Sophia de Mello Breyner I A claridade poética

Era uma vez uma menina que vivia no mar e era amiga de um polvo, de um peixe e de um caranguejo. Havia também um rapazinho que morava numa casa junto à praia e que, um dia, conheceu a menina que vivia no mar.

Sophia de Mello Breyner Andresen publicou, em 1958, o seu primeiro conto para a infância, “A Menina do Mar”. Na primeira de muitas edições que se lhe seguiram, contou com as ilustrações de Sarah Affonso, o que tornou este livro ainda mais especial, associando a beleza das palavras à das imagens. A obra, que nunca mais deixou de ser reeditada, tem a praia como cenário e narra uma história de amizade muito especial, que une mundos diferentes e valoriza a vontade e o gosto de partilhar e conhecer as diferenças, tornando-as uma riqueza. “A Menina do Mar” é um dos contos mais lidos de sempre. Amplamente adoptado no currículo do 2.º ciclo, incorpora as bases fundamentais da natureza humanista de Sophia.

Na obra infantil de Sophia encontramos narrativas que não contam apenas histórias. Nelas reconhecemos um sopro poético na voz das personagens, nas palavras escritas e, sobretudo, na própria essência do que é contado. Sophia de Mello Breyner Andresen (1919–2004) escreveu para crianças impulsionada pela necessidade de entreter os filhos numa altura em que tiveram sarampo e foram obrigados a manter-se na cama. Títulos como “O Rapaz de Bronze”, “A Fada Oriana” ou “O Cavaleiro da Dinamarca” possuem os traços identitários da sua narrativa: a natureza, o tempo, a amizade, a magia, a justiça, o encantamento da simplicidade e da pureza, as experiências extraordinárias da infância e o sentido de responsabilidade. Tudo isto faz parte do património lírico de Sophia.

Mas, se a literatura infantil conta com Sophia como uma referência incontornável, é na poesia que a sua estatura se eleva, tornando-a num dos grandes nomes da literatura portuguesa e uma das mais importantes poetas contemporâneas, tendo sido a primeira mulher a receber o Prémio Camões.

David Mourão-Ferreira escreveria sobre ela, na sua obra “Vinte Poetas Contemporâneos”, que “Sophia de Mello Breyner Andresen é, quanto a nós, um caso ímpar na poesia portuguesa, não só pela difusa sedução dos temas ou pelos rigores da expressão, mas sobretudo por qualquer coisa, anterior a isso tudo, em que tudo isso se reflecte: uma rara exigência de essencialidade”.

Foi na cidade do Porto que, no dia 6 de Novembro de 1919, uma aristocrática família de origem dinamarquesa, por parte do pai, deu as boas-vindas a uma menina que trazia nos olhos o brilho das estrelas e os finos cristais do universo que todos os génios possuem, embora ainda fosse demasiado cedo para alguém o perceber. Filha de João Henrique Andresen e Maria Amélia de Mello Breyner, Sophia era neta do proprietário da Quinta do Campo Alegre, cuja centenária colecção de cameleiras, com mais de duzentas variedades cultivadas num ambiente de desenho romântico, tornou este jardim num verdadeiro recanto paradisíaco. Adquirido pelo Estado em 1949, foi cedido no ano seguinte à Universidade do Porto e integrado no Jardim Botânico da cidade. Actualmente, o Jardim Botânico faz parte do Museu de História Natural e da Ciência da Universidade do Porto e continua a preservar o património histórico e botânico da antiga quinta.

Sophia viveu na Quinta uma parte significativa da sua infância e juventude, tal como o seu primo, o escritor Ruben A. (Ruben Alfredo Andresen Leitão). Em “Histórias da Terra e do Mar”, há um conto dedicado à história da família, onde se descrevem a casa, a quinta e a infância. De resto, a feliz infância que viveu marcaria profundamente a sua obra porque teve o privilégio de crescer num ambiente de sonho, um espaço único de beleza e tranquilidade que alimentou a sua alma poética e a sua imaginação fecunda.

Entre 1936 e 1939, estudou Filologia Clássica na Universidade de Lisboa e participou em movimentos universitários católicos, espelhando a convicção de que a vida deve ser vivida em comunhão com princípios morais e éticos inegociáveis. Apesar de ter crescido num contexto favorecido, isso não lhe turvou a visão crítica da sociedade, tornando-se numa voz firme contra uma época marcada por perseguições e limitações da liberdade de pensamento e expressão.

Sophia opôs-se activamente ao regime de Salazar, defendendo a liberdade, condição essencial para a criação, pois, como afirmava, precisava apenas de “paz, silêncio e liberdade” para escrever. A Segunda Guerra Mundial e o contexto ditatorial português moldaram a sua consciência, tornando-a numa defensora da liberdade e da justiça, temas centrais na sua obra e na sua vida cívica.

Parte significativa da sua obra reflecte essa postura. Em 1964 surge o poema “Cantata da Paz”, cujo verso inicial “vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar” ficou gravado na memória colectiva. O poema, surgido num contexto de denúncia da opressão e da guerra em geral, a que não é, obviamente, alheia a Guerra Colonial, tornou-se um dos textos mais marcantes da sua poesia cívica. Dez anos mais tarde, na madrugada de 25 de Abril, escreve “Esta é a madrugada que eu esperava”, celebrando um tempo de renovada esperança.

Criada numa família tradicional e profundamente católica, Sophia assumiu a essência da religião na prática dos princípios cristãos, recusando limitá-la a rituais formais. Defendia que a religião não condiciona o humano, “mas funda-o”.

Na sua obra poética encontramos uma percepção do mundo que valoriza o olhar atento, em consonância com a ideia aristotélica de que a visão é o sentido que mais nos permite conhecer. Sophia observava o mundo com intensidade, absorvendo tanto o seu encanto como as suas contradições.

A sua poesia reflecte um olhar límpido e atento aos males do mundo. Jorge Sampaio, aquando da sua morte, destacou na sua obra a “sabedoria e atenção ao universo e à sua claridade”, bem como o seu corajoso “combate pela liberdade”.

Plena de afecto, a sua poesia traduz-se numa linguagem que nos envolve profundamente, lembrando a simplicidade sensorial de Alberto Caeiro. E, em comunhão com esse olhar, Sophia escreve:

A minha vida é o mar o Abril a rua
O meu interior é uma atenção voltada para fora
O meu viver escuta
A frase que de coisa em coisa silabada
Grava no espaço e no tempo a sua escrita
Não trago Deus em mim mas no mundo o procuro
Sabendo que o real o mostrará
Não tenho explicações
Olho e confronto
E por método é nu meu pensamento
A terra o sol o vento o mar
São minha biografia e são o meu rosto
Por isso não me peçam cartão de identidade
Pois nenhum outro senão o mundo tenho

A poesia é, de resto, a pele existencial de Sophia. Em 1940 publica os seus primeiros versos nos “Cadernos de Poesia” e, a partir de 1944, a literatura torna-se parte fundamental da sua existência.

A tradição mediterrânica, a cultura grega, a luz, o mar, o amor e o trágico eram os temas predilectos de Sophia. “O verdadeiro artista não inventa, vê”, afirmou numa das muitas entrevistas que deu, explicando que o artista “consegue apreender na natureza, nos elementos, o elo primordial que une o Homem ao Universo”.

Detentora de uma cultura extraordinária e com profunda ligação à cultura clássica grega, Sophia de Mello Breyner conciliou a sua obra poética com outras vertentes da literatura, tendo sido autora de diversos contos, artigos, ensaios e peças teatrais, além de ter traduzido para o português as obras do dramaturgo grego Eurípides (484–406 a. C.), de Shakespeare, Dante e Claudel. Preparou e traduziu para o francês uma antologia da poesia portuguesa intitulada “Quatre poètes portugais”, onde incluiu poemas de Camões, Cesário Verde, Mário de Sá-Carneiro e Fernando Pessoa.

A especialista em literatura portuguesa e mestre em Filosofia, Rosely de Fátima Silva, defende que Sophia “é a poeta do phainómenon, seguindo a bela etimologia grega: pháos : luz, luz solar, luz da vida; phainô: dar luz, manifestar, assinalar”. E acrescenta: “Mas a fleuma grega antiga de Sophia é fortemente tocada pela melancolia moderna (…) Há uma suave disciplina da escuta do mundo e do olhar que proporcionam a constituição de uma poética diferente, a qual remete aos ecos de uma poesia imemorial, atemporal, presente em todas as coisas, ou seja, o fazer poético como sopro vital, como respiração e, também, o fazer poético como inserção na história e acção política”.

Em 1946, casa-se com Francisco Sousa Tavares, com quem terá cinco filhos, que influenciarão profundamente a sua escrita para a infância.

Tal como outras figuras pioneiras da literatura infantil, como Ana de Castro Osório, sobre a qual escrevemos no último número, Sophia revela um cuidado rigoroso na escrita e uma forte dimensão humanista. Ler as suas histórias é entrar num mundo de encantamento e ternura, capaz de transformar quem lê.

O culto pela arte e tradição próprias da civilização grega eram caros a Sophia, tal como a ligação que sentia com a poesia de Fernando Pessoa e seus heterónimos. Há autores que sublinham exactamente esta característica na obra de Sophia de Mello Breyner Andresen, considerando que ambos comungavam de uma proximidade conceptual com Platão no apelo ao infinito e na memória de infância. A figura de Pessoa encontra-se, aliás, evocada múltiplas vezes nos poemas de Sophia.

Em “Arte Poética III”, a poeta diz:

Faz da tua vida em frente à luz
Um lúcido terraço exacto e branco,
Docemente cortado pelo rio das noites.

No que é entendido como um poema de inspiração (ou diálogo) com o universo de Ricardo Reis, encontramos uma apropriação estética e ética muito clara, porque ambos recusam o excesso e defendem uma vida equilibrada e consciente, e essa é a síntese da vida de Sophia de Mello Breyner Andresen. Alguém que viveu por inteiro e que se encontra em cada poema, em cada frase e conto escritos.

Sophia de Mello Breyner Andresen foi merecidamente homenageada em vida, tendo recebido, entre outros, o Prémio de Poesia da Sociedade Portuguesa de Escritores pela obra “Livro Sexto”, em 1962; o Grande Prémio Calouste Gulbenkian de Literatura para Crianças, em 1992; o Prémio “Vida Literária” da Associação Portuguesa de Escritores, em 1994; a Placa de Honra do Prémio Petrarca, da Associação de Editores Italianos, em 1995; o título Honoris Causa, em 1998, pela Universidade de Aveiro; o Prémio Camões, em 1999; o Prémio de Poesia Max Jacob (2001); e o Prémio Rainha Sofia de Poesia Ibero-Americana, em 2003.

Desde 2005, os seus poemas foram colocados em exposição permanente no Oceanário de Lisboa.

Porém, a melhor forma de homenagear um poeta e autor é respeitarmos a língua em que as obras se escreveram, cuidar da forma como pensamos e aprimorar a nossa comunicação. E é, sobretudo, ler. Ler muito. Porque só com a leitura as palavras germinam e o pensamento evolui. Ler os nossos poetas e os nossos escritores é manter a sua obra viva, é respeitá-los e agradecer a imensa dádiva que deles recebemos.

E Sophia de Mello Breyner Andresen é mesmo para ser lida e a ela regressarmos muitas vezes, porque, tal como Eduardo Lourenço reconheceu, nela encontramos “uma das vozes mais extraordinárias da poesia portuguesa do século”, alguém que soube construir uma “obra já fora do tempo, no coração do tempo”.

Paula Timóteo

Paula Timóteo

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