamente enraizados.
Durante séculos, o Entrudo, cujo termo significa a entrada na Quaresma visto derivar do latim Introitus (entrada), era a expressão vocabular mais usada antecedendo o actual e generalizado “Carnaval”. Apesar de menos usado, ainda hoje em Portugal é possível assistir-se ao enterro do Entrudo em localidades como Torres Vedras onde se organiza um julgamento e queima do boneco no largo em frente ao tribunal, ou Vila Real que organiza um cortejo pelas ruas com figuras como um “arcebispo”, um “monge” e um “padroeiro”, criticando a sociedade.
Talvez a diferença mais significativa entre o Entrudo e o Carnaval e que influencia a forma como cada um se manifesta, reside no facto de o primeiro estar associado a características de pendor mais popular, com brincadeiras de rua como o lançamento de água, farinha, ovos e “limões de cheiro” enquanto as festividades do Carnaval atraíam também as elites sociais que organizavam, inclusive, os seus próprios bailes e festas de Carnaval. Porém, e apesar dos excessos que por vezes eram cometidos, com as consequentes acções repressivas por parte das autoridades, o Entrudo conseguiu sobreviver como uma expressão da cultura popular de cariz espontâneo que não cumpre um guião definido ou organização complexa. Algumas manifestações portuguesas actuais ainda mantêm o seu vínculo com o conceito do Entrudo assumindo uma singularidade simbólica e artística excepcional. Tal é o caso dos conhecidos Caretos de Podence, uma das mais originais e antigas manifestações deste período. Profundamente ancorado em tradições ancestrais, os Caretos apresentam-se associados ao conceito do “Entrudo Chocalheiro” e estão longe do conceito de Carnaval moderno e comercial. Ao contrário das figuras representadas no Carnaval, os Caretos de Podence, com máscaras coloridas e trajes de franjas, simbolizam figuras diabólicas e misteriosas que saem à rua para expurgar os males, celebrar a fertilidade e marcar a transição para a Primavera. A tradição implica que saiam à rua com chocalhos à cintura, corram e saltem, interagindo com as pessoas que encontram de forma frenética, naquilo a que se chama “chocalhada”. Muitas vezes perseguem raparigas solteiras para as “chocalhar”, naquele que é um ritual ligado à antiga crença de fertilidade. Em 2019, esta tradição foi reconhecida como Património Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO o que é revelador da importância cultural deste Entrudo português.
Numa outra coordenada geográfica, Torres Vedras leva para as ruas o seu icónico Carnaval celebrado como uma oportunidade de sátira social e política retomando, desta forma, o espírito crítico associado a este período de festa e folia.
Precisamos de algum oceano para chegarmos à Madeira e à sua forma particular de viver o Carnaval com os seus desfiles/espectáculo com uma evidente similitude com o Brasil apesar de haver teses historiográficas que apontam para uma influência inversa já que na ilha é possível identificar festividades a partir do século XVI e que poderão ter sido posteriormente levadas para as Terras de Vera Cruz. Mas se não quisermos ir tão longe, Ovar também adopta este modelo de fantasias mais elaboradas com um pronunciado sabor brasileiro bem temperado com os sons do samba a marcarem a festa.
O Carnaval, ao longo da sua história e navegando por latitudes geográficas e culturais diversas, tem se revelado muito mais do que um simples período de festa e divertimento. Quer o Entrudo, numa narrativa mais popular, quer o Carnaval numa visão mais moderna e socialmente mais eclética são um espelho da sociedade que as vivenciam, refletindo tensões, desejos e críticas. Este tempo de Carnaval que vivemos este ano em Fevereiro representa um espaço ritualizado de liberdade, inversão e criatividade.
Em Portugal, o Carnaval soube preservar traços ancestrais e reinventar-se ao longo do tempo, conciliando tradição e contemporaneidade, espontaneidade popular e organização espetacular. Entre máscaras, sátiras e excessos consentidos, esta celebração continua a cumprir a sua função primordial: permitir que, por breves dias, a ordem se suspenda para que a sociedade, rindo de si própria, se reencontre renovada para a entrada num tempo que apela à reflexão.
Paula Timóteo

