Encontra-se patente no emblemático espaço da Cordoaria Nacional em Belém mais uma edição da LAAF, Lisbon Art & Antiques Fair 2026, até ao próximo dia 17 de Maio. Na LAAF, considerada a principal feira portuguesa dedicada às artes e antiguidades e organizada pela Associação Portuguesa dos Antiquários, podemos encontrar mais de 30 antiquários e galeristas que juntam o conhecimento com a paixão pela arte que cada obra revela. Entre os expositores destaque para Ricardo Hogan, que faz parte da comissão organizadora e que há muito é considerado uma referência no universo do antiquariato nacional. Com um trabalho notável de investigação, autenticação, estudo sobre origem e preservação de peças muitas vezes raras ou historicamente relevantes, apresenta no seu stand peças de arte sacra, com destaque para o retábulo com cenas da Paixão do século XVII além de expor obras de Amaro della Quercia, nosso entrevistado no número de Dezembro passado. A presença das obras de Quercia não é de estranhar como à primeira vista poderia parecer se considerarmos que o seu trabalho espelha simbolismos e narrativas de significativa carga espiritual que, de algum modo, o aproxima à iconografia das obras tradicionalmente valorizadas por Hogan. Uma correlação que podemos encontrar até na perturbação emotiva que encontramos tanto em desenhos de Amaro, como é o caso do Fauno exposto no stand, como no repertório imagético sacro.
Outro dos nomes relevantes que marca presença no evento é Miguel Arruda, um nome reconhecido no meio e fundador de uma galeria que já conta com 40 anos de existência. Nesta feira o relevo vai para uma poltrona “Seagull” e respectiva otomana projectada por Berg & Eriksson por volta de 1960 além de um par de castiçais de altar do século XVII. A Galeria São Mamede, especialmente reconhecida como galeria de arte contemporânea, tem naturalmente o seu espaço de relevo realçando-se obras de Manuel Cargaleiro. Quem não poderia faltar nesta iniciativa é, naturalmente, São Roque Antiguidades, um dos mais prestigiados antiquários portugueses, reconhecido internacionalmente.
Para os amantes da joalharia com valor histórico, em especial pelas jóias vintage, o espaço de Alexandra Matias Jewelry é de demorada visita. Gemóloga e avaliadora oficial credenciada pela Casa da Moeda, Alexandra Matias assegura um rigor técnico na autenticação de peças particularmente importante num mercado onde estes aspectos são verdadeiramente essenciais. No espaço de Alexandra Matias não se expõem apenas peças de luxo, conta-se a história de cada uma valorizando não apenas o seu valor material, mas também o seu percurso, design e contexto cultural.
Nesta que já é a 23.ª edição da LAAF, os visitantes encontram peças que atravessaram o milagre absoluto do tempo longo mas têm a experiência de assistir a um diálogo interessante e pleno de significado entre o antigo e a contemporaneidade porque na Cordoaria Nacional a beleza exibe-se até ao próximo dia 17 em múltiplas versões e discursos estéticos colados aos diferentes tempos históricos que os inspirou. Pintura, escultura, mobiliário, joalharia, pratas, artes decorativas, arte sacra e profana, de tudo se faz um todo que nos convida não apenas à contemplação, mas à possibilidade de enriquecer uma colecção já iniciada ou dar o primeiro passo para a aventura do coleccionismo.
A relação que se estabelece com um objecto, seja ele uma pintura, uma escultura, uma peça de mobiliário, um azulejo ou uma jóia é uma experiência íntima, evolutiva e única. Como refere Joana Sousa Monteiro, directora do Museu de Lisboa, no texto que escreve para o catálogo da feira, “Não raras vezes atribuímos sentidos diferentes a uma mesma realidade em resultado de novos conhecimentos, de mudanças de gosto ou da descoberta de outras perspetivas passíveis de alterar a nossa visão do mundo e, com ela, a dos objetos”. Desta forma e de acordo com Joana Monteiro, o conhecimento sobre uma determinada obra conduzirá inevitavelmente a uma compreensão mais aprofundada que influenciará o nosso olhar e conexão emocional e, naturalmente, a fruição estética que se estabelece entre o possuidor/observador e a obra sairá fortalecida. “Se a estranheza pode criar barreiras ao entendimento e ao espaço de liberdade onde a possibilidade do espanto e da fruição se desenvolvem, os museus e antiquários abrem caminhos de comunicação e escuta em favor de novas ligações e novos sentidos” (Joana Monteiro). Ora é precisamente a possibilidade de partilha de conhecimento, única possibilidade de aprofundar o vínculo com o objecto de arte, que museus, antiquários e galeristas promovem. Muito mais do que comerciantes, são, por norma, investigadores, mediadores culturais e guardiões de conhecimento especializado que têm tido uma importância decisiva na salvaguarda de inúmeras peças que poderiam ter desaparecido, sido destruídas ou perdido a sua contextualização histórica.
Importa realçar um dos aspectos distintivos da LAAF que é o rigor da sua curadoria: antes da abertura da feira, as peças são avaliadas por uma comissão de peritos para garantir autenticidade, qualidade e proveniência. Isto faz com que a feira seja vista como uma referência no mercado de arte e antiguidades em Portugal.
Por último, duas notas críticas. A música ouvida no dia da abertura inundando todo o espaço não nos parece que se enquadre no contexto. Aliás, além de um ambiente de discoteca não conseguimos encontrar outra opção para uma escolha musical de gosto francamente discutível.
Fica ainda uma pergunta que não resistimos colocar principalmente quando estamos no mês em que se comemora o Dia Mundial da Língua Portuguesa: por que razão o nome do evento se apresenta em inglês? É um evento português, realizado em Portugal com antiquários portugueses. Porquê LAAF, Lisbon Art & Antiques Fair e não FAAL Feira de Arte e Antiguidades de Lisboa?
Paula Timóteo

