
A História da Humanidade confunde-se com momentos de carnificina, de guerras e picos de violência. As crianças conviviam em épocas ancestrais com a morte, a orfandade, as perdas. Velavam os mortos, assistiam à chegada de moribundos, viam os pais partir para as guerras e elas própria participavam delas precocemente. Desde que a humanidade conheceu o início de uma organização social. Pezarat Correia em Guerra e Sociedade diz-nos “A guerra terá emergido nas sociedades humanas na era da sedentarização e da revolução agrícola em paralelo com outras duas manifestações da vida colectiva, aliás intimamente associadas à guerra: propriedade e poder”. As guerras tinham motivações e objectivos bem identificados que passam por serem de índole política, económica, territorial (esta entronca nas duas anteriores), de segurança, razões religiosas (supostamente), culturais e ideológicas. Havia e sempre houve confrontos violentos no seio das sociedades humanas. E as crianças, entendidas como adultos em formato mini, viviam integradas nesta realidade.
Actualmente persistem guerras e conflitos terríveis incluindo genocídios que envolvem crianças em crimes humanitários hediondos. Mesmo na guerra há códigos que deveriam ser respeitados e não o estão a ser. Lembremos que o primeiro quadro jurídico internacional que surgiu para definir e punir crimes de guerra e crimes contra a humanidade surgiu após a Segunda Guerra Mundial, mas ele foi precedido por convenções que já regulavam a condução da guerra começando pelas Convenções da Haia que decorreram entre 1899 e 1907. Mas, não são os efeitos das guerras actuais, sobre as crianças nelas envolvidas, que iremos aqui reflectir. Falamos de quadros de alterações comportamentais preocupantes em crianças e jovens que vivem em contextos de paz, mas com fácil e rotineira interação com ambientes de grande violência. Ou seja, sem que haja um quadro inevitável e imposto de violência extrema, as crianças e jovens procuram vivenciar esses eventos e os adultos permitem.
O que distingue a época contemporânea não é a existência de mais violência do que no passado, e a História demonstra claramente isso. O elemento verdadeiramente novo é que milhões de crianças que vivem em sociedades ou épocas pacíficas passaram a contactar diariamente com violência extrema sem dela serem vítimas directas, quer através dos videojogos, da internet ou das redes sociais. Portanto, o que nos provoca sobressalto é exactamente a procura por parte de jovens em idades cada vez mais precoces da violência dela participando, mesmo que virtualmente, e dela fazendo uma actividade lúdica frequente e de fácil acesso. Não há qualquer enquadramento, regulação, explicação, censura. Antes pelo contrário, assiste-se à naturalização da agressão, da dor infligida, do assassínio ou da mutilação. Em muitas famílias parece por vezes que tudo é considerado apropriado e permitido porque as crianças e jovens tornaram-se, em muitas situações os pequenos ditadores acabando por definir grande parte das regras do quotidiano familiar e os adultos, os mesmos que carregam a mochila dos educandos até à entrada da escola e que assumem como suas as responsabilidades escolares, confundem autonomia de escolhas com a imprescindível regulação parental.
Façamos uma pequena viagem no tempo para lembrar como é que os vídeos jogos entraram na vida dos adolescentes e se tornaram verdadeiros palcos de guerra sem regras. Os primeiros videojogos comerciais surgiram na década de 1970 com conteúdos essencialmente lúdicos e não violentos, como Pong em 1972. Porém não demorou muito até entrarem nas casas dos jovens os primeiros jogos com representações de violência, como Death Race em 1976 que tem sido frequentemente apontado como o primeiro videojogo a gerar controvérsia devido ao seu conteúdo violento, uma vez que o objetivo consistia em atropelar figuras humanoides. Apesar da polémica o curso da história continuou indiferente e, de forma leviana, fazendo “tábua rasa” das questões levantadas e por isso, lamentavelmente, a violência tornou-se mais comum. Apenas as limitações gráficas ainda iam colocando alguns entraves a um maior desenvolvimento, mas jogos como Berzerk (1980), Commando (1985) e Operation Wolf (1987) já introduzem combate armado e confrontos militares e por isso podemos dizer que a década de 1980 constitui um marco na escalada da violência servida em doses insanas através de jogos supostamente lúdicos. Entretanto, o aumento da capacidade gráfica permitiu representar a violência de forma muito mais realista e rapidamente, ao longo da década de 1990 foram comercializados jogos como Mortal Kombat, em1992, conhecido pelas suas cenas de violência explícita, entre outros que suscitaram intenso debate científico e político sobre os seus potenciais efeitos no comportamento infantil e adolescente. Em resposta a estas preocupações, foram criados sistemas de classificação etária, mas os anos que se seguiram ao nascer do século XXI demonstraram um divórcio evidente entre as recomendações e até alguma suposta regulamentação e a realidade. A violência nos videojogos torna-se cada vez mais realista e interativa, acompanhando a evolução tecnológica. Os jogos de acção e guerra passam a integrar cenários complexos e violência gráfica detalhada.
Por isso, fica claro que a violência nos videojogos ganhou verdadeira expressão quando a evolução tecnológica permitiu representações gráficas mais realistas e interativas tornando-os, em simultâneo, objecto de crescente investigação científica devido às preocupações relacionadas com o seu potencial impacto no desenvolvimento e comportamento de crianças e adolescentes. Embora a exposição das crianças à violência através dos meios de comunicação exista desde há muito, sobretudo com o surgimento da televisão divulgando filmes e séries com elevada carga violenta, a sua natureza alterou-se profundamente com a expansão da Internet e, sobretudo, das redes sociais. A literatura considera que a massificação deste fenómeno ocorreu entre o final da década de 2000 e o início da década de 2010, impulsionada pela generalização dos smartphones, da Internet móvel e das plataformas de partilha de conteúdos, que passaram a permitir um acesso contínuo e praticamente ilimitado a imagens e vídeos de violência real. Estudos alertam para a questão de a violência não se apresentar apenas como evento isolado, ou decorrente de uma situação que escapa ao controlo de quem fica inserido. A violência torna-se num ambiente seleccionado, procurado e tornado banal e isto tem efeitos a curto e longo prazo. A questão central é que a experiência repetida torna-se emocionalmente significativa e em fases cruciais do desenvolvimento cerebral.As crianças acabam por se desenvolver num constante estado de stresse afectando o cérebro (amígdala, córtex pré-frontal) e o sistema hormonal (stress) dando fundamento aos problemas de ansiedade, impulsividade ou dificuldades de aprendizagem que a jusante são alvo de medicalização numa vã tentativa de solucionar o problema. É como se se pretendesse resolver uma inundação colocando panos para ensopar a água em vez de fechar a torneira da água.
Para além destes efeitos mais a curto e médio prazo há os outros que se vão revelando mais ou menos rapidamente. Falamos da adopção de comportamento violentos por parte das crianças e jovens além de problemáticas ao nível da saúde mental.
A literatura sobre o assunto é pródiga na área do estudo e reflexão sobre a capacidade do ser Humano cometer atrocidades. A filósofa alemã de origem judaica Hannah Arendt notabilizou, sem escapar a escrutínios polémicos principalmente dentro da comunidade judaica, no desenvolvimento do conceito da “banalidade do mal” Na obra “Eichmann em Jerusalém” aprofundaria esta ideia defendendo que em resultado da massificação da sociedade criou-se uma multidão incapaz de fazer julgamentos morais, razão porque aceitam e cumprem ordens sem questionar. Ou seja, as crianças que crescem num ambiente onde a violência se torna banal dificilmente serão capazes de se oporem a ela e mais fácil se tornarão obedientes a ordens que impliquem actos de violência extrema. Na área da Filosofia da Educação, John Dewey sublinha que a experiência molda o indivíduo e por isso, ambientes violentos geram formas distorcidas de aprendizagem social .
Já aqui mencionámos a facilidade com que a partir da explosão da internet se acede a conteúdos de índole violenta. Pois bem, considera-se o período entre 2004 e 2005 como aquele em que se popularizam plataformas como o Facebook, em 2004, o YouTube, em 2005 e por fim em 2006, o Twitter. Com estas “redes sociais” os vídeos de violência real podem ser facilmente partilhados e acedidos por milhões de utilizadores. Entre 2007 e 2012 assistiu-se a uma nova fase com a disseminação dos smartphones, após o lançamento do iPhone em 2007, e da Internet móvel alargando e permitindo um acesso permanente às redes sociais. As crianças e adolescentes passam a estar expostos não apenas à violência ficcional, mas também a vídeos de agressões, acidentes, guerras, terrorismo e violência escolar gravados pelos próprios intervenientes. A partir de 2013/2015 a exposição torna-se ainda mais intensa devido aos algoritmos de recomendação das plataformas, que facilitam a circulação repetida de conteúdos violentos e sensacionalistas. Surgem também transmissões em direto (live streaming), aumentando o potencial de exposição a episódios de violência em tempo real.
Finalmente, durante a pandemia de COVID-19, em 2020, o aumento do tempo passado online pelas crianças e adolescentes levou a uma maior exposição a conteúdos potencialmente perturbadores. Paralelamente, plataformas como TikTok, Instagram Reels e YouTube Shorts passaram a difundir vídeos através de algoritmos muito eficazes, tornando mais difícil evitar o contacto com imagens de violência.
Em jeito de conclusão podemos dizer que ao longo da História as crianças, lamentavelmente, sempre foram expostas à violência, mas porque viviam mergulhadas em sociedades marcadas pela guerra. Hoje surge uma situação singular e que deveria mobilizar sociedade em geral e educadores em particular. Uma parte significativa da exposição à violência não resulta de uma fatalidade histórica, mas sim da oferta indiscriminada de violência explícita através de dispositivos, ferramentas, recursos que conotados com o entretenimento. Esta transformação constitui uma das mais profundas e preocupantes mudanças culturais das últimas décadas.
A investigação tem vindo a demonstrar e o conhecimento empírico reforça, que a exposição repetida à violência, sobretudo durante o desenvolvimento cerebral, influencia a regulação emocional, a empatia, a capacidade de autocontrolo e a saúde mental. Que fique claro que não estamos a afirmar nem a defender a ideia de que todas as crianças expostas se irão tornar violentas, mas aumenta a probabilidade de tal acontecer e nunca saberemos como evoluiriam caso não tivessem sido dessa forma expostas. Por outro lado, muitas desenvolvem sérias dificuldades comportamentais, emocionais e relacionais, particularmente quando essa exposição ocorre sem mediação educativa.
Actualmente e sobretudo desde a disseminação dos conteúdos com forte carga de crueldade, tem crescido fenómenos de agressividade entre os alunos nas escolas e o que tem chamado à atenção de pais e professores são as idades precoces em que tal já acontece. Entenda-se que, obviamente, o verdadeiro problema não é a existência de videojogos, da internet ou das redes sociais, mas do seu uso careça sem regulamentação, supervisão e contenção bem como dos conteúdos que livremente são veiculados com claros efeitos perversos até para um público adulto. Os educadores não podem renunciar ao seu papel de mediadores da experiência infantil. Educar implica seleccionar, explicar, limitar e contextualizar.
Não podemos e não devemos vulgarizar a brutalidade correndo o risco de tornar a sociopatia um traço comum nas sociedades. Quando a violência deixa de ser interpretada criticamente e passa a ser consumida como entretenimento quotidiano, corre-se o risco de formar indivíduos para quem o sofrimento do outro deixa progressivamente de provocar indignação. E esse talvez seja o mais preocupante dos efeitos da banalização da violência e uma fronteira indesejável.
Paula Timóteo

