Imaginemos, por instantes, que um dia saímos de casa e somos surpreendidos com uma sensação invulgar a pairar no ar. As pessoas com quem nos cruzamos sorriem sem esforço nem obrigação social, olham-nos com genuíno interesse e cumprimentam com alegria e vontade de ali ficarem mais um pouco. Os carros circulam lentamente, temendo perturbar a vida, as buzinas emudeceram e foram abolidos os arranques apressados. À medida que avançamos no nosso caminho, percebemos ainda outro fenómeno curioso: a rua não está silenciosa, mas o que se ouve é muito diferente do roncar da cidade quando desperta. Rapidamente confirmamos o que nos tinha parecido, mas nos custara a acreditar.
É música o que ouvimos!
Definitivamente há mesmo música em todo o lado. E música de cores bem diferentes. À medida que caminhamos, o ar que respiramos vem ao nosso encontro em passo de dança e enche-nos de adágios e alegretos, de acordes de rock e improvisos jazzísticos, de batidas pop, lamentos em blues ou de saudade dedilhada em fado. Estilos diferentes marcam a rotina de largos e jardins, passeios e recantos e por todo o lado há gente que dança, gente que canta, gente que toca instrumentos de sopro, cordas ou percussão, profissionais ou amadores, não importa. E há gente que simplesmente pára e por ali fica num tempo suspenso de si próprio, também ele cativo numa bolha de prazer imenso que só a música é capaz de oferecer.
Este é o cenário que certamente Maurice Fleuret sonhou quando idealizou e concretizou a Fête de La Musique, um festival de música anual que acabaria por dar origem ao Dia Europeu da Música. Todos os anos, a 21 de junho, a música sai das salas fechadas e ocupa o espaço público convidando todos para uma festa que faz esquecer as sombras dos dias e revela a todos que há um sol a aguardar-nos em cada dia. E todos os anos, com nuances diferenciadas, o sonho de um homem e de alguma forma o cenário idílico que traçámos aqui, acontece um pouco por toda a Europa.
Maurice Fleuret (1932–1990), formado em música contemporânea, foi crítico, editor e um defensor acérrimo das tendências musicais inovadoras. Fleuret acreditava numa visão aberta e inclusiva da criação artística e destacou-se na esfera da política cultural quando, no início dos anos 1980, assumiu responsabilidades no Ministério da Cultura francês, sob a liderança de Jack Lang, nas áreas da música e da dança. É neste contexto que ajudou a concretizar a Fête de la Musique, em 1982. O seu diagnóstico era claro: “a música está em todo o lado, mas raramente tem um espaço visível”. Dando consequência concreta à sua visão, defendeu um projecto pioneiro que ainda hoje continua a permitir, pelo menos uma vez por ano, um alargamento a espaços improváveis e informais da experiência musical.
Para o musicólogo português Mário Vieira de Carvalho, a música deve ser entendida como fenómeno social e espaço de partilha e esta é uma ideia que se compatibiliza em absoluto com o conceito subjacente às celebrações do Dia Europeu da Música.
Fleuret acreditava que a cultura não deveria ser elitista e por isso contribuiu para aproximar a música do quotidiano das pessoas. A ideia tinha tanto de simples como de bela e poderosa: qualquer pessoa deve poder tocar, ouvir ou simplesmente deixar-se envolver pelos sons que ecoam pelas cidades. Essa ideia ajudou a transformar a Fête de la Musique num fenómeno internacional, hoje celebrado em dezenas de países. Apesar de a celebração se concretizar de diferentes formas, a homenagem à música está presente em todos os eventos. A Festa da Música celebra o Dia Europeu e por isso o convite é dirigido a todos sem excepção para que participem quer como ouvintes quer como músicos, independentemente das suas preferências porque do clássico ao rock, do jazz à música pop ou electrónica, há neste dia espaço para todos. Mais do que um evento, é a apoteose da música, um encontro de sonoridades e emoções partilhadas que une gente e relembra à humanidade o que de humanismo há nela.
Em França, o Dia Europeu da Música é vivido com uma intensidade e coerência que o distingue do resto da Europa. A celebração tem origem, como já referimos, na Fête de la Musique, criada em 1982, e mantém até hoje o seu espírito original: no dia 21 de junho, cidades e vilas transformam-se em verdadeiros palcos a céu aberto. Ruas, praças, varandas e até estações de metro enchem-se de música, com milhares de músicos, profissionais e amadores, a actuar gratuitamente. Todos os eventos recebem uma forte adesão popular e institucional, tornando-os simultaneamente espontâneos e amplamente organizados.
Em França, a ideia de que “a música está em todo o lado” concretiza-se de forma muito visível. Não se trata apenas de assistir a concertos, mas de participar activamente porque qualquer pessoa pode sair à rua e tocar. Este envolvimento massivo cria uma atmosfera única, quase festiva, onde diferentes estilos convivem lado a lado com a música a assumir-se como um elemento central da vida urbana por um dia.
No resto da Europa, embora o Dia Europeu da Música seja amplamente celebrado, a abordagem tende a ser mais variada e, muitas vezes, menos uniforme. Em países como Portugal ou Espanha, por exemplo, as comemorações são geralmente mais descentralizadas e dependem de iniciativas locais, com concertos organizados por municípios ou entidades culturais, mas sem a mesma ocupação massiva do espaço público. Já em cidades como Berlim ou Bruxelas, existem programações estruturadas e festivais associados, embora, ainda assim, menos espontâneos do que no modelo francês.
Desta forma, enquanto que em França a celebração mantém um carácter quase “popular e universal”, fortemente enraizado na cultura do país, no resto da Europa ela assume formas mais híbridas, entre o institucional e o informal. Apesar dessas diferenças, o objectivo comum permanece: celebrar a música como uma linguagem acessível a todos, capaz de ocupar o espaço público e aproximar pessoas.
Em Portugal, o Dia Europeu da Música assume uma forma mais dispersa, feita de iniciativas locais e encontros espontâneos. Apesar das diferenças, mantém-se fiel à ideia de que a música deve ser vivida em comunidade. Nesse sentido, o pensamento de Mário Vieira de Carvalho ajuda a enquadrar esta celebração: a música não existe isolada, mas como prática social, profundamente ligada ao contexto em que surge. Ao ocupar o espaço público e aproximar pessoas, este dia torna visível essa dimensão colectiva, transformando a cidade num lugar de escuta e partilha. Ao contrário de outros países onde a iniciativa assume um formato mais uniforme, por cá a música espalha-se por diferentes espaços de praças e jardins a museus e pequenas salas culturais criando uma espécie de mapa sonoro urbano, feito de encontros inesperados e concertos gratuitos. Em cidades como Lisboa, é comum encontrar actuações em bairros históricos, iniciativas promovidas por juntas de freguesia e eventos organizados por associações culturais, onde convivem músicos amadores e profissionais.
Esta forma de celebração privilegia a proximidade e a diversidade. Não há um único palco nem um programa centralizado: há, antes, múltiplas vozes e estilos que coexistem do fado ao jazz, da música electrónica ao rock. O espírito herdado da Fête de la Musique mantém-se, mas adaptado a uma realidade mais informal, onde o essencial é garantir que a música chegue a todos, sem barreiras.
Em 2026, porém, esta celebração cruza-se com um dos maiores eventos musicais do país, o Rock in Rio Lisboa, que decorre na mesma altura. Esta coincidência poderá influenciar o ambiente musical da cidade de forma particular. Por um lado, Lisboa estará ainda mais marcada pela presença da música, com um aumento significativo de público e artistas. Por outro, a dimensão mediática do festival poderá ofuscar as iniciativas mais pequenas, que tradicionalmente dão corpo ao Dia Europeu da Música.
Para além deste evento há a assinalar que o canal Arte/ZDE realizará uma maratona que percorrerá numa emissão contínua entre as 14h e as 22h oito países e 10 orquestras. Lisboa será uma das cidades ouvidas na longa emissão de onde se fará a transmissão em direto e em simultâneo com a RTP2 do espetáculo que a Orquestra Gulbenkian irá oferecer ao mundo a partir dos jardins de Belém para onde todos estão convidados. Sob a direção do maestro Hannu Lintu e com a participação do pianista Bruce Liu poderemos ouvir o Concerto para Piano e Orquestra n.º 1 de Tchaikovsky e ainda Finlândia, de Jean Sibelius, Scherzo fantastique, de Luís de Freitas Branco, e Capriccio espagnol, de Nikolai Rimsky-Korsakov.
Será interessante assistir ao encontro entre eventos de dimensões distintas. Enquanto os grandes palcos irão concentrar multidões e os jardins acolherão gente de mãos dadas entre a Natureza e a música, os espaços mais intimistas poderão continuar a oferecer experiências próximas e inesperadas, garantindo a essência desta celebração: a ideia de que a música pode ser feita por todos, para todos e em qualquer lugar.
Lembremos Friedrich Nietzsche quando defendia que a vida seria um erro sem música até porque, como Bono afirmou “A música pode mudar o mundo porque pode mudar as pessoas.”
A arte salva de múltiplas formas. Resgata do abismo quem dele está próximo aponta caminhos, oferece o paraíso no deslumbramento dos sons, das palavras, das imagens. No caso da música, é através dela que se recuperam memórias, se consolidam afectos, se conquista a esperança e se alcançam as estrelas porque, tal como Arthur Schopenhauer um dia disse “A música exprime a mais alta filosofia numa linguagem que a razão não compreende” a razão não entende, mas a alma acolhe, acrescentamos nós.
Num mundo actual incerto, confuso e marcado nas rotinas dos dias pela sensação de um tempo demasiado veloz, o Dia Europeu da Música lembra-nos da importância de parar e escutar. Abandonarmo-nos à fruição dos sons e respirar devagar nos silêncios, reconhecer na simplicidade de uma canção ao ar livre uma ligação com os outros, um encontro com o sublime, eis o grande convite deste dia.
A música é a arte mais direta,
entra pelo ouvido e vai ao coração.
(Almada Negreiros)
Paula Timóteo

