
Poucas imagens identificam melhor a presença ou influência portuguesa de forma tão imediata como a calçada tradicional. A calçada portuguesa ou pedra portuguesa, como é mais conhecida no Brasil, é sem dúvida um elemento icónico da nossa cultura, um símbolo da identidade urbana não apenas de Portugal como de vários países que partilham a sua herança histórica. Encerra um caminho longo e singular que importa conhecer, especialmente num momento em que a sua sobrevivência se encontra em risco. Mas há sinais claros de uma crescente mobilização da sociedade e dos decisores políticos em torno da sua preservação. A confirmar esta percepção tivemos, no passado mês de Janeiro, a aprovação no Parlamento do dia 22 de Julho como data de celebração do Dia Nacional da Calçada Portuguesa e do Calceteiro. Porque se desejamos verdadeiramente manter e garantir o futuro deste património temos, obrigatoriamente, de reconhecer e valorizar o engenho e a arte dos mestres que desenham no chão de Portugal a nossa identidade.
Sendo este um tema com forte relevância cultural, existem excelentes fontes, desde arquivos municipais a teses académicas e livros de referência, onde podemos encontrar informação. A constituição, em 2017, da Associação da Calçada Portuguesa, cujo objectivo é exactamente a sua protecção e valorização enquanto património cultural e identitário de Portugal, demonstra bem a relevância nacional da calçada portuguesa e a necessidade do seu reconhecimento, até porque, parafraseando o tema de uma das actividades propostas pela Associação, ela é muito mais do que o chão que nós pisamos.

Este chão de arte, que constitui uma das mais marcantes expressões da estética urbana portuguesa, caracteriza-se pelo uso de pequenas pedras calcárias de formato irregular ou em cubos (e por vezes basálticas), geralmente brancas ou negras, embora possam incluir alguma policromia, trabalhadas e assentes à mão pelos calceteiros. São dispostas de forma a criar padrões geométricos, figurativos ou decorativos, de acordo com os espaços que integram. Embora a calçada portuguesa, tal como a conhecemos hoje, tenha nascido no século XIX, a técnica de pavimentação com pequenas pedras possui raízes profundas. Apesar de não constituir um antecedente directo da calçada portuguesa, importa recordar que já no mundo greco-romano era utilizada a técnica do opus tessellatum, um tipo de mosaico executado com tesselas de pedra e destinado à decoração de amplas superfícies.
No século XV, surge o primeiro registo em Lisboa, de algo semelhante à calçada. São as cartas régias de 20 de Agosto de 1498 e de 8 de Maio de 1500, assinadas por D. Manuel I, que marcam o início do calcetamento da Rua Nova dos Mercadores (antiga Rua Nova dos Ferros e actual Rua do Comércio), muito embora já D. João II se tivesse pronunciado, numa carta de 1482, sobre a necessidade de calcetar a Rua Nova.
Será no reinado de D. Manuel I, e no seguimento das directrizes emanadas pelo seu antecessor, que o projecto se concretizará, tornando-se num dos exemplos do ideal de modernização que o rei defendia e que se tornaria visível em diversas áreas estratégicas do reino. A sua visão de grandeza, associada ao pragmatismo que defendia, ficaria bem patente no calcetamento de um dos lugares mais cosmopolitas e significativos da cidade. Porque naquela rua em particular o luxo e o exotismo conviviam diariamente e era por ali que, entre edifícios de cinco andares, exibindo uma arquitectura inovadora, passavam os cortejos reais.
Há mesmo uma história que explica as razões que justificaram a aceleração pedida pelo rei da obra de pavimentação. Numa altura em que se aproximava o aniversário do monarca, o cortejo real iria incluir um rinoceronte branco, a Ganga, que surgiria ricamente ornamentado. Dado que o aniversário de D. Manuel I se comemorava a 21 de Janeiro, seria de calcular que a rua de terra batida estivesse enlameada com as chuvas de Inverno. Para evitar que as “delicadas” patas de Ganga associadas ao seu elegante peso sujassem o numeroso e longo cortejo, com figurantes aparatosamente engalanados com as novas riquezas e adornos vindos do Oriente, o rei decidira mandar calcetar a rua ou, provavelmente, na teoria mais certa, acelerar um processo que já estaria previsto.
Não sabemos a data exacta da conclusão da obra; apenas podemos calcular o seu início e também será fácil intuir que o seu objectivo não se esgotaria, de facto, nas “patinhas” do rinoceronte, porque dignificar aquele que era o coração económico do Império Português e a artéria mais animada da Europa seria uma razão de peso, um peso certamente superior ao da própria Ganga.
Vale a pena recordar que os cortejos reais eram sempre a expressão cénica do poder do rei e, no reinado de D. Manuel I (1495-1521), tinham ainda uma função reforçada pelo desejo de evidenciar a existência de um vasto e rico império português. Os cortejos, e em especial durante o reinado manuelino, constituíam uma oportunidade para exibir com aparato e exuberância o luxo e o exotismo associados aos territórios longínquos alcançados pela expansão portuguesa.
As procissões e entradas solenes não eram acontecimentos aleatórios, mas antes dispositivos cénicos rigorosamente planeados para assinalar momentos cruciais da Coroa. Como refere Sandra Russo Morais, eram “uma expressão do cerimonial da corte que exaltava o poder régio e a hierarquia social”.
Curiosamente, apesar de o reinado manuelino se ter pautado pela entrada generosa de riqueza, o calcetamento daquela que é hoje a Rua do Comércio suscitou alguns reparos pelo seu custo. Apesar de carecer de consenso há quem defenda que o terá sido determinado que o material a utilizar deveria ser o granito da região do Porto, o que, pelo transporte implicado, tornou a obra bastante dispendiosa.
Muito embora os pavimentos calcetados tenham surgido no reino por volta de 1500, a calçada portuguesa, tal como hoje a identificamos, surge apenas em meados do século XIX, em Lisboa, representando o verdadeiro ponto de viragem e o nascimento daquilo que hoje entendemos como calçada artística e bicolor.
Por volta de 1842, o marechal Eusébio Furtado, governador do Castelo de São Jorge, decidiu utilizar os reclusos da prisão do castelo para pavimentar a praça de armas do quartel. O desenho escolhido foi um padrão em ziguezague, formando um traçado ondulado com pedras de calcário branco e negro. O sucesso visual foi tão expressivo que a técnica rapidamente chamou a atenção da cidade, conduzindo à encomenda de uma obra monumental para a Praça do Rossio (Praça D. Pedro IV). Foi então desenhado o famoso padrão «Mar Largo», que homenageia os Descobrimentos portugueses. Este padrão ondulado acabaria por se tornar uma das imagens mais reconhecíveis da calçada portuguesa, influenciando posteriormente outras intervenções urbanas, entre as quais o célebre calçadão de Copacabana.
Convém, contudo, distinguir dois conceitos frequentemente utilizados como sinónimos. A calçada portuguesa é o termo genérico que designa o conjunto das técnicas de pavimentação executadas com pequenas pedras naturais assentes manualmente. Já a “calçada à portuguesa” corresponde a uma das suas modalidades mais antigas, caracterizada pela utilização de pedras pequenas e irregulares, geralmente de calcário e basalto, assentes aleatoriamente, procurando o melhor encaixe possível entre elas. Desta técnica inicial evoluíram posteriormente formas de calcetamento mais regulares, como o malhete ou a calçada ao quadrado, hoje amplamente utilizadas.
A partir da segunda metade do século XIX, a calçada tornou-se a norma para pavimentar os passeios da capital, espalhando-se rapidamente por todo o país e pelas colónias da época. Em Portugal, cidades como Porto, Coimbra, Évora e Ponta Delgada adaptaram a técnica, incorporando muitas vezes materiais locais, como o basalto negro nos Açores e na Madeira. Mas a técnica não ficou confinada ao país da ocidental praia lusitana. Espalhada pelo mundo, podemos encontrar calçada portuguesa no Brasil (Rio de Janeiro, São Paulo e Manaus), em Macau, Angola, Moçambique e até em monumentos dedicados a figuras portuguesas em cidades como Nova Iorque ou Paris.
A partir de meados do século XX, o tipo de aplicação mais utilizado passou a adoptar o uso de cubos e um enquadramento diagonal, solução que facilitava o assentamento e conferia maior regularidade ao pavimento.
Falar da obra sem mencionar os obreiros seria amputar o tema dos seus protagonistas, até porque a execução da calçada resulta de um trabalho puramente artesanal e de grande exigência física, realizado pelos mestres calceteiros. Como já referimos, utiliza-se essencialmente o calcário, uma pedra relativamente maleável e fácil de talhar durante o processo de preparação. As pedras são trabalhadas manualmente com um martelo específico até adquirirem a forma necessária ao seu encaixe, geralmente pequenos cubos, cunhas ou prismas irregulares. Depois, são cravadas numa camada de areia e pó de pedra, ajustadas com um maço e, finalmente, cobertas com areia fina para selar as juntas.
Devido à exigência física do trabalho e ao declínio do número de jovens interessados em aprender o ofício, a profissão de calceteiro é hoje considerada uma arte em vias de extinção. Existem, por isso, iniciativas de preservação deste saber, entre as quais a Escola de Calceteiros de Lisboa.
Actualmente, o debate entre estética, segurança e acessibilidade tem assumido particular relevância. Perante os argumentos relacionados com a segurança, uma vez que a pedra se torna mais escorregadia quando molhada, e as questões de acessibilidade decorrentes de pavimentos degradados ou irregulares, importa encontrar equilíbrios nem sempre fáceis de alcançar.
Paula Timóteo

