O Teatro I O que foi e o que é

Vocês, artistas que fazem teatro
Em grandes casas, sob sóis artificiais,
Diante de multidões silenciosas,
Procurem, de vez em quando,
O teatro que se representa na rua.

Quotidiano, múltiplo e anónimo,
Mas tão vivo, tão terreno,
Alimentado pela convivência dos homens:
O teatro que acontece na rua.”

Bertolt Brecht

O Teatro, que ao longo da história foi assumindo diferentes formas, estilos e funções, transformando-se sob a batuta das mudanças que o mundo foi sofrendo, nunca deixou de representar encantamento e crítica, lazer e denúncia. Capaz de despertar emoções e apaixonar plateias, a apresentação de uma peça de teatro exige engenho e arte para que o texto seja honrado no aplauso e acolhimento. No mês em que se celebra um dia dedicado ao Teatro, e que se celebra o nascimento de Amélia Rey Colaço, a quem dedicamos um espaço neste número, faz todo o sentido embarcarmos numa viagem pela História do Teatro reconstituindo vida e obreiros. 

Oriundo da palavra grega theatron que significa “local onde se vê” ou “lugar para olhar” o teatro, enquanto arte performativa de representação em frente de um público, é em si uma experiência completa na transversalidade artística que envolve. É no decurso da peça de teatro que a história ou histórias que silenciosas se escondiam em livros e guiões são visualizadas, vividas por actores esquecidos de si, mergulhados em corpos e almas alheios. Na Antiga Grécia, ir ao teatro representava um grande acontecimento que aos poucos foi tomando conta da vida social dos habitantes e durante séculos o teatro era um espectáculo por vezes vivido a duas vozes. Tanto podia ser o palco erudito de grandes autores clássicos ou o popular, enquanto espaço de excesso e de exorcismo de sentimentos colectivos. Nos dias de hoje, em Portugal já poucos frequentam os teatros e a televisão pública há já muitos anos que abandonou a transmissão de peças de teatro. Mas de acordo com Jean Barrault, conhecido actor, encenador e artista de mime francês (1910–1994), o teatro “é o primeiro soro que o homem inventou para se proteger da doença da angústia” e, em tempos tão perturbadores como os que vivemos actualmente, seria talvez benéfico um regresso a ele que nos oferece verdades transvestidas de farsa. 

Clarice Lispetor, numa carta a Lúcio Cardoso em 13 de agosto de 1947, terá escrito que o propósito do teatro “é fazer o gesto recuperar o seu sentido, a palavra o seu tom insubstituível, permitir que o silêncio, como na boa música, seja também ouvido, e que o cenário não se limite ao decorativo e nem mesmo à moldura (…)” defendendo que todos esses elementos, se integrem no objectivo final de revelação de um drama. É evidente que o que chamamos hoje de teatro nem sempre teve o seu perfil desenhado com os traços actuais. Na pré-história e Antiguidade Oriental ou seja, antes de existir como arte organizada, o teatro esteve ligado a rituais religiosos, mágicos e cerimoniais envolvendo danças, máscaras e cantos usados para invocar divindades, numa tentativa de compreensão e explicação do mundo ou para marcar acontecimentos importantes da comunidade.

O teatro, reconhecido pelo mundo ocidental como tal, nasce na Grécia Antiga (séculos V–IV a.C.) ligado às festas em honra de Dioniso, deus do vinho e da fertilidade. Nessa altura, desenvolveram-se dois principais géneros. A Tragédia que explorava temas como o destino, a culpa, a justiça e a relação entre a humanidade e os deuses e que contou com autores como Eurípides, Sófocles e Ésquilo a ficarem na História com obras intemporais. Com um carácter satírico e crítico surgiu a Comédia, que teve em Aristófanes o seu mais conhecido representante, recorrendo a coros e máscaras para ridicularizar costumes, políticos e instituições.

A partir do século III a.C, temos um império emergente que dominará o Mediterrâneo. A expansão romana representará não apenas o domínio político e económico, mas igualmente e de forma sábia a absorção da cultura sofisticada e conhecimento dos povos subjugados com evidente e especial destaque para os gregos. E foi assim que durante o período em que Roma imperou, o teatro grego foi adaptado a um carácter mais lúdico e espectacular. Séneca, o grande filósofo do estoicismo, será um caso particular com as suas Tragédias, como Medeia. E é interessante observar que Séneca dramaturgo e Séneca filósofo não se separam. Séneca serve-se do teatro para comprovar ou para evidenciar o que as suas teses filosóficas defendem, ou seja, a Tragédia mostra o fracasso da razão quando as paixões descontroladas e o excesso vencem a virtude e a racionalidade. Portanto, as Tragédias de Séneca funcionam como advertência moral e Medeia é exemplar porque há o reconhecimento racional do crime, mas ainda assim ele é cometido.

Contudo, convém registar que existe alguma discussão académica sobre se se poderiam chamar peças de teatro aos textos do filósofo considerando que aparentam não terem sido pensados para encenação pública destinando-se mais à leitura e declamação em círculos restritos. Séneca levava ao limite o excesso verbal e a violência e por isso as suas obras eram dificilmente encenáveis.

Mais tarde, e apesar de inicialmente ter sido rejeitado pela Igreja, o teatro reaparece durante a Idade Média sobretudo com fins religiosos e pedagógicos, surgindo, como principais géneros, os Autos Religiosos que eram peças curtas, frequentemente representadas em festas religiosas, com uma linguagem mais simples e próxima do povo; os Mistérios, dramas com temática bíblica encenados em espaços públicos e que tinham a função didática de aproximar o povo das Escrituras e, por fim, já no final da Idade Média, as Moralidades que eram peças alegóricas com objectivos de eticidade religiosa e onde as personagens representavam conceitos abstractos como virtude, pecado, morte e fé. Os autos de moralidade acabaram por representar uma transição para um género teatral menos vinculado com o litúrgico reabrindo o caminho para um teatro secular profissional, que irá conhecer a consolidação durante o Renascimento. 

 Com o Renascimento há um regresso aos clássicos. A Europa acredita que o modelo da beleza e perfeição se encontra na Antiguidade e é a ela que vai beber a sua inspiração reformulando paradigmas mentais e a visão do Homem no mundo. O teocentrismo perde terreno para o antropocentrismo e o Humanismo impõe-se como corrente filosófica. É neste contexto que o teatro ganha densidade psicológica e riqueza linguística. Em Inglaterra, William Shakespeare tornar-se-á imortal com Hamlet, Macbeth, Otelo ou Romeu e Julieta.

Gil Vicente, que defendia que a rir se criticavam os costumes, continua a ser, em Portugal, uma incontestável referência também como autor de transição porque apesar de ser um dramaturgo do Renascimento português, a sua obra conserva fortes elementos do teatro medieval. Se quisermos uma comparação entre os gigantes citados encontramos em Shakespeare um tratamento de profundidade das personagens enquanto que, com Gil Vicente, encontramos uma crítica social e moral mordaz recorrendo a um humor inteligente e à caricatura na construção das suas personagens tipo.

Nos séculos XVII e XVIII a comédia neoclássica continuará o caminho da crítica aos vícios humanos usando a ironia. Molière, nome artístico de Jean-Baptiste Poquelin (1622-1673), irá ser a grande referência do teatro francês e europeu da época. O apoio que recebeu de Luís XIV, admirador das suas sátiras, comédias e tragédias, é bem o espelho dessa admiração tendo inclusive assumido funções como organizador dos divertimentos da Corte. 

Nos séculos seguintes, o Teatro moderno irá retratar a realidade social e psicológica, questionando valores e estruturas sociais, provocando e semeando interrogações e sobressaltando. Durante os séculos XIX e XX, os movimentos artísticos reflectem-se nas obras como acontece com as de Henrik Ibsen, considerado um dos criadores do teatro realista moderno. Ibsen, o maior dramaturgo norueguês do século XIX, notabilizou-se por abordar questões sociais, morais e psicológicas rompendo com convenções, desafiando normas sociais e explorando temas tabus como o papel da mulher na sociedade, o casamento, a moralidade e a hipocrisia. 

Por sua vez, Anton Tchékhov, não sendo considerado um realista no sentido tradicional como reconhecemos em Ibsen, oferece nas suas obras um conceito diferenciado de acção dramática já que os acontecimentos decisivos ocorrem fora de cena e a tensão mantém-se latente. A importância de Tchékhov para o teatro do século XX reside por isso e em grande medida na redefinição da acção dramática, na importância dada ao subtexto e aos silêncios e na criação de personagens anti-heróicas.

Com uma narrativa tão especial que se tornou num ícone modelar, num conceito teatral de autor, Bertolt Brecht oferece-nos em 1941 a incrível peça “Mâe coragem e os seus filhos” considerada um exemplo perfeito do que Brecht considerava ser um épico. Considerada por muitos como uma das obras dramatúrgicas mais importantes do século XX, tornou-se a mais relevante peça teatral contra a guerra.

Já o irlandês Samuel Beckett (1906-1989) é considerado um dos principais autores do denominado teatro do absurdo. Recebeu o Nobel da Literatura em 1969sendo a sua peça “À Espera de Godot” uma referência incontornável.

Actualmente, e é bom lembrar que já entrámos no 2º quartel do século XXI, o teatro acolhe uma diversidade conceptual com diferentes manifestações de linguagem como a dança, o vídeo ou a música. Um teatro sem quadrantes definidos e onde a experimentação obedece ao mote da liberdade absoluta na forma como são abordadas as questões sociais contemporâneas. 

Paula Timóteo

Paula Timóteo

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