Educação I Andamos a criar baratas tontas?

Quando eu era criança ouvia muitas vezes a minha mãe chamar-me e à minha irmã, entre suspiros e meneares de cabeça, de “baratas tontas”. E tudo era dito e feito num registo onde se tricotava um ralhete em malha de carinho. Acontecia quando nos baralhávamos com alguma tarefa ou nos esquecíamos de um recado. “Parecem umas baratas tontas” repetia ela esforçando-se por mostrar uma irritação muito maior do que a que deveras sentia.

Em Abril deste ano, Eduardo Sá afirmou que as crianças actualmente demonstram um nível de atenção semelhante ao dos peixinhos vermelhos e estão a ser educadas para serem baratas tontas na forma como pensam.

Eduardo Sá não é a minha mãe, nem é um anónimo cidadão sem especialização na área nem sequer um homem de 100 anos que facilmente seria rotulado de retrógrado. Como certamente grande parte das pessoas sabe, Eduardo Sá é psicólogo clínico e psicanalista actividade que consegue conciliar com a de professor na Universidade de Coimbra e no ISPA, em Lisboa. É conhecido do grande público especialmente pelos artigos e livros científicos que já escreveu no âmbito da saúde familiar e da educação parental. Em Abril deste ano foi um dos oradores no Education Summit onde aproveitou para brilhantemente partilhar uma reflexão oportuna e em simultâneo perturbadora sobre a forma como as crianças e os jovens se relacionam com o mundo digital. 

Uma intervenção que vem no seguimento de outros alertas sustentados em estudos que confirmam o que empiricamente qualquer um com o mínimo de poder de observação crítica já intuíra. A preocupação de Eduardo Sá perante as 2h30 diárias de scroll que cada criança (e adulto) em média cumpre, obrigando o cérebro a processar entre 4500 a 9000 conteúdos por dia (o número depende, obviamente, de quantos segundos cada conteúdo demora) devia provocar um sobressalto colectivo e ser motivo mais que suficiente para se engavetarem tablets e telemóveis. Devolver as crianças ao jogo físico, às artes, ao desporto, às brincadeiras de rua, à descoberta dos livros, à invenção de histórias…é um imperativo moral e dele dependerá o futuro. Andamos a permitir que o cérebro das crianças se consuma esterilmente numa overdose digital esticando a resistência cerebral a limites insanos e depois surpreendemo-nos com os défices de atenção e hiperactividade recorrendo aos médicos e aos medicamentos milagrosos sobre cujos efeitos a médio e longo prazo, e apesar de décadas de utilização, não há grandes certezas e multiplicam-se as dúvidas.

Para já, fomos surpreendidos por Eduardo Sá ao partilhar as conclusões de um estudo feito pela Google que revelou que as crianças têm uma capacidade de atenção semelhante à dos peixinhos vermelhos. 

Exactamente isto! 

De acordo com os especialistas as crianças têm uma capacidade de atenção de cerca 9 segundos enquanto a dos peixinhos vermelhos se fica pelos 8 o que de facto só nos pode deixar com uma sensação de estarmos a viver numa dimensão paralela muito, muito estranha. 

Agora que nos encontramos em plena época estival de férias que convida à descontração, valerá a pena recriar dinâmicas e hábitos familiares, reeducando o deslizar da vida para que os dias não sejam meras voltas do planeta sobre si mesmo e se recupere o significado valioso do tempo vivido.

Será salutar recordar que educar também é dizer “Não” mesmo que os filhos não entendam as razões do Não. Educar também é sentar com os filhos e ter coragem para uma conversa calma e sem cedências sobre os “Nãos” ouvidos. Educar é abrir portais do conhecimento, fazer florescer a inteligência, a curiosidade, ensinar a fazer perguntas, calçar os sapatos da descoberta nos pés dos filhos e fazê-los correr pelos trilhos do mundo.

E educar também é sujarmo-nos de lama no jardim porque rebolamos na relva com os filhos, deixar a roupa por engomar porque é mais importante sentarmo-nos e contar uma história ou resistirmos aos conteúdos do Facebook para irmos brincar às escondidas. Porque brincar, é sinónimo de alegria e gargalhada ao mesmo tempo que se tem actividade física e essa é uma componente essencial promotora do equilíbrio, do fortalecimento das relações interpessoais, estimulando o desenvolvimento cognitivo-motor, entre outras vantagens. Brincar ao “faz de conta” alimenta a imaginação e com ela a criatividade ingrediente determinante para a resolução de problemas e gestão de desafios e conflitos. Jogar xadrez e outros jogos de tabuleiro, resolver quebra-cabeças e brincar com os blocos de construção são oportunidade de lazer quefortalecem as funções executivas do cérebro, como a memória de trabalho, o planeamento estratégico e o raciocínio lógico. 

Importa aqui referirmos os estudos realizados nos últimos anos, que apontam para um cenário que investigadores e psicólogos chamam “Efeito Flynn Inversificado” ou “Efeito Flynn Negativo”.

E do que é que estamos a falar? Bom, durante a maior parte do século XX, os testes de QI registaram um aumento constante a cada geração (fenómeno conhecido como Efeito Flynn). Portanto, o que se está a passar e os testes estão a revelar é que em vários países essa tendência estagnou ou começou mesmo a inverter-se em algumas regiões.

Um dos estudos mais citados foi publicado em 2018 por investigadores do Ragnar Frisch Centre para a Investigação Económica, na Noruega. Foram analisados os testes de QI de mais de 730.000 homens noruegueses e descobriram que houve um declínio claro nas pontuações estimando-se uma perda de cerca de 7 pontos por geração a partir de 1975.

Em 2023, um estudo da Northwestern University e da University of Oregon analisou os dados retirados de testes de inteligência nos Estados Unidos entre 2006 e 2018. As conclusões são similares: quedas em três das quatro categorias de habilidades cognitivas analisadas: raciocínio verbal, matrizes de raciocínio (lógica visual) e séries de letras e números. 

Considerando que a mudança aconteceu num espaço de tempo muito curto, os cientistas descartam causas genéticas e consideram as ambientais e de estilo de vida como as mais prováveis.

As mudanças nos métodos de ensino focados agora mais nas competências e práticas digitais, as alterações nos hábitos de leitura, com gradual abandono do texto impresso e leitura profunda substituídos pelo consumo de conteúdos digitais rápidos, vídeos curtos, e redes sociais, estarão na origem da alteração verificada na forma como as crianças processam a informação e conseguem manter a atenção. 

Todos estes dados e conclusões vêm fortalecer a análise feita por Eduardo Sá não apenas em Abril passado, mas ao longo dos últimos anos em que tem alertado para o excessivo tempo passado nas escolas e o escasso tempo dedicado à brincadeira chegando mesmo a alertar que crianças que brincam menos, adoecem mais facilmente. 

Mas falar das competências cognitivas sem falar da forma como se nutre biologicamente o cérebro é deixar o assunto órfão de uma vertente essencial. Embora a nutrição geral tenha melhorado no século XX, o aumento do consumo de alimentos ultraprocessados em algumas dietas modernas é também estudado como um factor secundário responsável pelo declínio das capacidades cognitivas.

Ler estas conclusões, assentir com um abanar de cabeça e comentar com o adulto que estiver por perto “pois…isto de facto é preocupante”, mas regressarmos à rotina sem analisarmos as nossas práticas e em que medida podemos melhorar os nossos comportamentos e a educação dos nossos filhos, vale de facto muito pouco. Educar é transformar e as crianças e adolescentes são o barro que moldamos e transformado em grande medida seguindo um modelo: nós, os adultos educadores e os que as crianças tendem a considerar como modelos. Por isso, as mudanças a serem operadas nas nossas vidas devem começar por nós próprios. Fará muito pouco sentido dizermos às crianças e jovens para largarem o ecrã, irem ler um livro ou simplesmente brincar se eles nos veem agarrados ao telemóvel a realizar o exercício diário de 2h30 de scroll. 

Aproveitemos, pois, o período de férias para exercitarmos a observação, a leitura, a escrita, a brincadeira, a conversa. Optemos por respirar o mundo, encher cada molécula do corpo com os sons e cores da vida verdadeiramente vivida e esqueçamos as simulações para onde o mundo digital nos convida.

Não podemos querer crianças com atenção de peixe e pensamento de baratas tontas sob pena de comprometermos a sua própria sobrevivência. 

                                                                                                          Paula Timóteo

Paula Timóteo

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