Desde o passado dia 30 de Abril e até ao próximo dia 13 de Setembro, podemos encontrar José Pedro Croft no MAC/CCB. Ou melhor, temos a oportunidade de encontrar os reflexos, enclaves e desvios da sua obra numa exposição que nos impele a uma experiência física do espaço.
Em amplas salas do piso 0, onde o silêncio se impõe porque o momento é de diálogo entre os elementos expostos, somos convidados a circular demoradamente entre gravuras e desenhos que envolvem, como moldura narrativa, um conjunto de estruturas que joga com os lados opostos da estabilidade e do desequilíbrio, do peso e da leveza, da presença física e da ilusão óptica, ocupando o eixo longitudinal do espaço expositivo.
José Pedro Croft, um dos mais reconhecidos artistas portugueses contemporâneos, nasceu no Porto há 69 anos, mas vive e trabalha em Lisboa desde jovem. Estudou Pintura na Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa, concluindo o curso em 1981, e colaborou nos primeiros anos com o escultor João Cutileiro, influência decisiva na sua formação artística.
Ao longo da sua vida, Croft contactou com diferentes contextos culturais, tanto em Portugal como no estrangeiro, participando em exposições internacionais e residências artísticas, experiências que contribuíram decisivamente para consolidar uma prática marcada pela relação entre escultura, desenho, arquitectura e percepção do espaço. Utilizando materiais como ferro, vidro e espelho, as suas peças exploram ideias de equilíbrio, reflexo e deslocamento, criando experiências visuais que desafiam o olhar do espectador entre o rigor formal e uma subtil instabilidade visual.
Ao longo do tempo, José Pedro Croft foi construindo um percurso artístico marcado por diferentes fases. Se nos anos 80 se focava sobretudo na escultura, trabalhando pedra, mármore e bronze, nos anos 90 a arquitectura conquistou progressivamente o seu interesse, em especial através dos conceitos de espaço e equilíbrio físico das formas. Surgem então estruturas geométricas, objectos quotidianos e relações entre vazio e volume. Mais recentemente, os espelhos assumiram protagonismo, tornando-se elementos fundamentais da sua linguagem visual.
Actualmente, é frequente encontrarmos nas obras de Croft o recurso ao vidro, ao metal e aos espelhos na criação de estruturas que desafiam a percepção óptica e produzem jogos de reflexo, fragmentação e instabilidade espacial, obrigando o espectador a participar fisicamente na experiência da obra. O envolvimento sensorial nasce precisamente do confronto entre estabilidade e desequilíbrio que estas estruturas sugerem. Muitas parecem existir numa posição precária, quase prestes a cair, criando uma sensação de fragilidade cuidadosamente calculada.
José Pedro Croft tornou-se, incontestavelmente, uma das figuras maiores da arte contemporânea portuguesa. Ao longo de mais de quatro décadas de carreira, desenvolveu uma obra marcada pela relação entre escultura, desenho, arquitectura e percepção do espaço. As suas peças exploram ideias de equilíbrio, reflexo e deslocamento, criando experiências visuais que suscitam interrogação, movimento e participação.
Além da prática artística, tem também desempenhado um papel relevante no ensino, contribuindo para a formação de novas gerações de artistas e reforçando a sua influência no panorama cultural português. O seu percurso distingue-se por uma investigação contínua sobre forma, espaço e percepção, elementos que continuam a definir a singularidade e a actualidade da sua obra.
A exposição Reflexos, Enclaves, Desvios, patente no MAC/CCB, reúne esculturas, gravuras, desenhos e relevos que “evidenciam essa investigação contínua sobre corpo, escala e tridimensionalidade” (CCB). Com curadoria de Luiz Camillo Osorio, a mostra propõe um percurso pela dimensão sensorial e arquitectónica da obra de Croft, revelando um trabalho rigoroso onde o espaço se transforma e nós com ele.
Mais do que uma retrospectiva linear, Reflexos, Enclaves, Desvios funciona como um território de circulação e suspensão. O visitante não observa apenas as obras: move-se entre elas, contorna estruturas, acompanha reflexos, tenta compreender os jogos visuais e entra no diálogo subtil entre transparência, matéria e vazio.
Num tempo marcado pela velocidade e pelo excesso de estímulo visual, a obra de José Pedro Croft continua a afirmar a importância da pausa, da escala e da percepção. Reflexos, Enclaves, Desvios confirma não apenas a assinatura do seu percurso artístico, mas também a actualidade de uma obra que transforma o espaço numa experiência simultaneamente sensorial e mental.
Paula Timóteo

