Rafael Bordalo Pinheiro I O fascínio por gatos

Num número em que homenageamos os ,gatos dedicar espaço para falar de Rafael Bordalo Pinheiro (1846–1905) é quase inevitável porque, além de ter sido um apaixonado pelos pequenos felinos eles residem como príncipes no repertório artístico de Bordalo que encontrou neles inspiração inesgotável. Na colecção do museu em Lisboa podem ser encontrados mais de 200 gatos representados quer em cerâmica quer em azulejo ou desenhados à mão. Bordalo Pinheiro chegava a dizer que certamente teria “sido gato noutra reencarnação” e dois dos seus gatos mais conhecidos, o Pires e a Pili, surgem muitas vezes representados nos seus desenhos.

Ao contrário de cargas simbólicas de sensualidade e mistério que podemos reconhecer na representação do Gato na pintura e ilustração em outros países, nomeadamente nas obras de artistas franceses, Portugal vai ter em Rafael Bordalo Pinheiro alguém que olha para os gatos exactamente como eles são e como eles se nos apresentam sem procurar neles significados mais ou menos ocultos na sua existência. Eles surgem integrados na vida real, nas rotinas de um Portugal profundamente rural onde a presença do gato se faz fortemente sentir.

Muito embora tenha ficado conhecido sobretudo pelas suas caricaturas e pela criação do Zé Povinho e da Maria da Paciência, é incontornável o papel que Bordalo exerceu na inovação da cerâmica portuguesa. Nas suas oficinas das Caldas da Rainha, o artista surge numa fotografia com 3 dos seus gatos ficando para a posteridade um instante congelado do passado. Um instante que é mais do que uma mera fotografia porque o artista não olha para a câmara e sim para um dos gatos parecendo dizer que eram eles os fotografados, que eles é que eram o foco. Da sua oficina saíram numerosas peças inspiradas na fauna nacional e embora as rãs tenham adquirido um estatuto icónico, os gatos ocupam um lugar importante no universo naturalista de Bordalo Pinheiro que estuda o gato como parte da vida quotidiana.

Em Bordalo, os gatos não são apresentados como meros elementos decorativos, mas como resultado de uma observação direta da natureza e por isso, ao contrário da tradição académica, o artista procurava representar os animais com personalidade própria, explorando a expressividade do corpo e da postura.

 Visitando os gatos de Bordalo tanto os encontramos deitados em repouso como assanhados com o dorso arqueado, observadores curiosos e atentos ou num momento de caça. Gatos integrados em serviços de mesa, objetos utilitários ou como elementos escultóricos independentes, há um manancial criativo genial.

A forma como surgem é aliás demonstrativa de três características fundamentais na estética de Bordalo. Por um lado, a ligação do artista ao Naturalismo fica revelada na forma como o artista estuda cuidadosamente a anatomia, a musculatura, o comportamento postural do gato representando-o com rigor por outro, destacamos o humor, esse ingrediente secreto que ajuda a tornar a obra de Bordalo tão singular e genial. Mesmo quando representado com precisão anatómica, o gato conjuga-se perfeitamente com a dimensão humorística da obra, que é uma característica de Bordalo. Por fim, observa-se que o animal deixa de ser apenas um motivo decorativo e passa a estruturar e assim a determinar a própria forma da peça.

Nascido em Lisboa, Rafael Bordalo Pinheiro cresceu numa família profundamente ligada às artes. Era filho do pintor Manuel Maria Bordalo Pinheiro e irmão do pintor Columbano Bordalo Pinheiro. Apesar de ter frequentado a Academia de Belas-Artes, nunca concluiu os estudos, dando preferência, como tantos outros que fugiam dos rigores de um academismo com que já não se identificavam, a uma aprendizagem prática autodidacta. Os seus desenhos, ilustrações e caricaturas baseavam-se numa acutilante observação da realidade. Identificado com o desenho de observação, desde muito jovem revelou um talento invulgar para captar tipos populares, expressões humanas e episódios do quotidiano. Considerado um verdadeiro cronista da sociedade portuguesa onde ninguém escapava ao seu olhar arguto, Bordalo notabilizou-se sobretudo através da caricatura tendo trabalhado em vários periódicos humorísticos, como A Berlinda, O António Maria e Pontos nos ii, utilizando o desenho como instrumento de crítica social e política.

A instabilidade política da monarquia constitucional era alimento farto para a sua sátira que não se esgotava na gargalhada imediata. As ilustrações e caricaturas constituíam verdadeiras formas de intervenção cívica, aproximando-o das grandes tradições satíricas europeias, como as de Honoré Daumier em França. Nesse sentido Bordalo privilegiava temas recorrentes que alternavam entre o político, os costumes da burguesia urbana, as desigualdades sociais e a própria modernização do país que era campo fértil de inspiração.

A caricatura, para Bordalo Pinheiro, não era apenas humor: era instrumento e voz política. A criação mais célebre de Rafael Bordalo Pinheiro, o Zé Povinho, apresentado pela primeira vez em 1875, representa o povo português com os traços marcantes e identitários: trabalhador, resignado, inteligente, irónico e frequentemente vítima das decisões do poder político. Com o passar das décadas, o Zé Povinho transformou-se numa das imagens mais reconhecíveis da identidade portuguesa.

Entre 1884 e1885 participou na fundação da Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha, espaço que lhe permitiu concretizar uma linguagem artística completamente inovadora.

Até então, a cerâmica portuguesa era dominada por modelos decorativos tradicionais, mas Bordalo introduziu a representação naturalista de plantas, frutos e animais sendo que estes são os menos estudados da sua produção. Imbuído pelo espírito do Naturalismo, Bordalo observava cuidadosamente a anatomia e o comportamento animal e eles, quer fossem rãs, lagartos, coelhos ou aves, foram apresentados com individualidade, movimento e expressividade revelando um conhecimento atento da etologia animal e uma extraordinária capacidade de representar o mundo animal. Tendo se notabilizado como desenhador, aguarelista, ilustrador, decorador, caricaturista político e social, jornalista, ceramista e professor, com um impacto e influência ainda reconhecida na actualidade, Rafael Bordalo Pinheiro foi um exemplo maior de como a cultura, inteligência e arte, quando combinadas resultam numa obra multifacetada e extraordinária.

No mês em que se celebra o Dia do Gato, optámos por trazer um olhar  mais atento à forma como o artista homenageou, através da arte, esses os príncipes de olhar irresistível

Paula Timóteo

Paula Timóteo

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