No mês em que se celebra o Dia da Língua Portuguesa foi inevitável trazermos um pouco da longa e complexa história da nossa língua e convidarmos uma das maiores poetas de sempre, Sophia de Mello Breyner Andresen, para comemorar da melhor forma este Dia.
Mas, se bem sabemos e entendemos que o Português, tal como outras línguas, é um idioma em permanente processo evolutivo, também sabemos que uma coisa é um percurso enriquecedor outra é um processo de decadência e aviltamento.
Ao contrário do que acontece com outras línguas com forte implantação mundial, caso do óbvio inglês e do espanhol, o português apresenta-se tímido e quase a pedir por favor para entrar nos espaços e lugares do seu próprio país. Por isso, entre o que se diz e o que na prática se faz, vai uma diferença substancial. Nos momentos oficiais e solenes enaltece-se a língua que, já agora, vai muito além do nosso ilustre Camões, mas na prática não a respeitamos.
A introdução na oralidade quotidiana de expressões inglesas quando existem opções portuguesas é lastimável subindo ao patamar do escandaloso e patético quando tal prática se verifica no discurso comunicacional ou académico seja ele veiculado através da televisão, ou proferido em eventos.
Lamentavelmente, é um dado incontestável que, nos últimos anos, tem-se tornado cada vez mais evidente o uso excessivo de anglicismos na comunicação oral e escrita em português o que nos deve sobressaltar e questionar sobre preservação da identidade linguística e cultural. Como é evidente não questionamos o enriquecimento linguístico que se faz muito por via das assimilações. Mas, se por um lado o contacto entre línguas é um fenómeno natural e enriquecedor, por outro, a adopção indiscriminada de palavras estrangeiras, em quase absoluto predomínio, inglesas, tem de nos obrigar a uma séria reflexão e exige debate urgente.
Em muitos contextos, sobretudo profissionais e académicos, termos ingleses substituem palavras portuguesas perfeitamente adequadas. Expressões como “feedback”, “deadline”, “meeting”, “performance” , “briefing”, “ target”, “budget”, “skills” entre muitas mais, surgem frequentemente quando poderiam ser usados os termos “retorno/ resposta ou reacção”, “prazo”, “reunião”, “desempenho”, “apresentação de resumo ou instruções”, “objectivo/meta”, “orçamento” ou “competências”.
Esta tendência não resulta apenas da globalização, mas também de uma certa valorização social do inglês, frequentemente associado a modernidade, competência e prestígio.
Ao privilegiar termos ingleses sem necessidade, negligencia-se a riqueza vocabular do português e enfraquece-se a sua capacidade expressiva. A língua deixa de ser um instrumento pleno de comunicação para se tornar um espaço de modas linguísticas, muitas vezes pouco rigorosas e nem sempre compreendidas por todos os falantes.
Se este cenário pode conduzir à fragilização do Português, outras situações para ela apontam. Entre os mais jovens, o uso e abuso de jogos electrónicos e a preferência pelas redes sociais em interacções interpessoais têm tido o seu efeito destrutivo na qualidade comunicativa tanto ao nível do discurso escrito como oral. As plataformas de mensagens instantâneas promovem uma escrita rápida, informal e descuidada. A ausência de pontuação, o uso de abreviaturas e a simplificação da linguagem tornam-se hábitos que se enraízam e se colam no ADN de cada indivíduo.
O empobrecimento do vocabulário é assim uma das consequências do uso, mas sobretudo do abuso, das redes sociais, todavia também é a própria causa do dito abuso se considerarmos que quem pouco domina o discurso procura caminhos facilitadores. Nas escolas e fora delas assiste-se a um decréscimo acentuado na qualidade e diversidade vocabular de um número significativo de jovens que preferem a repetição de expressões vagas como, por exemplo: “tipo”, “cena” ou “coisa”, em detrimento de termos mais precisos. Esta redução do léxico disponível compromete a capacidade de expressão e limita a clareza do pensamento, já que a linguagem é, em grande medida, o instrumento através do qual organizamos e comunicamos ideias.
Saramago no documentário Vidas em Português, de 2004, criticou de forma clara o empobrecimento da comunicação com a diminuição vocabular considerando que esse facto limita a capacidade de exprimir sentimentos e pensamento.
A par desta limitação vocabular, observa-se a simplificação excessiva da linguagem. As frases tornam-se mais curtas, menos estruturadas e, por vezes, fragmentadas. O discurso aproxima-se de um registo quase telegráfico, em concordância com o usual na comunicação digital, onde a rapidez se sobrepõe à elaboração. Esta prática, quando generalizada, dificulta a construção de raciocínios mais complexos e a articulação coerente de argumentos.
Continuando no domínio das competências comunicacionais, outro aspecto relevante prende-se com as dificuldades ao nível da organização do pensamento. Muitos jovens revelam limitações na capacidade de desenvolver ideias, sustentar opiniões ou estabelecer relações lógicas entre conceitos. Esta fragilidade reflecte-se tanto na oralidade como na escrita, dando origem a discursos vagos, confusos e superficiais.
Também no domínio da gramática e da sintaxe se registam problemas graves. Erros de concordância, uso inadequado de tempos verbais e construções frásicas pouco rigorosas, desuso de palavras funcionais, como preposições, essenciais para estruturar os textos, são cada vez mais comuns. Embora a língua esteja em constante evolução, a perda de domínio das suas estruturas fundamentais pode comprometer a eficácia da comunicação.
A par de toda esta realidade que resulta de uma desvalorização da leitura, da escrita (escrita com seriedade) e oralidade adequada e consistente, temos uma outra situação em assustador crescimento e que é o da chegada ao 2 e 3º ciclos de alunos analfabetos ou, apesar de supostamente alfabetizados, alunos cujo discurso escrito é a todos os níveis incompreensível É grave que os alunos não concluam com sucesso real o 1º ciclo ao nível das competências linguísticas básicas e fundamentais à progressão, mas ainda se torna mais perturbador assistir à progressão dentro do 2º e 3º ciclos de discentes que se encontram nestas circunstâncias.
Por isso, homenagear a Língua Portuguesa ao mesmo tempo que usamos “Report” em vez de relatório ou preferimos o ‘Know how “ a “conhecimento ou experiência” chega a ser ofensivo tal como o é quando se valida a ignorância da língua ao nível mais básico.
Preservar e cuidar da língua não é um acto de resistência ao mundo, mas sim de valorização daquilo que nos identifica. O português possui uma história rica, uma enorme capacidade de adaptação e um património lexical vasto. Cabe-nos utilizá-lo com rigor, consciência e respeito, garantindo que continua a ser um meio vivo, expressivo e acessível a todos.
Terminamos com um regresso a Saramago lembrando o que o nosso Nobel da Literatura afirmou lúcida e cruamente em 2008 aquando da inauguração de uma exposição sobre a sua vida e obra, intitulada «José Saramago – A Consistência dos Sonhos» : “O Português é hoje mal falado, é atropelado mortalmente todos os dias mas, como tem muita energia, sacode-se e põe-se de pé e continua” frisando de seguida que «a língua é a mais preciosa das ferramentas».
Compete às escolas e actores educativos não descuidarem de uma educação linguística competente e séria.
Paula Timoteo

