No mês em que se assinala o Dia da Língua Portuguesa e se multiplicam iniciativas um pouco por todos os países da CPLP, fazemos aqui uma breve síntese do percurso complexo e rico em afluentes da língua que hoje falamos e escrevemos e que, lamentavelmente, é tantas vezes maltratada. Um percurso que nos leva a uma época em que dificilmente reconheceríamos uma única palavra como sendo “portuguesa”.
Sabemos que a nossa língua deriva do latim, mas tendemos a ficar por essa evidência, esquecendo que nela subsistem ancestrais elementos celtas, gregos, hebraicos e germânicos. E mesmo o latim não era de uma só face porque tinha duas “versões” distintas: o culto e o vulgar. Este último, como facilmente se depreende, era a língua do quotidiano, falada pelo povo, sem grande rigor formal e com um vocabulário mais restrito. Já o latim clássico era sofisticado, normativo e reservado à literatura e às elites do Império.
À semelhança das restantes línguas românicas, o português nasce precisamente desse sermo vulgaris, o latim vulgar que contrastava com a versão padronizada da língua. O termo “românico” deriva, aliás, do facto de o latim ser a língua dos romanos, que a difundiram pelos vastos territórios do seu império. Não existe consenso absoluto sobre o número de línguas românicas, até porque a fronteira entre língua e dialeto é frequentemente ténue, mas bases de dados como o Ethnologue apontam para cerca de 44, abrangendo um sétimo da população mundial. Cerca de 90% dos seus falantes concentram-se em apenas cinco países: Portugal, Espanha, França, Roménia e Itália. Ainda assim, o universo românico é bem mais vasto, incluindo línguas como o aragonês, o aromeno, o asturiano, o arpitano (ou franco-provençal), o catalão ou o corso.
Apesar da origem comum, o latim foi-se transformando de forma natural, moldado pelas línguas locais e pelas diferentes proveniências geográficas de soldados e administradores romanos. Na Península Ibérica, essa mistura deu origem a variantes que, ao longo do tempo, evoluiriam para as línguas românicas, entre elas o português.
Com a desagregação do Império Romano e o surgimento de novos reinos europeus, foram-se consolidando identidades culturais próprias e as línguas acompanharam esse processo. Afastaram-se progressivamente, adquirindo sonoridades e estruturas distintas, tornando-se elementos fundamentais de identidade coletiva.
Mas regressemos ao português.
Segundo a linguista brasileira Rosa Virgínia Mattos e Silva, o português arcaico conheceu duas fases principais. A primeira, o galego-português, surgiu na Galícia e estendeu-se ao noroeste do actual território português, sobretudo nas regiões próximas do rio Minho. Terá predominado entre os séculos XII e XIV, embora alguns estudos recuem esse período até entre os séculos VIII e XIII. Foi a língua que acompanhou o nascimento do Condado Portucalense e a formação do Reino de Portugal. Durante esta fase, expandiu-se para sul, sendo adotada por populações muçulmanas e moçárabes e incorporando numerosos vocábulos de origem árabe.
A segunda fase, correspondente ao português arcaico propriamente dito, prolonga-se até cerca de 1540 embora a célebre Carta de Pero Vaz de Caminha, escrita em 1500, seja frequentemente apontada como o documento que simbolicamente encerra o período medieval da língua.
É então que emerge o chamado “português moderno”, consolidado com a publicação das primeiras gramáticas: a de Fernão de Oliveira, em 1536, e a de João de Barros, em 1540. Trata-se da língua que encontramos nos grandes clássicos, nomeadamente na obra de Luís de Camões.
Entre os séculos XVI e XVII, os gramáticos portugueses empenharam-se em afirmar o valor do idioma, defendendo a sua plena capacidade expressiva face ao latim e contrariando a ideia de inferioridade das línguas românicas. As primeiras gramáticas desempenharam um papel decisivo na fixação da norma literária, enquanto autores como Camões associaram simbolicamente a expansão do império à difusão da língua.
Ainda assim, a evolução do português não foi linear. O linguista Paul Teyssier considerava que a verdadeira transição para o português moderno e contemporâneo se consolidaria apenas com as transformações ocorridas entre o século XVIII e o início do XIX, ao nível da morfologia, da sintaxe e do vocabulário.
Apesar da crescente valorização do português, o castelhano manteve durante muito tempo um forte prestígio cultural, levando muitos autores a utilizá-lo. Esse contexto alimentou o debate sobre a necessidade de promover e dignificar a língua portuguesa. Fernão de Oliveira valorizou o papel dos falantes e a clareza da pronúncia, enquanto João de Barros defendeu a regulação pelo uso, inspirado nos modelos clássicos. No século XVII, estudiosos como Duarte Nunes de Leão aprofundaram a reflexão sobre a origem da língua.
No século XVIII, o debate alargou-se à relação entre português, galego e castelhano. O ensaísta, filósofo e polígrafo galego, Dom Benito Jerónimo Feijoo e Montenegro, defendia a proximidade entre português e galego, contestando a visão castelhana que subordinava o português ao espanhol. Ao mesmo tempo, a restauração da independência e a influência do Iluminismo, em particular através de Luís António Verney, impulsionaram uma renovação linguística.
Na sua obra Verdadeiro Método de Estudar (1746), Verney criticou o ensino tradicional e defendeu uma linguagem clara, funcional e adequada à produção científica. Promoveu o uso do vernáculo em detrimento do latim e incentivou a criação de neologismos, contribuindo para modernizar a escrita e aproximá-la dos ideais iluministas. A sua visão da língua como instrumento vivo e adaptável gerou reações divergentes, sendo apoiada por uns e contestada por outros, sobretudo nos meios ligados ao ensino jesuítico.
Já na segunda metade do século XVIII, a Arcádia Lusitana, fundada em Lisboa em 1756, adoptou o francês como modelo cultural, reacendendo o debate sobre a pureza da língua e, neste contexto, a Academia Real das Ciências respondeu com a valorização dos clássicos portugueses. No período romântico, cresceu o interesse pelo “génio” do povo e da língua, abrindo caminho a uma abordagem científica da linguística, consolidada por figuras como Francisco Adolfo Coelho.
Hoje, o português é uma das línguas mais faladas do mundo, com mais de 260 milhões de falantes nativos sendo que as Nações Unidas projetam que, até 2050, esse número possa atingir os 400 milhões. O português é ainda a língua oficial em nove países distribuídos por vários continentes e ocupa posições de destaque na internet e no hemisfério sul.
Infelizmente, e apesar de termos um Instituto Camões cujos princípios se pautam pela difusão da língua portuguesa e da cultura lusa, a língua que Luís de Camões imortalizou e Fernando Pessoa glorificou não tem beneficiado da mesma visão estratégica que se reconhece no Instituto Cervantes. De facto, e apesar das similitudes, existem diferenças que ditam resultados distintos. São ambos organismos públicos responsáveis pela projeção internacional das respectivas línguas e culturas, desempenhando funções equivalentes no plano diplomático e cultural, mas divergem nas concepções acerca do lugar que uma língua ocupa no mundo, e os resultados alcançados expõem desigualdades profundas na forma como Espanha e Portugal encaram a diplomacia cultural.
A língua portuguesa ocupa o lugar de destaque que ocupa, mas não é graças ao papel do Instituto Camões, e sim ao facto de haver cerca de 250 milhões de brasileiros que a falam. Contudo, o português que se ouve no continente americano tem-se vindo claramente a distinguir do europeu. A própria natureza de qualquer língua dita exactamente esse caminho: o de se ir transformando e diferenciando ao sabor dos usos quotidianos dos seus falantes. Quando há distância geográfica, os ramos linguísticos tendem a distanciar-se.
Quanto às diferenças relativamente à projecção do espanhol, o Instituto Cervantes tem sabido consolidar, desde a sua criação, uma presença internacional forte e visível, investindo recursos numa estratégia clara de afirmação do espanhol como língua global. Os seus centros funcionam como espaços culturais activos, reconhecidos pela qualidade da sua agenda além de estarem integrados nas grandes capitais, contribuindo para transformar a língua num instrumento de influência cultural e simbólica. A promoção do espanhol surge, assim, articulada com uma visão estratégica de promoção internacional. Os espanhóis valorizam a sua língua como os portugueses não o fazem e talvez valha a pena lembrar que a língua representa um factor essencial de identidade e soberania.
A questão de fundo é simples: o valor de uma língua no mundo depende tanto da sua história como da capacidade política de a defender e projectar. O espanhol foi estrategicamente promovido; o português, apesar da sua expansão histórica, continua muitas vezes subvalorizado.
Como lembrava José Saramago, o português não pertence a Portugal, mas a todos os que o falam. Não existe uma língua homogénea, mas uma comunidade de falantes diversa, com múltiplas variantes e riquezas regionais. Essa diversidade é natural e desejável, mas uma coisa é a riqueza na diversidade outra, porém, é a ausência de uma referência normativa clara no plano escrito.
A língua deve ser entendida como património comum dos povos lusófonos, mas esse património exige também um núcleo estruturante que garanta a sua coesão.
Há ainda outro fenómeno que ocorre em Portugal, e igualmente no Brasil, contribuindo para um esvaziamento da língua e uma subalternização ao inglês: o uso abusivo de anglicismos. É usual, em espaços institucionais e mediáticos, ouvirem-se em catadupa palavras inglesas a substituir palavras portuguesas. Resultado de uma qualquer afirmação de estatuto, por mera vaidade ou por moda, provavelmente um misto de tudo, mas chega a ser patético e constrangedor ouvir job em vez de trabalho, call em vez de telefonema ou chamada, feedback em vez de reação ou resposta, manager em vez de gerente ou gestor, deadline em vez de prazo ou data limite, meeting em vez de reunião, networking em vez de rede de contactos, mindset em vez de mentalidade ou modo de pensar, cycling em vez de ciclismo, jogging em vez de corrida… enfim, a lista é longa.
O futuro da língua portuguesa não dependerá apenas do número de falantes. Será também determinado por uma política cultural que reconheça na língua um instrumento central de presença no mundo contemporâneo, mas igualmente e em grande medida pela assunção, por parte dos falantes, de uma postura de maior valorização da sua língua nativa, de afirmação orgulhosa do português e pela rejeição de um colonialismo linguístico marcadamente anglo-saxónico que só nos empobrece.
Era uma vez uma menina que vivia no mar e era amiga de um polvo, de um peixe e de um caranguejo. Havia também um rapazinho que morava numa casa junto à praia e que, um dia, conheceu a menina que vivia no mar.
Sophia de Mello Breyner Andresen publicou, em 1958, o seu primeiro conto para a infância, “A Menina do Mar”. Na primeira de muitas edições que se lhe seguiram, contou com as ilustrações de Sarah Affonso, o que tornou este livro ainda mais especial, associando a beleza das palavras à das imagens. A obra, que nunca mais deixou de ser reeditada, tem a praia como cenário e narra uma história de amizade muito especial, que une mundos diferentes e valoriza a vontade e o gosto de partilhar e conhecer as diferenças, tornando-as uma riqueza. “A Menina do Mar” é um dos contos mais lidos de sempre. Amplamente adoptado no currículo do 2.º ciclo, incorpora as bases fundamentais da natureza humanista de Sophia.
Na obra infantil de Sophia encontramos narrativas que não contam apenas histórias. Nelas reconhecemos um sopro poético na voz das personagens, nas palavras escritas e, sobretudo, na própria essência do que é contado. Sophia de Mello Breyner Andresen (1919–2004) escreveu para crianças impulsionada pela necessidade de entreter os filhos numa altura em que tiveram sarampo e foram obrigados a manter-se na cama. Títulos como “O Rapaz de Bronze”, “A Fada Oriana” ou “O Cavaleiro da Dinamarca” possuem os traços identitários da sua narrativa: a natureza, o tempo, a amizade, a magia, a justiça, o encantamento da simplicidade e da pureza, as experiências extraordinárias da infância e o sentido de responsabilidade. Tudo isto faz parte do património lírico de Sophia.
Mas, se a literatura infantil conta com Sophia como uma referência incontornável, é na poesia que a sua estatura se eleva, tornando-a num dos grandes nomes da literatura portuguesa e uma das mais importantes poetas contemporâneas, tendo sido a primeira mulher a receber o Prémio Camões.
David Mourão-Ferreira escreveria sobre ela, na sua obra “Vinte Poetas Contemporâneos”, que “Sophia de Mello Breyner Andresen é, quanto a nós, um caso ímpar na poesia portuguesa, não só pela difusa sedução dos temas ou pelos rigores da expressão, mas sobretudo por qualquer coisa, anterior a isso tudo, em que tudo isso se reflecte: uma rara exigência de essencialidade”.
Foi na cidade do Porto que, no dia 6 de Novembro de 1919, uma aristocrática família de origem dinamarquesa, por parte do pai, deu as boas-vindas a uma menina que trazia nos olhos o brilho das estrelas e os finos cristais do universo que todos os génios possuem, embora ainda fosse demasiado cedo para alguém o perceber. Filha de João Henrique Andresen e Maria Amélia de Mello Breyner, Sophia era neta do proprietário da Quinta do Campo Alegre, cuja centenária colecção de cameleiras, com mais de duzentas variedades cultivadas num ambiente de desenho romântico, tornou este jardim num verdadeiro recanto paradisíaco. Adquirido pelo Estado em 1949, foi cedido no ano seguinte à Universidade do Porto e integrado no Jardim Botânico da cidade. Actualmente, o Jardim Botânico faz parte do Museu de História Natural e da Ciência da Universidade do Porto e continua a preservar o património histórico e botânico da antiga quinta.
Sophia viveu na Quinta uma parte significativa da sua infância e juventude, tal como o seu primo, o escritor Ruben A. (Ruben Alfredo Andresen Leitão). Em “Histórias da Terra e do Mar”, há um conto dedicado à história da família, onde se descrevem a casa, a quinta e a infância. De resto, a feliz infância que viveu marcaria profundamente a sua obra porque teve o privilégio de crescer num ambiente de sonho, um espaço único de beleza e tranquilidade que alimentou a sua alma poética e a sua imaginação fecunda.
Entre 1936 e 1939, estudou Filologia Clássica na Universidade de Lisboa e participou em movimentos universitários católicos, espelhando a convicção de que a vida deve ser vivida em comunhão com princípios morais e éticos inegociáveis. Apesar de ter crescido num contexto favorecido, isso não lhe turvou a visão crítica da sociedade, tornando-se numa voz firme contra uma época marcada por perseguições e limitações da liberdade de pensamento e expressão.
Sophia opôs-se activamente ao regime de Salazar, defendendo a liberdade, condição essencial para a criação, pois, como afirmava, precisava apenas de “paz, silêncio e liberdade” para escrever. A Segunda Guerra Mundial e o contexto ditatorial português moldaram a sua consciência, tornando-a numa defensora da liberdade e da justiça, temas centrais na sua obra e na sua vida cívica.
Parte significativa da sua obra reflecte essa postura. Em 1964 surge o poema “Cantata da Paz”, cujo verso inicial “vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar” ficou gravado na memória colectiva. O poema, surgido num contexto de denúncia da opressão e da guerra em geral, a que não é, obviamente, alheia a Guerra Colonial, tornou-se um dos textos mais marcantes da sua poesia cívica. Dez anos mais tarde, na madrugada de 25 de Abril, escreve “Esta é a madrugada que eu esperava”, celebrando um tempo de renovada esperança.
Criada numa família tradicional e profundamente católica, Sophia assumiu a essência da religião na prática dos princípios cristãos, recusando limitá-la a rituais formais. Defendia que a religião não condiciona o humano, “mas funda-o”.
Na sua obra poética encontramos uma percepção do mundo que valoriza o olhar atento, em consonância com a ideia aristotélica de que a visão é o sentido que mais nos permite conhecer. Sophia observava o mundo com intensidade, absorvendo tanto o seu encanto como as suas contradições.
A sua poesia reflecte um olhar límpido e atento aos males do mundo. Jorge Sampaio, aquando da sua morte, destacou na sua obra a “sabedoria e atenção ao universo e à sua claridade”, bem como o seu corajoso “combate pela liberdade”.
Plena de afecto, a sua poesia traduz-se numa linguagem que nos envolve profundamente, lembrando a simplicidade sensorial de Alberto Caeiro. E, em comunhão com esse olhar, Sophia escreve:
A minha vida é o mar o Abril a rua
O meu interior é uma atenção voltada para fora
O meu viver escuta
A frase que de coisa em coisa silabada
Grava no espaço e no tempo a sua escrita
Não trago Deus em mim mas no mundo o procuro
Sabendo que o real o mostrará
Não tenho explicações
Olho e confronto
E por método é nu meu pensamento
A terra o sol o vento o mar
São minha biografia e são o meu rosto
Por isso não me peçam cartão de identidade
Pois nenhum outro senão o mundo tenho
A poesia é, de resto, a pele existencial de Sophia. Em 1940 publica os seus primeiros versos nos “Cadernos de Poesia” e, a partir de 1944, a literatura torna-se parte fundamental da sua existência.
A tradição mediterrânica, a cultura grega, a luz, o mar, o amor e o trágico eram os temas predilectos de Sophia. “O verdadeiro artista não inventa, vê”, afirmou numa das muitas entrevistas que deu, explicando que o artista “consegue apreender na natureza, nos elementos, o elo primordial que une o Homem ao Universo”.
Detentora de uma cultura extraordinária e com profunda ligação à cultura clássica grega, Sophia de Mello Breyner conciliou a sua obra poética com outras vertentes da literatura, tendo sido autora de diversos contos, artigos, ensaios e peças teatrais, além de ter traduzido para o português as obras do dramaturgo grego Eurípides (484–406 a. C.), de Shakespeare, Dante e Claudel. Preparou e traduziu para o francês uma antologia da poesia portuguesa intitulada “Quatre poètes portugais”, onde incluiu poemas de Camões, Cesário Verde, Mário de Sá-Carneiro e Fernando Pessoa.
A especialista em literatura portuguesa e mestre em Filosofia, Rosely de Fátima Silva, defende que Sophia “é a poeta do phainómenon, seguindo a bela etimologia grega: pháos : luz, luz solar, luz da vida; phainô: dar luz, manifestar, assinalar”. E acrescenta: “Mas a fleuma grega antiga de Sophia é fortemente tocada pela melancolia moderna (…) Há uma suave disciplina da escuta do mundo e do olhar que proporcionam a constituição de uma poética diferente, a qual remete aos ecos de uma poesia imemorial, atemporal, presente em todas as coisas, ou seja, o fazer poético como sopro vital, como respiração e, também, o fazer poético como inserção na história e acção política”.
Em 1946, casa-se com Francisco Sousa Tavares, com quem terá cinco filhos, que influenciarão profundamente a sua escrita para a infância.
Tal como outras figuras pioneiras da literatura infantil, como Ana de Castro Osório, sobre a qual escrevemos no último número, Sophia revela um cuidado rigoroso na escrita e uma forte dimensão humanista. Ler as suas histórias é entrar num mundo de encantamento e ternura, capaz de transformar quem lê.
O culto pela arte e tradição próprias da civilização grega eram caros a Sophia, tal como a ligação que sentia com a poesia de Fernando Pessoa e seus heterónimos. Há autores que sublinham exactamente esta característica na obra de Sophia de Mello Breyner Andresen, considerando que ambos comungavam de uma proximidade conceptual com Platão no apelo ao infinito e na memória de infância. A figura de Pessoa encontra-se, aliás, evocada múltiplas vezes nos poemas de Sophia.
Em “Arte Poética III”, a poeta diz:
Faz da tua vida em frente à luz
Um lúcido terraço exacto e branco,
Docemente cortado pelo rio das noites.
No que é entendido como um poema de inspiração (ou diálogo) com o universo de Ricardo Reis, encontramos uma apropriação estética e ética muito clara, porque ambos recusam o excesso e defendem uma vida equilibrada e consciente, e essa é a síntese da vida de Sophia de Mello Breyner Andresen. Alguém que viveu por inteiro e que se encontra em cada poema, em cada frase e conto escritos.
Sophia de Mello Breyner Andresen foi merecidamente homenageada em vida, tendo recebido, entre outros, o Prémio de Poesia da Sociedade Portuguesa de Escritores pela obra “Livro Sexto”, em 1962; o Grande Prémio Calouste Gulbenkian de Literatura para Crianças, em 1992; o Prémio “Vida Literária” da Associação Portuguesa de Escritores, em 1994; a Placa de Honra do Prémio Petrarca, da Associação de Editores Italianos, em 1995; o título Honoris Causa, em 1998, pela Universidade de Aveiro; o Prémio Camões, em 1999; o Prémio de Poesia Max Jacob (2001); e o Prémio Rainha Sofia de Poesia Ibero-Americana, em 2003.
Desde 2005, os seus poemas foram colocados em exposição permanente no Oceanário de Lisboa.
Porém, a melhor forma de homenagear um poeta e autor é respeitarmos a língua em que as obras se escreveram, cuidar da forma como pensamos e aprimorar a nossa comunicação. E é, sobretudo, ler. Ler muito. Porque só com a leitura as palavras germinam e o pensamento evolui. Ler os nossos poetas e os nossos escritores é manter a sua obra viva, é respeitá-los e agradecer a imensa dádiva que deles recebemos.
E Sophia de Mello Breyner Andresen é mesmo para ser lida e a ela regressarmos muitas vezes, porque, tal como Eduardo Lourenço reconheceu, nela encontramos “uma das vozes mais extraordinárias da poesia portuguesa do século”, alguém que soube construir uma “obra já fora do tempo, no coração do tempo”.
Paula Timóteo

