No Centre Pompidou, em Paris.
“O Centre Pompidou e o Musée de la Musique – Philharmonie de Paris (até Fevereiro de 2026) uniram forças para conceber e produzir uma grande exposição dedicada à imagética da música na obra de Wassily Kandinsky. A mostra reúne cerca de 200 obras do mestre, além de objectos do seu atelier (partituras, discos, livros, ferramentas, entre outros), todos expressando o papel fundamental da música na sua vida quotidiana, na sua vocação como pintor e na evolução da sua prática rumo à abstracção. Raramente a música desempenhou um papel tão importante na obra de um pintor quanto na de Wassily Kandinsky.
O modelo abstracto da música
Contemporâneo de Mussorgsky e das novas escolas musicais inspiradas no folclore russo, Kandinsky cresceu em Moscovo e Odessa, numa família culta; como violoncelista amador e organista de palheta, logo se deixou fascinar por Wagner. Para além das expectativas da sua formação burguesa, a música teve um papel revelador. O próprio artista afirmou que ela alimentou e definiu a sua vocação artística. Acima de tudo, a linguagem abstracta da música deu ao pintor margem para questionar o princípio da imitação da natureza, chegando ao ponto de provocar a sua dissolução. Ao amadurecer as suas reflexões em contacto com músicos de vanguarda como Nikolai Kulbin, Sergei Taneyev e Thomas de Hartmann, Kandinsky reinventou a linguagem da pintura a partir do modelo abstracto da música, como se demonstra de forma mais clara nas suas séries Improvisações e Composições.
A Amplitude da Escuta do Pintor
Até hoje, nenhuma exposição tinha apresentado esta produção artística do pintor — das paisagens russas às suas últimas Composições — no contexto da vibrante cena musical da sua época. No entanto, não há dúvida de que as composições de Alexander Scriabin, Thomas de Hartmann, Arnold Schönberg e Igor Stravinsky definiram o horizonte de escuta da modernidade pictórica e da abstração. Do “choque wagneriano” vivido por Kandinsky em 1896, em Moscovo, às suas experiências teatrais e coreográficas na Bauhaus, onde passou a leccionar a partir de 1922, a exposição oferece uma nova perspectiva sobre a obra do artista por meio de um subtil diálogo entre música, formas e cores, num percurso imersivo com o uso de fones de ouvido.
O atelier de um Amante da Música
Além de cerca de uma centena de obras e desenhos provenientes das colecções do Centre Pompidou e de importantes instituições internacionais, a exposição apresenta um atelier imaginário que revela a melomania de Kandinsky. Partituras que ele adquiriu, livros e literatura musical que coleccionou, fotografias dos seus amigos músicos e sua colecção de discos — incluindo as canções populares de que gostava — eram partes essenciais da sua cultura artística. No meio do atelier está um conjunto de instrumentos e objectos do próprio estúdio de Kandinsky, que suscita reflexões sobre a musicalidade do seu processo criativo, em especial o seu trabalho sobre o “som” das cores e seus os estudos visuais da Quinta Sinfonia de Beethoven.
Rumo a uma Síntese das Artes
A produção pictórica de Kandinsky não pode ser dissociada das suas reflexões e experiências em torno da síntese das artes. De maneira singular, a exposição coloca as pinturas e os desenhos em diálogo com os seus diversos projectos para o palco, poemas que exploram o “som puro” das palavras e o “Almanach du Blaue Reiter” (Cavaleiro Azul), todos eles criando uma unidade fundamental entre as artes visuais e auditivas. Por fim, como aos olhos de Kandinsky a música é também uma arte performática, a exposição inclui a recriação de múltiplas obras sinestésicas, por meio de instalações audiovisuais interativas, como a encenação de 1928 de “Tableaux d’une exposition, de Moussorgski”, ou o “Salon de musique” que ele projectou para a Exposição de Construção de Berlim de 1931.
Percurso Sonoro e Percurso Famíliar
Esta exposição distingue-se de uma montagem tradicional pela criação de instalações originais que oferecem ao público uma descoberta sensível do universo do pintor. A mostra propõe, assim, uma imersão sonora, essencialmente musical, que permite o diálogo entre pintura e música. Essa criação original, que mescla vozes, ruídos e sons, é ouvida por meio de fones de ouvido e é acionada por geolocalização.
Kandinsky frequentemente dava títulos musicais às suas pinturas, como “Improvisação”, “Fuga” e “Canção”, mas reservava o nome “Composição” para 10 das suas telas mais ambiciosas. Angela Lampe, curadora do Centre Pompidou, comentou que isso é revelador: “Era o nome que ele escolhia para obras muito grandes, muito importantes na sua trajectória e nas quais se dedicava intensamente.”
A exposição “A Música das Cores” termina com as três últimas dessas obras monumentais: “Composição 8” (1923), do Guggenheim em Nova Iorque; “Composição 9” (1936), do Pompidou; e “Composição 10” (1939), cedida pela Kunstsammlung Nordrhein-Westfalen, em Düsseldorf, Alemanha.
Segundo Angela Lampe, esse raro conjunto foi pensado como o ponto culminante da mostra, que investiga como a música serviu de inspiração para Kandinsky levar a arte além da figuração. “A música era seu modelo intelectual: a arte abstracta por excelência,” explicou.
Theresa Bêco de Lobo

