O Gato na Arte I Misteriosos e fascinantes

Se existe animal fascinante e misteriosamente irresistível esse é, certamente, o ancestralmente conhecido gato e no mês em que se celebra o seu dia, aqui deixamos um breve registo da forma como ele foi sendo imortalizado nas obras de arte ao longo do tempo.

Venerado no Antigo Egipto, temido e protagonista de crenças desde a Idade Média, amado por escritores como Ernest Hemingway e Eugénio de Andrade; artistas plásticos como Botero, Picasso ou Matisse e músicos como Maurice Ravel que introduziu o famoso dueto de miados (“Duo miaulé”) na sua famosa ópera L’enfant et les sortilèges, ou a Anne Victorino D’Almeida que conta com a ajuda dos seus 5 gatos nos momentos de composição, o certo é que os gatos entram na vida tanto de sumidades como de gente anónima sempre com uma dose extra de nobreza e carisma inigualáveis.  Inspirador de novelas, bandas desenhadas e filmes de animação, o Gato, esse príncipe de mágico ronron e fascinante amassar de patinhas, encanta a humanidade desde tempos imemoriais e tem forte presença na pintura e escultura desde que o Homem percebeu que se podia multiplicar em mil recriações.

Se os gatos em geral marcam presença na arte, os pretos ocupam um lugar particularmente rico em simbolismo, mas sejam eles pretos, brancos, laranjas, tricolores, o certo é que a forma como os gatos têm sido representados tem reflectido as naturais alterações no tecido cultural, social, mental e artístico que o fluir dos séculos sempre acompanha.             

No antigo Egipto, os gatos eram associados à deusa Bastet surgindo em esculturas, pinturas murais e objectos funerários como símbolos de protecção, fertilidade e harmonia doméstica. Matar um gato podia então ser considerado um crime grave e ainda hoje, na Indonésia e em Timor-Leste, atropelar mortalmente um gato tem uma carga negativa forte, um receio infundado, mas sentido como certo, de que o acto irá atrair azar ou maldição.

Na Europa medieval, os gatos marcam presença na arte com menos frequência do que os cães e quando os vemos estão normalmente integrados em cenas da vida doméstica simbolizando independência e astúcia. Mas tanto os podemos encontrar “bem vistos” por quem os retrata, como surgem olhados de uma forma bem diferente e menos benévola, especialmente se forem de pelagem negra porque eram associados, no imaginário de muitas culturas, à ideia de pecado e de tentação. Ora pecado e tentação são conceitos que vivem em comunhão com o diabo pelo que os gatos pretos depressa foram conotados como seres satânicos. E assim, quando abrimos a ampla porta da História descobrimos o quanto os gatos pretos, sobretudo a partir do final da Idade Média, foram associados a bruxas, feitiços e maus presságios, arrastando-se, inacreditavelmente, até aos dias de hoje em convicções colectivas difíceis de racionalizar. A arte, marcada pelas crenças em torno dos pequenos felinos, irá então apresentar frequentemente os gatos pretos em contextos ritualizados ou noturnos.

Mas, apesar do mundo ser pequeno ele está bem recheado de universos e culturas diferentes e por isso, se em certas coordenadas o gato podia ( e ainda pode, infelizmente) ser considerado um ser demoníaco, noutras foi sempre amado e considerado precioso. É amplamente conhecido o exemplo do Antigo Egipto que já aqui referimos por isso lembremos um outro caso, e se também é do conhecimento geral que Istambul é quase considerada a capital do gato, o Japão também se encontra nos antípodas das associações negativas em torno dos gatos. No arquipélago nipónico, os gatos têm um lugar muito especial na História, religião, folclore, arte e cultura popular há mais de mil anos. Acredita-se que os gatos terão chegado entre os séculos VI e VIII, vindos da China e da Coreia juntamente com textos budistas e se a sua função inicial era bastante pragmática, afugentar os ratos protegendo, dessa forma, manuscritos e alimentos, com o tempo passaram a ser vistos também como companheiros e figuras simbólicas. O símbolo japonês mais conhecido relacionado com os gatos é o Maneki-neko, o “gato que acena” e acredita-se que ele traz sorte e prosperidade.

Quando chegamos aos séculos XIX e XX a mudança quer ao nível da gramática estética quer ao nível da forma como a sociedade em geral passou a olhar para os gatos, exerceu impacto na representação artística dos pequenos felinos que ganharam outro nível simbólico. Se no passado o gato surgia sobretudo como alegoria religiosa ou moral, nestes dois séculos tornou-se também uma possibilidade de experiência estética, psicológica e até política. Se não vejamos: durante o século XIX, na pintura realista e impressionista, os gatos aparecem cada vez mais como protagonistas da vida doméstica burguesa, confortável e abastada num interesse evidente pela observação da vida quotidiana de uma classe em galopante ascensão social e política.

Porém, os gatos não perdem a sua forte carga simbólica e um dos exemplos mais conhecidos surge no quadro Olympia (1863), de Édouard Manet. O pequeno gato preto, que de certa forma substitui o tradicional cão símbolo de fidelidade, surge aos pés da figura feminina e parece querer salientar uma ideia de sensualidade, mistério e emancipação feminina contribuindo para o lado polémico da obra.

Pierre-Auguste Renoir, por seu turno, pintou gatos de pelagens diferentes e revelando um conhecimento próximo dos pequenos felinos. Surgem, por norma, aninhados em colos femininos e infantis num ambiente de profunda ternura, pureza e  intimidade familiar.

Ainda durante a segunda metade do século XIX, vários artistas, influenciados pelo Simbolismo, utilizaram o gato como metáfora da noite, da feminilidade, do erotismo e do desconhecido. Particularmente marcante foi Théophile Steinlen, cujos desenhos e cartazes celebrizavam os gatos parisienses. O famoso cartaz do cabaré Le Chat Noir, de 1896, onde o gato preto aparece elegante e misterioso, tornou-se um ícone da arte gráfica “fin-de-siècle” revelando, ao mesmo tempo, que a carga negativa dos gatos pretos deu lugar a uma figura de sofisticação urbana.

Na escultura, os gatos aparecem menos frequentemente do que, por exemplo, cavalos ou cães, mas vários escultores dedicaram grande atenção ao estudo anatómico dos felinos. Destaca-se Antoine-Louis Barye, mestre da escultura animalista e conhecido pelo seu rigor anatómico. Embora seja mais conhecido pelos grandes felinos, realizou estudos de gatos domésticos em bronze que revelam extraordinária precisão anatómica e interesse pelo movimento.

A passagem para o século XX já anuncia a libertação que o novo século irá confirmar de uma mera função de suporte narrativo do gato tornando-o, em muitos casos, protagonista artístico e elemento essencial na construção da atmosfera da pintura como aconteceu com obras de Pierre Bonnard.

Já Henri Matisse, grande amante de gatos que foram uma companhia fundamental especialmente na sua última década de vida, encontrou neles uma enorme fonte de inspiração representando-os em interiores luminosos. Uma das suas obras icónicas, é o quadro “Le Chat Aux Poissons Rouges” (O Gato com Peixes Vermelhos) de 1914.

Em pleno século XX o Expressionismo e Surrealismo irão tratar os gatos como elementos essenciais para também representar estados psicológicos como irá acontecer nas obras de Balthus que terá vivido sempre rodeado de gatos. O seu fascínio pelos pequenos “ronroneiros” tornou-o conhecido como “rei dos gatos” nome que deu ao seu auto-retrato de 1935. Balthus representou-os como alter egos das personagens humanas: independentes, ambíguos e, como sempre, enigmáticos. Muitas vezes parecem observar silenciosamente a cena, reforçando a atmosfera misteriosa. Entre os surrealistas, o gato simbolizava o subconsciente, os sonhos ou a metamorfose.

Pablo Picasso, que admirava Balthus ao ponto de lhe ter dito que ele era o único artista daquela geração que lhe interessava, era igualmente um apaixonado por gatos o que lhe permitiu entender, como poucos, a paleta multifacetada de comportamentos que neles podemos observar, nuances de humor que devem ser compreendidas e respeitadas. Talvez por isso Pablo Picasso, que os pintou em várias fases da sua carreira, tanto os representava numa vertente de afecto como os apresentava como caçadores ferozes ou, em linhas simplificadas, quase infantis.

Na escultura do século XX, o gato tornou-se um excelente tema para explorar volume, equilíbrio e movimento. Entre os nomes mais importantes lembramos Rembrandt Bugatti, célebre pelos bronzes de animais com os gatos a revelarem extraordinária elegância e tensão muscular e, naturalmente, Fernando Botero que criou monumentais esculturas de gatos de formas arredondadas e volumosas, elevando o gato a um embaixador maior de alegria e ternura.

Em Portugal, a representação do gato na pintura e na escultura nunca constituiu um género autónomo. No entanto, o felino assume um papel muito interessante na arte portuguesa entre os séculos XIX e XX, acompanhando a evolução do Naturalismo e, mais tarde, da arte contemporânea. Um nome surge no pensamento de imediato na forma genial como integrou os gatos na sua iconografia artística: Rafael Bordalo Pinheiro de quem falamos com maior detalhe num outro artigo. No século XX um nome surge como incontornável: Paula Rego. Apesar de encontrarmos cães com maior frequência, os gatos surgem em diversas pinturas e desenhos como criaturas que podemos identificar como domésticas ou selvagens, cúmplices das personagens femininas ou figuras do universo do conto e da fantasia. Na pintura de Paula Rego o gato torna-se num interveniente da narrativa visual. Mas se Paula Rego é uma referência a ter em conta, Júlio Pomar (ver artigo de Out 2025) teve um interesse muito evidente por representar o mundo animal em geral explorando movimento, energia e expressividade e os gatos não foram excepção surgindo  ao longo da sua carreira com a mesma liberdade gestual que dedicou a cavalos, touros ou macacos.

Ao longo dos séculos XIX e XX o gato é tratado de várias perspectivas que salientam ora a sua independência, devido ao seu comportamento autónomo, ora o mistério, por serem notívagos e furtivos, mas sobretudo por uma certa imprevisibilidade, personalidade forte e distância da subserviência canina. Símbolos de sensualidade, sobretudo na pintura simbolista, podem igualmente integrar um pacato ambiente doméstico, especialmente entre os impressionistas ou simplesmente serem apenas Gatos na beleza do seu corpo e olhar, na expressividade do seu comportamento, na paleta colorida da sua pelagem como o Naturalismo os prefere tratar. 

Nestes séculos, o gato deixa de ser apenas um elemento secundário para conquistar um lugar central na arte. A combinação única de elegância, mistério e proximidade com o ser humano permitiu aos artistas explorar questões formais, emocionais e simbólicas. Da observação naturalista de Antoine-Louis Barye à monumentalidade de Fernando Botero, o gato tornou-se um dos animais mais versáteis da arte moderna e contemporânea, conseguindo espelhar tanto as transformações estéticas como as mudanças na relação entre humanos e animais. A sua ambiguidade, mantendo uma faceta selvagem que os torna indecifráveis, fez deles um dos animais mais simbolicamente ricos em toda a História da Arte.

E quanto aos gatinhos pretos, quase que nos atrevemos a dizer que se tornaram os preferidos dos artistas. E motivos não faltam porque eles são de facto um manancial de inspiração.  Têm um olhar permanentemente iluminado em perfeito contraste com a negritude do seu corpo e por isso trazem consigo em simultâneo a noite e o dia solar, além do enigma da penumbra e o lustro de um negro de veludo irresistível. O gato preto estimula múltiplas interpretações e apresenta, normalmente, uma silhueta robusta tornando-se fascinante tanto para os artistas como para quem os observa ao vivo.

Na arte contemporânea, os gatos pretos costumam ser usados para explorar temas como identidade e marginalização, mistério e imaginação e, pasme-se, crítica às superstições. Neste aspecto há muitos artistas que têm procurado combater o preconceito que ainda hoje subsiste e que explica por que razão são adoptados com menos frequência.homenageou, através da arte, esses os príncipes de olhar irresistível

Paula Timóteo

Paula Timóteo

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