Carlos Paredes I O Mestre da Guitarra Portuguesa

Nesta edição de Julho damos destaque ao que de forma mais singular identifica a cultura portuguesa e que por motivos diferentes o mês juliano evoca. Se num artigo abordámos a História da calçada portuguesa, ícone visual que de forma tão imediata identifica Portugal, neste dedicamos a atenção a alguém que de forma singular se destacou com genialidade e paixão a um instrumento e estilo musical inequivocamente identificados com o nosso país.  Falamos de Carlos Paredes, mestre da guitarra portuguesa, cuja data de falecimento se evoca precisamente neste mês. Ícone incontestável da portugalidade, entendida como um caldo de tradição e cultura onde nos revemos e os outros, que não nós, nos encontram e identificam, a guitarra portuguesa conquistou a dimensão de prima donna pelas mãos e dedos geniais de Paredes. 

Carlos Paredes, um dos maiores compositores e guitarristas portugueses de sempre, amplamente considerado o “mestre” ou o “virtuoso” da guitarra portuguesa, nasceu em Coimbra em 1925 num contexto familiar marcado pela ligação à música. O seu avô, Gonçalo Paredes, fora um guitarrista de renome e o seu pai, Artur Paredes, notabilizara-se como mestre da guitarra de Coimbra tendo revolucionado o desenho e a sonoridade do instrumento. 

Desta forma, é fácil de perceber que Carlos Paredes tenha começado a aprender guitarra, muito cedo, logo aos quatro anos. Para além da guitarra, Paredes haveria ainda de estudar violino e piano, o que contribuiu para a riqueza da sua linguagem musical. 

Aos 10 anos, Carlos e a família mudam-se para Lisboa, mas Coimbra e a sua sonoridade nunca saíram da alma daquele que ficaria também conhecido como “O homem dos mil dedos”. A tradição da guitarra de Coimbra fundiu-se com uma linguagem inovadora, lírica e profundamente expressiva que lhe saía das mãos quando abraçava a guitarra portuguesa como mais ninguém o fizera nem voltaria a fazer. Paredes haveria de dizer que quando morresse também a sua guitarra morreria porque, afirmava ele, “A guitarra é um instrumento que se deita contra o peito e com o qual se estabelece uma relação física imediata.” 

Com Carlos Paredes a guitarra ascendeu ao papel de protagonista dado que conquistou o reconhecimento como instrumento solista, instrumento estrela que abandona uma mera função de acompanhante do fado, como até então o fizera, e é capaz de sustentar sozinho uma obra completa. 

Carlos Paredes tornar-se-ia num dos principais símbolos da música nacional na segunda metade do século XX não apenas como exímio executante, mas pelas composições que fará porque não se conformava com o tom piegas das peças até então existentes. Para Carlos Paredes a guitarra merecia outras vozes, outra gramática, outro papel e é isso que ele oferece retirando da guitarra sons mais violentos, mais intensos e poderosos do que até então era comum ouvir-se.

A inovadora forma de abordar o instrumento, quer na execução instrumental quer nas obras que compôs, nas quais são desenvolvidos temas, contrastes e clímax de forma semelhante a uma narrativa, tornou-se num caso único. Carlos irá compor bandas sonoras para filmes como “Verdes Anos”, de Pedro Rocha e onde a melodia principal possui a genialidade de parecer simples apesar de se estruturar em subtis variações rítmicas e expressivas com uma enorme profundidade emocional, “As pinturas do meu irmão Júlio”, de Manoel de Oliveira, “A cidade”, de José Fonseca e Costa e “P.X.O”, de Pierre Kast. Em 1967, gravou o seu álbum de estreia, “Guitarra Portuguesa”, com Fernando Alvim na guitarra clássica, considerado fundamental na definição da identidade sonora de Carlos Paredes, seguido de “Variações em Ré Menor”, “Movimento Perpétuo” ,em 1971 que consolidou o seu génio criativo e que ilustra perfeitamente uma das características distintivas da sua obra: a sensação permanente de movimento. Em Movimento Perpétuo, sentimos uma energia contínua através de padrões repetitivos e progressões melódicas rápidas que faz desta obra um ícone decisivo da carreira de Carlos Paredes.

Paredes destacou-se também com participações no teatro compondo várias peças musicais. Além das suas obras editadas lembremos as colaborações que teve e que demonstram o ecletismo da sua área de influência. Paredes quebrou barreiras de géneros musicais, colaborando com artistas de áreas muito diferentes, como o cantor de intervenção Zeca Afonso, o fadista Carlos do Carmo e até o quarteto de jazz americano do contrabaixista Charlie Haden. Com Paredes a voz daquele que é o instrumento musical mais português de sempre, subiria aos palcos do mundo, mas com uma candura e simplicidade que contrastavam com a dimensão épica do que se ouvia muito graças à sua técnica. O seu virtuosismo nunca se manifestou como exibicionismo gratuito, mas antes era colocado ao serviço da expressão musical que Carlos ambicionava. E Paredes possuía uma técnica extraordinária. Era capaz de executar passagens muito rápidas, arpejos complexos e mudanças repentinas de dinâmica com tremolos delicados e expressivos, escalas rápidas executadas com grande clareza, contrastes súbitos entre intensidade e suavidade, utilização simultânea de linhas melódicas e acompanhamento. E tudo resultava numa fluidez natural, mesmo quando a execução era extremamente complexa. Apesar de ser aplaudido nos maiores palcos, da Europa aos Estados Unidos e ao Japão, Carlos Paredes manteve sempre uma postura de extrema humildade. Recusava muitas vezes o estatuto de “artista”, dizendo que era apenas um amador que gostava de tocar. 

A música de Carlos Paredes é difícil de encaixar numa única categoria. É certo que se encontra profundamente enraizada na tradição da guitarra portuguesa de Coimbra, como já referimos, mas o seu estilo aproxima-se, por vezes, da música erudita, e até do jazz e da música contemporânea. Algumas peças funcionam quase como pequenas suítes ou poemas sinfónicos para guitarra o que leva a que muitos musicólogos considerem a sua obra uma ponte entre a tradição popular portuguesa e a música erudita.

Alheios a rótulos e compartimentações académicas, quando ouvimos a guitarra portuguesa pelas mãos de Paredes, reconhecemos nela uma voz que nos fala e canta através de melodias que contam histórias sem palavras. Melodias que possuem uma qualidade vocal surpreendente evocando imagens, ambientes e emoções que são o ADN da identidade portuguesa. Ouvir Paredes é sermos tomados por uma exaltação melancólica, fundirmo-nos com a sua música e evadirmo-nos com ela para outra dimensão. 

Por isso, a sua obra continua a ser estudada não apenas como património do fado ou da guitarra portuguesa, mas como uma das expressões musicais mais originais produzidas em Portugal no século XX e definidora da identidade musical portuguesa contemporânea. 

Paredes construiu uma relação apaixonada com a música onde o conceito de liberdade, que lhe era tão caro, era de tal forma inquestionável que não queria depender financeiramente da arte para a ela se entregar sem dramas de sobrevivência e apenas com a entrega despreocupada de um criador. Afirmava que gostava demasiado da música para viver exclusivamente dela e por isso trabalhou grande parte da sua vida como funcionário do Hospital de São José, em Lisboa, ao mesmo tempo que mantinha uma intensa atividade musical. 

Por detrás daquele homem de olhar gentil que nos interrogava, de presença silenciosa porque a voz pertencia à guitarra, estava um ser humano que entendia a sua presença no mundo também numa perspectiva de acção política. Assumindo-se como opositor à ditadura do Estado Novo, foi preso pela PIDE em 1958 e passou 18 meses na prisão de Caxias. Durante esse tempo, para não enlouquecer e manter a agilidade dos dedos, “tocava” guitarra mentalmente e simulava os movimentos nos braços das cadeiras ou nas suas próprias pernas.

Em 1993, foi-lhe diagnosticada uma doença do foro neurológico que o impediu de voltar a tocar o seu instrumento nos últimos 11 anos de vida. Faleceu a 23 de julho de 2004, em Lisboa, aos 79 anos.

Carlos Paredes não foi apenas um músico extraordinário; tornou-se um símbolo da própria identidade e da alma poética portuguesa. A originalidade da obra associada a uma interpretação avassaladora, tornou Carlos Paredes num mestre categórico da guitarra portuguesa, um génio prodigioso que deixou um legado que se perpetuará inconfundível no longo tempo da humanidade.

Pequena História da guitarra portuguesa

Falar de Carlos Paredes sem deixar aqui um breve apontamento dedicado ao instrumento a que ele dedicou apaixonadamente parte da sua vida, seria deixar o texto sem metade de si próprio, lacunar de significado e Carlos Paredes, dificilmente nos perdoaria. 

Falar de guitarra portuguesa implica distingui-la da guitarra clássica, frequentemente designada entre nós por viola. Não deve, porém, confundir-se este instrumento com a viola de arco, pertencente à família dos instrumentos de corda friccionada. 

A guitarra portuguesa tem origens, trajecto, características e sonoridade bem distintas da clássica. A sua existência resulta de uma viagem fascinante que cruza influências de vários cantos do mundo até se fixar na própria alma da cultura lusitana tornando-se num símbolo nacional.

É preciso recuarmos ao Renascimento para encontrarmos um seu antepassado: o cistre, também conhecido por cítara europeia, um instrumento de cordas muito popular em toda a Europa Ocidental durante este período. Será já na 2ª metade do século XVIII que a comunidade inglesa nos dá a conhecer a ”guitarra inglesa”. Apresentava uma caixa de ressonância em forma de pera e afinação própria e passou a fazer-se ouvir nos salões da abastada burguesia e aristocracia portuguesas.

Ao longo do século XIX, os construtores de instrumentos (luthiers) portugueses irão introduzir alterações na guitarra inglesa como a famosa voluta, a cabeça em forma de caracol, alteração das proporções da caixa de ressonância, novas afinações, ajustamento da tensão e diferente disposição das cordas. Gradualmente, o instrumento deixou de ser uma simples guitarra inglesa importada e passou a constituir uma tradição própria: a guitarra portuguesa que irá conhecer duas “escolas” com modelos diferentes e intimamente ligados a duas cidades: Lisboa e Coimbra. 

Foi igualmente no século XIX que os estudantes universitários e músicos levaram o instrumento para Coimbra onde já havia uma forte tradição musical ligada à universidade e às serenatas. Será na cidade dos estudantes que o instrumento começou a evoluir numa direção diferente da que se assistia em Lisboa na procura de uma maior profundidade sonora e um carácter mais lírico e contemplativo. O contexto em que as duas guitarras  surgem e cumprem a sua tradição também difere. Em meados do século XIX a guitarra portuguesa saiu dos salões da burguesia e desceu à vida mundana da cidade juntando-se à voz dos fadistas e por isso em Lisboa surge com o seu temperamento mais castiço nas ruas e tabernas dos bairros históricos como a Alfama e a Mouraria. Já a da cidade dos estudantes ilumina as noites de serenatas e canta a vida universitária da capa e batina.  

Apesar de parecer ser consensual situar a separação em meados do século XIX, a sua consolidação dá-se sobretudo entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX. Para tal contribuiu a existência de luthiers especialistas na guitarra de Lisboa e luthiers que se especializam na de Coimbra. Guitarras aparentadas, mas com sonoridades diferentes e personalidades distintas exigem e pedem repertórios também eles próprios e técnicas de execução próprias.

As diferenças entre as duas guitarras podem passar despercebidas aos mais distraídos, mas são visíveis e audíveis. A guitarra de Lisboa apresenta um corpo (caixa de ressonância) mais estreito que a de Coimbra, as suas cordas são mais finas e com maior tensão e apresenta uma voluta em forma de caracol, como referimos, enquanto a de Coimbra tem-na no formato de lágrima ou escudo diferenciando-se ainda da de Lisboa por apresentar uma caixa maior e mais profunda, o que lhe dá um som mais encorpado além de usar cordas mais grossas o que obviamente tem impacto na sonoridade. Aliás, há quem considere que Carlos Paredes herdou da escola de Coimbra a sonoridade mais grave e introspectiva, o fraseado livre e contemplativo e a forte componente poética.

Curiosamente o pai de Carlos Paredes teve um papel fulcral nesta evolução. Entre as décadas de 1920 e 1940, Artur Paredes revolucionou a guitarra de Coimbra: Introduziu alterações de construção; trabalhou com especialistas para aumentar a projeção sonora; desenvolveu novas técnicas de execução e expandiu o papel solista da guitarra. Muitos historiadores consideram que a guitarra de Coimbra moderna nasce efetivamente com ele.

Com Carlos Paredes, a guitarra de Coimbra tornou-se plenamente autónoma como instrumento de concerto deixando de estar apenas associada à serenata e ao acompanhamento vocal no canto estudantil.  

Concluindo a evolução da guitarra portuguesa visitada nestas poucas linhas podemos então dizer que se considera que a sua antepassada mais directa foi a guitarra inglesa (XVIII) que se foi transformando na guitarra portuguesa primitiva de Lisboa. Por volta de meados do século XIX inicia-se a cisão entre a escola de Lisboa e a de Coimbra com a posterior modernização executada por Artur Paredes cabendo a Carlos Paredes a consagração internacional.

Curiosamente, ainda hoje um conhecedor consegue normalmente distinguir em poucos segundos uma guitarra de Lisboa de uma de Coimbra apenas pelo timbre já que a lisboeta tende a ser mais brilhante e incisiva enquanto que a coimbrã se apresenta mais profunda, ampla e cantabile.

Hoje, a silhueta da guitarra portuguesa (especialmente a de Lisboa, com o caracol) é reconhecida internacionalmente como um ícone de Portugal, tal como a calçada portuguesa, a azulejaria, Camões e Pessoa. Ela representa a portugalidade de um país virado para o mar, com uma história de partidas e regressos, cuja dor e alegria se transformam em arte.

Paula Timóteo

Paula Timóteo

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *