Aquilino Ribeiro I Um Mestre da Literatura

No dia 13 de Setembro cumprem-se 141 anos sobre o nascimento de um escritor notável. Aquilino Ribeiro, justificadamente chamado de Mestre, foi um dos mais notáveis autores portugueses de sempre. Além de um verdadeiro artesão da palavra, como já foi denominado, foi um amante da liberdade tendo por ela lutado com a grandeza própria de uma alma convicta porque para ele “ser livre é a condição indispensável para que o escritor se realize, solte as velas todas da sua personalidade”. 

Aquilino Ribeiro

Nasceu a 13 de Setembro de 1885, na aldeia do Carregal, pertencente então ao concelho de Sernancelhe, actualmente integrada na freguesia de Carregal. Filho de um padre e de uma camponesa, estes dois mundos marcariam o trajecto de Aquilino. Por um lado, a infância decorreu em contacto muito próximo com as serras, os rios, os agricultores, os almocreves, os moleiros, os caçadores e toda a cultura popular que mais tarde alimentaria a sua ficção. Por outro lado, a sua ascendência paterna terá influenciado um percurso seminarista. Assim, aos 10 anos, deixou a casa da família para prosseguir estudos, primeiro no Colégio da Lapa e depois nos seminários de Seminário de Beja e de Seminário Maior de Coimbra, pois a família pretendia que seguisse a carreira eclesiástica. Acabaria, porém, por abandonar essa via.

Mais tarde acabaria por se envolver na oposição à Monarquia e, posteriormente, à ditadura, o que o levou ao exílio em Paris. Regressado a Portugal, dedicou-se intensamente à literatura. 

Fruto de experiências profundamente diversificadas e com a alma enraizada na região onde passou a infância e que se tornou lugar de memórias infindáveis, Aquilino observava e entendia o mundo como um prisma de mil faces apaixonantes do que resultou uma obra plural tocando diversas tipologias. Os 69 livros publicados em vida, para além de um surpreendente espólio ainda inédito, dizem muito deste profícuo escritor que se dividiu em romances, literatura infantil, jornalismo, crónica, memórias, ensaio, estudos de etnologia e História, biografia, crítica literária, teatro, traduções do latim, grego, espanhol, francês e italiano. Mas na ampla gama de temas e géneros há um elemento em comum: um rigoroso e genial domínio da língua, uma riqueza vocabular tecida muitas vezes com um humor fino, uma especificidade do uso da língua nos romances que nos obriga a uma acuidade mais exigente. O mundo rural da Beira Serrana e as lutas sociais de um povo miserável marcado pela rudeza do trabalho espelha-se com integridade e respeito pela verdade na plástica da sua escrita e no recurso aos termos regionais. As particularidades da sua escrita e a densidade do uso de vocabulário regional justificou a iniciativa do Centro de Estudos Aquilinianos que editou, em 1988, um “Glossário Aquiliniano”. Um recurso precioso que ajuda o leitor menos versado em expressões regionais a conseguir a total fruição da obra de Aquilino. 

Ninguém escreveu como Aquilino e é triste que se construam tantos palcos para tanta mediocridade, exaltando figuras sem qualquer contributo na edificação cultural de um povo e se ignore o que de melhor se produziu (e se produz) em Portugal como é o caso de Aquilino Ribeiro mas é também o caso de muitos valores existentes na actualidade e que se mantêm na penumbra de deuses esquecidos. 

Neste momento, a obra de Aquilino Ribeiro não é de leitura obrigatória nos programas oficiais da disciplina de Português, tanto no ensino básico como no ensino secundário. O enquadramento da polifacetada obra de Aquilino Ribeiro no sistema de ensino actual está organizado, de forma geral, da seguinte forma: no ensino básico há sugestões de textos ou adaptações realizadas pelo escritor, como o caso das viagens de Fernão Mendes Pinto, mas sem o estatuto de exclusividade ou obrigatoriedade nacional que outros autores detêm. No secundário está totalmente ausente da lista de leituras integrais obrigatórias do tronco comum. No programa actual os autores escolhidos são Fernão Lopes, Gil Vicente, Luís de Camões, Padre António Vieira, Almeida Garrett, Eça de Queirós, Fernando Pessoa e José Saramago. 

Recorde-se que a 19 de Setembro de 2007 o corpo de Aquilino Ribeiro foi trasladado para o Panteão Nacional, mas ser desta forma homenageado pelas entidades públicas, ouvirem-se discursos pomposos e recheados de elogios de circunstância para logo a seguir devolver ao esquecimento a obra do homenageado, jamais corresponde a uma postura institucional de respeito pelo legado literário de Aquilino, ou ter uma qualquer ideia do que seja projecto educativo e cultural para o país.

Henrique Almeida, no seu artigo Para Um Enquadramento De Leitura(s) Da Obra De Aquilino Ribeiro[i]salienta a grave lacuna existente no que diz respeito ao corpus existente sobre a obra aquiliana. Salientando uma óbvia necessidade de competência lexical sem a qual se comprometerá o entendimento de um texto seja ele literário ou não, demonstra que as fragilidades no domínio da língua literária de Aquilino, sobretudo vocabular, compreensível no leitor comum para poder percepcionar de forma clara a sua obra, situação que claramente evidencia uma educação de base anémica, não justifica que seja “…ao nível da leitura literária que mais tem faltado -e falhado – a recepção crítica da sua obra”. Apesar universo da crítica literária, ao ter em linha de conta as expectativas do leitor, poder ser levado a negligenciar o escritor “regionalista”, “estilista”, “anticlerical” optando pelos autores que apresentam “discursos menos etiquetados e … mais acessíveis à sua competência comunicativa”, não é, quanto a Henrique Almeida, uma explicação aceitável para o evidente déficit de obras de referência já que, segundo este autor, “está praticamente por fazer a crítica literária das suas obras (…)Não é gratificante reconhecê-lo, mas quase tudo está por fazer este nível da crítica literária. 

O “cronista da Beira” como alguns estudiosos apelidam Aquilino colando-o a um foco narrativo regionalista o que será demasiado redutor como iremos explicar, baseia a sua obra num entendimento da sociedade rural portuguesa fruto de uma proximidade física que cultivava. Não por soberba ou com o exclusivo fito em apropriar-se de matéria-prima para o seu trabalho, mas porque era da sua natureza integrar-se nas comunidades e nos seus ritmos, hábitos, humores e tradições que se tornavam protagonistas na sua obra “De facto, se atentarmos no discurso utilizado por Aquilino, sobretudo o descritivo, vemos como o narrador dá provas de um conhecimento profundo da realidade social e rural portuguesa”[ii]. Mas a obra aquiliana, pelo rigor no uso da língua e domínio cultural da realidade retratada, onde entram as especificidades linguísticas, transcende os enredos urdidos “podendo alguns dos seus livros ser lidos como se de um manual de sociologia etnográfica da primeira metade do século XX se tratasse. E com base nestes elementos fornecidos pelo texto literário, é igualmente possível engendrar outros tipos de investigação, sejam de natureza geográfica, histórica, psicológica, religiosa, ecológica, antropológica, etc.”[iii]

Maria A. Seixo, professora, ensaísta e investigadora, grande especialista em estudos literários, infelizmente falecida este ano, considerou que a terra, o ambiente rural descrito na obra de Aquilino não pode ser encarado como uma mera referência, mas antes como tendo o papel de sujeito. Como bem refere Henrique Almeida, “em relação à presença regionalista, também o autor procurou ultrapassar o mero propósito de descrever a região e os costumes da Beira-Alta. O regionalismo beirão entrou na literatura portuguesa porque ele nos remete para concepções mais profundas do que uma simples descrição ambiental”. Ou seja, o retrato da beira serrana é também o retrato de um Portugal pleno de assimetrias sociais, económicas e culturais. 

Por isso, será legítimo defendermos a ideia de que, muito embora Aquilino Ribeiro seja frequentemente associado ao regionalismo, a sua obra transcende claramente essa classificação. A Beira serrana, cenário privilegiado das suas narrativas, não constitui apenas um espaço geográfico concreto, mas assume um valor simbólico e universal. O autor parte do regional para o universal, do microcosmos local para o cenário mais amplo do país inteiro. As comunidades rurais, a dureza da vida serrana, o peso das tradições, as desigualdades entre ricos e pobres, a relação entre o poder e os mais desfavorecidos ou a luta quotidiana pela sobrevivência deixam de ser apenas características da Beira para se tornarem expressões da condição humana e da própria identidade portuguesa. 

A obra de Aquilino assume assim um significado e importância ímpar porque o seu universo literário está longe de ser uma mera descrição de costumes. Tudo o que encontramos nos seus romances, paisagens, personagens, linguagem popular assume-se como instrumento de reflexão sobre a natureza humana. As personagens de grande densidade psicológica e moral, flutuam entre a generosidade, a violência, a liberdade, fatalismo, o instinto e a justiça, o que confere à sua obra uma dimensão que ultrapassa um mero testemunho etnográfico, apesar de existente e valorizado pela crítica como demonstra o artigo de Henrique Almeida aqui referido.

Em Aquilino Ribeiro, a Beira não é apenas a Beira: é um espaço onde se condensam as tensões de um Portugal profundamente desigual, rural e tradicional, mas também um lugar onde se revelam paixões, conflitos e dilemas comuns a qualquer sociedade. É por isso que a sua obra não pode ser reduzida a uma literatura regionalista, antes constituindo um retrato da identidade portuguesa e, em muitos aspectos, da própria condição humana. 

De resto, convém também dizer que Aquilino não foi um autor que seguisse tendências literárias, escolas, movimentos nem, tão pouco foi alguém que aceitasse escrever em conformidade com os interesses particulares fossem de quem fossem. Aquilino cumpria um trabalho rigoroso comprometido com a palavra e com o estudo profundo de uma sociedade e sempre fiel ao seu lema: Alcança quem não cansa.

No texto introdutório em que o escritor dedica a obra “Andam Faunos Pelos Bosques” a Brito Camacho, conhecido escritor e político republicano, e numa altura em que parece fazer o balanço de um 1º ciclo da sua obra, escreve o seguinte: 

O que fiz é honrado; não plagiei; não extorqui a jóia mais humilde ao mais invulgar dos escritores; não cedi às correntes que hoje são cortejos triunfais, amanhã depenadas Danças da Bica. Perdurei o que sou por temperamento, e adquiri por educação e algum estudo. Confesso esta soberba. Escrevi com o meu sangue; nunca molhei a pena na pia da água benta, nem nos lavabos perfumados das viscondessas. Arranquei as minhas figuras aos limos da terra, às mãos ambas, e amassei-as com a devoção de Machado de Castro ao mundo gnómico de seus presépios. Valem pelo que são. Criando, no sentido restrito do vocábulo, rendo como S. Francisco de Assis a minha homenagem aos Criador.

O que era importante para Aquilino era esse arrancar das “figuras aos limos da terra” estar atento à realidade que lhe dava alimento ao engenho e arte de bem escrever. Abrir os olhos e estar atento para assim conseguir ouvir o povo. Um dia, o escritor Jorge Reis perguntou a Aquilino como conseguia este alcançar a riqueza vocabular existente na sua obra, e o mestre terá aconselhado:

 “ouça o povo a falar, a língua é o povo que a faz. O nosso trabalho de escritores é o de tomar nota porque, a dada altura, o termo criado pelo povo terá o seu lugar nas nossas obras”[iv].

Neste número em que dedicamos um espaço especial à literatura infantil, importa deixar aqui um breve apontamento sobre este género na vasta obra aquiliana. Embora seja conhecido sobretudo pelos seus romances e contos destinados ao público adulto, Aquilino também dedicou espaço literário para os mais novos não se dirigindo a eles em tom paternalista ou usando linguagem básica e com enredos  marcadamente pedagógicos/moralizantes e simplistas.  Ao invés, a sua literatura quando dedicada ao público infantil distinguiu-se pela riqueza da linguagem e valorização da tradição oral não abdicando de revelar o profundo conhecimento do universo rural português. Aquilino procurou estimular a imaginação, o espírito crítico e o contacto das crianças com uma língua viva, expressiva e de grande riqueza vocabular. Os animais, a natureza, as lendas, os contos tradicionais e as personagens populares ocupam um lugar central nas suas narrativas, reflectindo o património cultural da Beira e, simultaneamente, da tradição portuguesa. A sua obra para a infância procura divertir sem deixar de educar, não através de lições explícitas, mas pelo contacto com valores como a coragem, a solidariedade, a liberdade, o respeito pela natureza e a inteligência prática.

Ou seja, para ler Aquilino, mesmo na literatura para a infância, exige-se frequentemente um leitor activo porque a linguagem é rica, recorre a regionalismos, provérbios, humor, expressões populares e descrições muito sensoriais, pelo que muitos dos seus livros são hoje considerados adequados tanto para jovens como para adultos.

Entre as obras mais importantes destinadas aos leitores mais novos encontram-se O Romance da Raposa publicado pela primeira vez em1924 e unanimemente considerado a sua obra-prima para a infância. Inspirando-se na tradição medieval do Roman de Renart, Aquilino cria uma raposa astuta, irreverente e profundamente humana, cuja inteligência lhe permite sobreviver num mundo hostil. A obra combina humor, aventura, crítica social e uma extraordinária observação do comportamento animal.

O que há de extraordinário na literatura de Aquilino para os mais novos é uma postura de rigor linguístico e a convicção de que escrever para as crianças devia obedecer a padrões de qualidade que os iniciasse à grande literatura. Não acreditava que os jovens leitores devessem receber textos empobrecidos; pelo contrário, defendia implicitamente que a infância tinha capacidade para apreciar a beleza da língua portuguesa. Nesse sentido, a sua escrita aproxima-se da de Sophia de Mello Breyner Andresen ou de Matilde Rosa Araújo porque também estas escritoras recusaram uma simplificação empobrecedora da linguagem e nelas, como em Aquilino, vemos as crianças serem encaradas como leitoras inteligentes capazes de entender um texto literário.  

Apesar de assumir sem rebuço posições políticas contrárias às de um regime ditatorial, Aquilino foi reconhecido e homenageado ainda em vida especialmente pelos seus pares. Em 1933, a sua novela As Três Mulheres de Sansão ganhou o Prémio Ricardo Malheiros. Em 1935, torna-se sócio-correspondente da Academia Real das Ciências, embora só  vinte e três anos mais tarde tivesse sido eleito sócio efectivo o que poderá ser um indicador dos incómodos existentes. O Brasil presta-lhe homenagem e condecora-o em 1952 e por cá torna-se o sócio nº1 da Sociedade Portuguesa de Escritores e é eleito como o seu primeiro presidente em 1956. Em 1960 a intelectualidade portuguesa candidata Aquilino Ribeiro ao Prémio Nobel de Literatura. 

Terminamos citando o que se pode ler no Dicionário Cronológico de Autores Portugueses coordenado por Eugénio Lisboa, no seu Vol. III, publicado em 1994 :  “Da sua vida como da sua prosa túrgida emergem a força e a sageza de uma certa rusticidade panteísta (muito mais universal que «regional») que não resiste à tentação dos grandes meios urbanos; a manha, imobilidade e hedonismo do pícaro e a sua paixão pela liberdade; a surda raiva humana que suscitam as injustiças de qualquer cacique; a ironia camuflando a lucidez da denúncia; o gosto do trabalho árduo e diversificado”.

                                                                                                                                                                Paula Timóteo


[i] in MÁTHESIS 2 1993 pp173-190

[ii] idem

[iii] idem

[iv] Retirado de um episódio da RTP Ensina “Aquilino Ribeiro, o escritor das Terras do Demo”Paula Timóteo

Paula Timóteo

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