Azzedine Alaïa e África

Na Fondation Azzedine Alaïa, em Paris

A influência constante de África está patente num dos designers mais célebres do mundo da moda, Azzedine Alaïa”, afirmou Olivier Saillard, curadora da Fondation Azzedine, Paris.

A exposição “Azzedine Alaïa e África”, que teve lugar na Fondation Azzedine Alaïa, em Paris, estará patente até 1 de Abril de 2027, destaca a influência constante de África num dos designers mais aclamados da moda. A mostra revela como as memórias, as paisagens, os materiais e as referências culturais de África inspiraram a visão criativa de Alaïa ao longo de toda a sua obra.

Enquanto consolidava a sua carreira em Paris, Azzedine Alaïa (1935 – 2017), sempre afirmou que a Tunísia — o seu país natal — e o continente africano continuavam a ser influências centrais na sua prática. Vestidos e camisas com aberturas, inspirados nos padrões geométricos das “mashrabiyas”; peças de algodão branco que remetem para a arquitectura caiada de cal, outra fonte de inspiração duradoura para Alaïa.

O evento destaca também o uso particular que Alaïa fazia do preto. Capuzes, silhuetas fluidas e designs minimalistas mostram como o criador utilizava a cor, o material e a construção para moldar as peças de roupa a partir do corpo. As peças das colecções de 1983 e 1984 são um excelente exemplo deste aspecto da sua prática.

Materiais naturais como ráfia, cordel, conchas marinhas e conchas de cauri assumem um papel de destaque nos designs das coleções Primavera/Verão de 1988, 1989 e 1990, refletcindo inspirações provenientes da África Subsariana. Outro capítulo analisa o interesse de Alaïa pelo Antigo Egipto, cujas técnicas de enrolamento influenciaram o desenvolvimento dos seus icónicos vestidos tipo ligadura, apresentados pela primeira vez em 1985. Estes modelos continuam a ser uma das demonstrações mais evidentes da sua mestria técnica e da sua abordagem inovadora à construção.

A exposição inclui também fotografias de Peter Beard que documentam a viagem de Alaïa, em 1996, pelo território Maasai, no Quénia. Estas imagens registam um momento marcante na vida do criador e reflectem o impacto duradouro que a viagem teve na sua visão criativa.

A mostra apresentada na Fondation Azzedine Alaïa — criada para preservar o trabalho do designer, a par das suas extensas colecções de moda, arte, fotografia e design — e com curadoria de Olivier Saillard, destaca o diálogo duradouro entre a memória pessoal, o património cultural e a alta-costura. A exposição permite aos visitantes compreender mais profundamente como Alaïa transformou a sua própria história pessoal e as inspirações de toda a sua vida numa linguagem de design distinta que continua a moldar a prática da moda contemporânea.

Embora tenha conquistado reconhecimento e legitimidade no mundo da alta-costura francesa, Azzedine Alaïa manteve-se, ao longo de toda a sua carreira, fiel à inspiração de um país — e de um continente — que tinha deixado ainda jovem, mas que nunca deixou de o fascinar.

Com um toque de nostalgia, as mashrabiyas vêm-lhe à mente, tal como acontecia quando era criança em Tunes. Estas grades finamente trabalhadas, que esculpem tanto a luz como o olhar, encontram uma espécie de renascimento nos modelos de Alaïa. Realizadas em algodão branco — ainda mais marcante do que as paredes caiadas de cal da sua Tunísia natal —, o designer joga ao esconder com corpos e silhuetas fugazes. As bainhas com aberturas nas saias e camisas revelam e ocultam, tal como outrora. Essas mesmas fachadas caiadas de cal — tradicionalmente salpicadas com água fresca no verão para refrescar os pátios interiores — inspiraram o costureiro a capturar tanto a fragrância como a sensação. O seu brilho deslumbrante, combinado com a leveza dos tecidos que parecem ansiar pelo raro

A brisa das terras quentes continuaria a ser uma constante ao longo de toda a sua obra. Do Norte de África e do seu povo, guardou também a memória de casacos simples, por baixo dos quais se vislumbram camisas compridas às riscas – usadas com orgulho pelos modelos da sua colecção de 1992.

Theresa Bêco de Lobo

Theresa Bêco de Lobo

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