Num número em que dedicamos espaço à música a propósito da celebração do seu Dia Europeu, justifica-se um espaço a quem fez da música a sua vida e em múltiplas vertentes. Optámos por dois nomes grandes da musicologia. Ernesto Vieira, um homem da 2ª metade do século XIX, um precursor da musicologia portuguesa e Fernando Lopes Graça, nascido no início do século XX, que além de notável compositor, maestro e pianista, desenvolveu um trabalho notável na recolha e harmonização da música tradicional portuguesa.
Ernesto Vieira nasceu em Lisboa no limiar de uma época marcada pelo progresso a que se convencionou chamar-se “Regeneração”. Estávamos em 1848 e o início de vida não terá sido propriamente um “mar de rosas”. Os fracos recursos da família obrigaram a um precoce abandono de escola para trabalhar na oficina de sedas da mãe. Apesar dessas circunstâncias que facilmente ditariam uma vida anónima de trabalho duro, Ernesto Vieira conseguiu desenvolver os seus conhecimentos como autodidata e aos 12 anos entrou na Escola de Música do Conservatório Nacional onde completou os cursos de flauta e harmonia, tendo estudado também oboé e piano. Acabaria por consolidar carreira como musicólogo, pedagogo e compositor e o seu contributo relevante fez dele uma das figuras decisivas na História musical portuguesa.
Instrumentista de mérito, era com regularidade que tocava com as principais orquestras de ópera e teatro de Lisboa actividade que conciliava com a de professor da Academia de Amadores de Música dedicando-se aí ao ensino da teoria musical. Como autor foi responsável por manuais de solfejo e teoria que se mantiveram em uso nos conservatórios e diversas escolas de música até finais dos anos 60 e reeditados incontáveis vezes até ao final do século XX.
Numa época em que a musicologia, enquanto área do saber, ainda se encontrava nos seus primórdios, Ernesto Vieira desbravou caminho destacando-se num percurso de vida que escolheu a música como protagonista quer dando-lhe voz e palco quer como objecto de estudo e preservação cultural.
Ernesto Vieira, que faleceria em 1915 na cidade que o viu nascer, viveu uma época marcada por transformações políticas, sociais e culturais de enorme impacto. Acompanhando o alegreto de inovadoras mudanças do tempo histórico que presenciou, Vieira assumiu também ele um papel vanguardista ao procurar sistematizar o conhecimento musical em Portugal. A sua formação e actividade como músico, crítico e investigador permitiram-lhe desenvolver e partilhar uma visão abrangente do panorama musical da época que viveu enriquecendo o património de conhecimento e desbravando caminho aos vindouros. Mais do que um simples observador, Ernesto Vieira foi um agente activo na construção de uma consciência crítica em torno da música, contribuindo para a valorização do património nacional.
A sua obra mais emblemática, o Diccionario Biographico de Musicos Portuguezes, foi publicada pela primeira vez em 1900 e conheceu posteriormente reedições em fac-símile, tendo se mantido acessível até aos dias de hoje. Trata-se de uma obra que permanece como um marco fundamental na historiografia musical portuguesa e representa um esforço notável de recolha, organização e divulgação de informação sobre compositores, intérpretes e outras figuras ligadas à música em Portugal. Num tempo em que o acesso a fontes era limitado e a documentação dispersa, Ernesto Vieira reuniu dados essenciais que permitiram proteger a memória de muitos músicos que, de outra forma, poderiam ter sido esquecidos.
Dez anos antes desta conhecida obra, Ernesto Vieira já havia publicado uma outra igualmente de referência: o seu Diccionário musical que representa um importante contributo para a fixação de uma terminologia técnico-musical portuguesa. Esta obra insere-se numa fase em que Ernesto Vieira procurava divulgar e organizar o conhecimento musical em Portugal constituindo uma referência indispensável para o estudo de qualquer período da música em Portugal desde o século XVI ao XIX.
Com um carácter distinto do Dicionário biográfico, o Diccionário musical visara objectivos técnicos e pedagógicos já que nele podem ser encontradas definições de termos musicais, explicações de conceitos teóricos e referências a práticas e formas musicais o que faz deste dicionário uma das primeiras tentativas de criar, em Portugal, uma obra de referência nesta área, representando um decisivo contributo para a formação de músicos, estudantes e público em geral que tenha interesse na área.
Em 1908 Ernesto Vieira lança a sua História da Música em Portugal, um projecto audaz que pretendeu dar a conhecer de uma forma metódica a evolução da música no país. Ao contrário do seu dicionário biográfico, centrado em figuras individuais, este último trabalho apresenta uma visão global e organizada dos diferentes períodos e influências da música portuguesa, reunindo informação até então dispersa. Reconhecido como um contributo pioneiro para a historiografia musical nacional, a obra ajudou a afirmar a música como parte essencial da identidade cultural portuguesa resgatando do esquecimento, devolvendo-lhes o destaque devido, os contributos e registos singulares que se encontram no ADN da música portuguesa. Para este ambicioso projecto de musicologia, Ernesto Vieira desenvolveu um trabalho precursor de consulta sistemática dos arquivos quer da Biblioteca Nacional, quer das bibliotecas de Évora e da Universidade de Coimbra, bem como dos acervos musicais das sés de Lisboa e Évora, ao mesmo tempo que reuniu uma extensa colecção pessoal de manuscritos e impressos musicais, práticos e teóricos, de autores portuguesas dos séc. XVIII e XIX, ora por compra ora por oferta dos familiares e discípulos dos próprios compositores, e que hoje é parte importante dos arquivos musicais da BN.
Vieira foi o primeiro dos musicólogos portugueses a ultrapassar a mera pesquisa histórica e biobibliográfica, articulando-a com a inventariação e a análise das fontes de música prática. Escreveu ainda vários artigos de divulgação teórica e histórico-musical para as revistas Gazeta Musical, Amphion, Gazeta Musical de Lisboa e Arte Musical, entre outras. O seu trabalho é reconhecido pelo rigor extremo na fundamentação documentada tornando-se uma referência informativa credível e por isso insubstituível para qualquer estudo da História da música em Portugal.
Se Ernesto Vieira se destacou pela sistematização e preservação da memória musical portuguesa, já no século XX Fernando Lopes-Graça assumiu um papel decisivo na sua renovação e afirmação cultural. Compositor, musicólogo e pensador, Lopes-Graça, nascido em Tomar em 1906[i], desenvolveu uma obra profundamente marcada pela relação entre música e identidade, recusando uma visão meramente académica ou decorativa da criação artística. Para ele, a música era um espaço de intervenção, capaz de reflectir e transformar a realidade social.
Aos 14 anos, começou a trabalhar como pianista no Cine-Teatro de Tomar, acompanhando sessões de cinema mudo. E era elem apesar de tão jovem, quem realizava os arranjos musicais das peças que interpretava, incluindo obras de Claude Debussy e de compositores russos contemporâneos. Em 1923 inicia estudos superiores na Escola de Música do Conservatório Nacional de Lisboa, destacando-se, entre outros professores, Tomás de Borba em Composição, Luís de Freitas Branco, em Ciências Musicais e Vianna da Motta que fora aluno de Liszt.
A vida de Fernando Lopes-Graça ficou profundamente marcada pela oposição ao Estado Novo. Em 1931, no próprio dia em que concluiu com a mais alta classificação as provas para professor do Conservatório Nacional, foi preso pela polícia política e posteriormente desterrado para Alpiarça. Em 1934 ganha uma bolsa para estudar música em Paris, mas é impedido pelo Estado de a aceitar até que em 1937 parte para a cidade da Luz por conta própria. Em França aprofundou os estudos de composição e orquestração com Charles Koechlin, regressando mais tarde a Portugal. O tempo em que viveu em Paris permitiu-lhe estabelecer contacto com as correntes modernas da música europeia. O conhecimento adquirido foi uma ferramenta essencial para que Lopes Graça desenvolvesse uma linguagem própria onde se reconhecem influências contemporâneas em osmose e diálogo profundo com a cultura portuguesa.
Lopes-Graça desenvolveu ao longo da sua vida uma intensa actividade cultural e cívica. Criou o coro ligado à Academia de Amadores de Música, através do qual divulgou as suas harmonizações de música tradicional e as suas Canções Heroicas, obras que se tornaram símbolos de resistência cultural. Apesar da censura e das proibições impostas pelo regime, incluindo a interdição da execução das suas obras por orquestras nacionais, conseguiu construir uma das mais importantes produções musicais portuguesas do século XX, destacando-se as obras corais inspiradas no folclore, os concertos para piano e violoncelo e a sua vasta criação para piano.
Uma das vertentes mais significativas do seu trabalho foi a recolha e harmonização da música tradicional portuguesa. Através das suas célebres Canções Regionais Portuguesas, procurou preservar o património oral, mas também reinterpretá-lo, integrando-o numa linguagem erudita contemporânea. Este gesto não foi neutro: implicou uma valorização consciente das expressões populares, frequentemente marginalizadas, e a sua elevação ao estatuto de património cultural digno de estudo e difusão. Assim, Lopes-Graça soube construir uma complexa ligação, plena de intrincados caminhos, entre tradição e modernidade, popular e erudito.
A sua visão da música estava intimamente ligada a uma ideia de liberdade cultural e responsabilidade social. Defendia que a arte não deveria estar desligada da realidade, mas antes contribuir para formar consciência crítica e ampliar o acesso à cultura.
Como musicólogo e ensaísta, reflectiu e escreveu profusamente sobre estética musical, educação artística e cultura portuguesa. Uma escrita que revela um pensamento rigoroso e comprometido, atento às condições em que a música é produzida e recebida A sua reflexão ajudou a consolidar a musicologia moderna em Portugal, associando o estudo da música a questões históricas, sociais e políticas.
O legado de Fernando Lopes-Graça ultrapassa, por isso, a dimensão puramente musical. A sua obra continua a ser vista como símbolo de independência intelectual, valorização da cultura popular e defesa de uma música acessível, crítica e profundamente humana porque para ele, a música não podia ser desligada da vida colectiva, nem reduzida a mero entretenimento: era, antes, uma forma de consciência e participação.
Deste modo, a figura de Fernando Lopes-Graça representa uma viragem na musicologia portuguesa. Se, até então, o esforço passava sobretudo pela recolha e organização do passado, com ele a música torna-se também um instrumento de intervenção no presente, capaz de questionar, mobilizar e criar novos sentidos.
É precisamente neste diálogo entre memória e transformação que se podem aproximar os percursos de Ernesto Vieira e Fernando Lopes-Graça. O primeiro lançou as bases do conhecimento sistemático da música em Portugal, preservando nomes, obras e referências essenciais; o segundo mobilizou esse legado no seu tempo, reinventando-o à luz de novas preocupações estéticas e sociais. Entre ambos reconhecemos uma linha de continuidade que ajuda a compreender a música não apenas como herança, mas como prática viva, uma ideia que encontra eco no espírito do Dia Europeu da Música, onde tradição e criação se cruzam no espaço público e na experiência partilhada.
[i] Apesar de surgir uma data diferente na Wikipédia a esmagadora maioria das instituições culturais e musicológicas portuguesas, incluindo o Centro de Investigação & Informação da Música Portuguesa e o Museu do Neo-Realismo, assume 17 de Dezembro de 1906 como data do nascimento de Lopes Graça
Paula Timóteo

