Daniel Teixeira I DoTamanhoDoMundo

“Acredito que o professor deve ser um arquiteto de caminhos, não um mero executor de programas”. 

(Daniel Teixeira, na candidatura ao Global Teacher Prize)

Daniel Teixeira recebe-nos na entrada da Escola onde leciona Educação Visual e Tecnológica, em Benavente, e no amplo sorriso que acompanha os primeiros instantes nós ficamos a saber do entusiasmo invulgar que lhe habita a alma e alimenta o sonho. Tornou-se professor por acaso, quando aceitou um horário temporário de 16 horas na escola de Marinhais “eu não pensava ser professor, na altura o meu projecto era vir a ser designer, só que na época tinha terminado o 12º ano e como não tinha entrado no curso, acabei por aceitar um lugar como professor da disciplina de Trabalhos Manuais” lembra.

O desafio haveria de se apresentar mais complexo do que imaginava porque, como confessa “não tinha qualquer noção pedagógica, nem estava a par do currículo e por isso, quando cheguei ao final do primeiro período, pensei que não só jamais iria dar aulas como nem sequer terminaria aquele ano. Era muito complicado controlar uma aula em todas as suas dimensões”. Porém, e contrariando esta convicção inicial, a experiência acabaria por se vir a tornar gratificante porque “apesar das dificuldades sentidas, tinha gostado de trabalhar o currículo que me fora apresentado e conseguira uma boa relação com os miúdos. Dava-me muito bem com eles” recorda com o brilhozinho das boas memórias no olhar. Naquele seu primeiro ano de jovem professor, o momento chave que o prendeu ao ensino dar-se-ia na entrada do 2º Período. “Quando após a interrupção do Natal regressei e vi a alegria dos miúdos à minha volta e que, espontaneamente, faziam uma festa por se reencontrarem comigo, felizes por eu estar ali outra vez com eles, senti claramente que afinal gostava de ser professor, era aquilo que eu queria ser. Foram os alunos que me conquistaram!” lembra com aquele sorriso que se desenha no rosto quando se revisita momentos felizes. “Fui então para a Escola Superior de Educação de Santarém onde me formei. Durante o tempo de formação continuei sempre a leccionar, porque o “bichinho” não me largou mais. Era, e é, um grande amor! Mais tarde, fiz o mestrado em Inovação Pedagógica.”

Importa dizer que a casualidade que o levou para o ensino não se manteve porque o compromisso que o professor Daniel Teixeira tem com a Escola resulta de uma visão que não é acidental, nem surgida por impulso ocasional e muito menos por um capricho ligeiro. Vem-lhe de um vínculo muito profundo com um ideal de Escola feliz. Está-lhe tatuado na alma e no pensamento um modelo de escola diferente onde o professor, eterno aprendiz, se assume como “orientador que intercala as Aprendizagens Essenciais com outros Saberes em contínuo, tornando a perspectiva da aula e da escola em algo mais elevado” porque “a ideia não é ensinar, mas levar a Aprender”. Uma convicção que se tornou num dos seus lemas a alimentar, um sonho seu em constante crescimento.

Por vezes confronta-se com desafios reveladores da “prevalência de um modelo de Escola e de ensino que, infelizmente, leva a que os professores acreditem que dar aula é incompatível com o facto de nos sentirmos plenamente felizes porque a prioridade e grande preocupação é a de preparar (talvez treinar seja mais adequado?) os alunos para exames, o que não traz felicidade a ninguém. Exames que são todos iguaizinhos, uma realidade discordante com uma realidade marcada, na sociedade em geral e comunidade estudantil em particular, pela diversidade cultural e linguística. Com tanta multiculturalidade fará pouco sentido mantermos tudo igual incluindo os exames. É evidente que temos de ter uma matriz, mas tem de se repensar este modelo baseado num paradigma industrial há muito imposto e há muito ultrapassado. O professor é um profissional que deve assumir uma missão porque se for só profissional não vai mais além” defende.

O olhar crítico de Daniel é abrangente e toca no próprio desenho do currículo “a vida é feita de um todo, uma série de factores que a escola devia incluir naturalmente. Não devia estar tudo tão espartilhado. Só para dar um exemplo, eu acho que o ser humano ia crescer exponencialmente se a cidadania estivesse naturalmente incluída em tudo, em qualquer disciplina, em qualquer contexto, mas de uma forma verdadeiramente efectiva. É fácil de perceber e concordar que transformando a escola transformamos também o ser humano melhorando-o” e tem sido esta uma das grandes batalhas deste professor comprometido com uma Escola que deve ser um verdadeiro laboratório de onde surja uma sociedade mais humanista nas suas práticas. Uma sociedade humana que vá além do habitual enunciado de propósitos que não deixa de ser apenas isso: propósitos sem acções concretas. 

Aliás, há cerca de 4 anos Daniel Teixeira acabaria por se tornar responsável por uma iniciativa que saltaria os muros da escola para se tornar amplamente conhecida a propósito de uma situação de verdadeiro bullyng dirigido a um aluno. A iniciativa que acabaria por se denominar “Todos somos António” partiu de uma situação concreta. António, na altura com 11 anos, sofria de uma doença que lhe provocava grave queda de cabelo e esse facto tornara-o alvo de comentários inconvenientes de outras crianças. E nós sabemos o quanto as crianças conseguem ser cruéis. Para travar os ataques de bullying que o António sofria na escola, o director de turma, nem mais o professor Daniel Teixeira, conseguiu congregar os alunos da turma para a criação de uma acção solidária, que se tornou numa verdadeira lição de amor e união com proporções que Daniel nunca imaginou que alcançaria, mas cujo sucesso o conduziria, acompanhado dos alunos que conseguiu levar, aos estúdios da televisão para partilhar esta incrível experiência além de diversas reportagens realizadas sobre o assunto.

Ainda a propósito desta situação, Daniel gosta de esclarecer que “existem situações inadequadamente qualificadas como bullying e que mais não são do que a revelação de uma impreparação emocional e falta de musculação a nível intelectual dos alunos. Esta lacuna impede-os de identificar o que é de facto uma situação de bullying, fenómeno gravíssimo sobre o qual ainda hoje muitos pais e alunos não têm real noção da sua gravidade, e de o distinguir do que não é. E já para não referir que há muito auto-bullying, o que é um absurdo. As pessoas não têm a mínima noção que são por vezes elas que estão a fazer bullying a si mesmas” considera.

Daniel Teixeira, 57 anos, mestre em Inovação Pedagógica, professor, explorador dos múltiplos mundos que a Escola por vezes torna invisíveis, acredita pois numa Escola diferente. Uma Escola a ser Escola. Uma Escola onde os caminhos são desenhados com felicidade e construção. Uma Escola de olhares vivos, curiosos, pensamentos pulsantes, almas dançarinas da esperança e obreiras do futuro. Uma Escola casulo de um futuro mais solidário e feliz.

Atrevemo-nos também a dizer que Daniel Teixeira se tornou num encantador de crianças semeando nelas a certeza de que são do tamanho do mundo. A meta que lhes é proposta são os 101% que Daniel aponta porque o que ele ambiciona é que agarrem a vida pela mão, soltem o pensamento e descubram que alcançar e construir o conhecimento é a experiência mais avassaladora e que lhes permite irem além das barreiras e obstáculos. Diz o professor Daniel que “quando a escola fascina, o aluno não quer sair de lá porque deseja superar-se e quer o tal 1% de superação todos os dias”.

Em 2017 surgiu o projecto DoTamanhoDo Mundo que concretiza o ideal de ensino que o professor Daniel Teixeira defende. O projecto visa promover um ambiente escolar positivo onde os alunos se possam superar e desenvolver as suas capacidades. Na sua página defende-se a ideia de uma Escola  “como um Local de Culto” onde o “aluno faz parte de um todo construtor, em qualquer âmbito, em qualquer disciplina, com solidariedade, esperança, generosidade e convicção” porque no fundo a ideia é “criar uma escola atractiva, agradável à vista e útil, com espaços lúdico-pedagógicos que serão “salas” ao ar livre, incutindo, lá, desejo de contínua superação”.

DoTamanhoDoMundo nasce de uma insatisfação que Daniel sentia “por não se conseguir dar respostas adequadas ao que os miúdos precisavam em termos de trabalho pedagógico”, mas também é o resultado de uma inquietação que surge muito cedo como explica “ainda era estudante e já nessa altura sentia que o ensino estava descontextualizado e não vejo grande diferença entre o ensino actual e o do meu tempo. Continuamos a ter as mesmas secretárias, disciplinas parecidas… Até podem ocorrer mudanças pontuais em algumas alturas, mas o essencial permanece idêntico. O projeto começou a desenhar-se, a partir do momento em que fiz o mestrado em Inovação Pedagógica, já lá vão uns 15 anos.” 

Apesar do mestrado ter representado uma experiência académica gratificante, Daniel lamenta o facto da existência deste mestrado “não estar a conseguir operar verdadeiras mudanças nas escolas. Na altura em que o fiz, houve muitos professores que acabaram por não apresentar tese e outros encararam a Inovação num sentido restrito e mais ao nível de recursos tecnológicos” ao contrário da visão de Daniel que encarou este desafio numa persepectiva conceptual “como uma ferramenta que deveria ajudar a inovar em união com os meninos, em sintonia e empatia com eles, na aula, na prática diária pedagógica”. Apesar da desilusão sentida ao ter percebido a ausência de operacionalização no terreno de ideias verdadeiramente inovadoras, Daniel não desarmou a vontade nem aplacou a paixão de ter como sonho “uma escola que não seja segmentada, mas que encaixe com a vida.” A luta para que a comunidade entenda que a escola não pode viver numa realidade paralela, auto excluindo-se da possibilidade da felicidade, será talvez para muitos uma quimera, uma utopia, mas é graças a pessoas como o professor Daniel Teixeira que o mundo pula e avança fazendo das utopias verdadeiras revoluções. Porque a aprendizagem deve ser realizada num trabalho de todos, com todos e para todos. 

O projecto acabaria por levar Daniel a ser finalista este ano no Global Teacher Prize Portugal. Inspirado no Global Teacher Prize internacional, frequentemente apelidado de “Nobel da Educação”, o prémio distingue docentes que representam exemplos de boas e inovadoras práticas educativas. O facto de ter integrado um grupo restrito de dez finalistas só por si significa o reconhecimento da excelência do seu trabalho, muito embora o 1º lugar pudesse ter assegurado a projecção do projecto a uma escala nacional que era o pretendido. 

“O que está na raiz de DoTamanhoDoMundo é a ideia de um professor que se entrega por inteiro e que estimula os outros a se juntarem nesse propósito. Eu não gosto de andar a pedir coisas e tentar que os outros pensem exactamente como eu. Sou contra essa clonagem que encontramos geralmente na sociedade” explica acrescentando que gostaria de ver o projecto a alargar horizontes e a não ficar confinado à escola como sente que neste momento se encontra: “Eu queria muito que o projecto se alargasse a uma dimensão nacional até para proporcionar momentos de partilha, receber o olhar de outros, condutor fundamental para o fluir de mais ideias, sugestões de melhoria, críticas, reflexões. Porque crescemos verdadeiramente em colectivo”  

Daniel transborda uma genuína convicção de que é possível e urgente a construção de uma Escola diferente, mas para que a maiúscula faça sentido, o conceito deve ser um património comum a muitos outros agentes educativos. Todos numa polifonia de pensamentos, mas em uníssono num pilar estruturante: o de tornar a Escola “num lugar que devia ser o mais amado e acarinhado do mundo” defende.

O nome invulgar do projeto nasceu do facto do professor Daniel incutir nos alunos a convicção de que eles são do tamanho do mundo, incitando-os, dessa forma, a superarem-se. “Confesso que quando estou nas aulas sou por vezes um bocado provocador para puxar por eles e assim conseguir que eles ultrapassem o que julgam serem os seus limites. E eles crescem muito percebendo isso e quando entendem a ironia das minhas provocações.” 

A ideia dos 101% procura exactamente evidenciar que “em cada um pode haver 1% para a superação. Acredito numa educação 100% profunda e se queremos ter cidadãos, 101%, temos de ser professores fascinados. O ensinar tem de ser irresistível” defende.

Todavia, durante a conversa percebemos que entre os brilhos de entusiasmo surgiam algumas sombras que Daniel explica “Há muito cansaço na classe docente que acaba por se reflectir na fraca disponibilidade de adesão a uma forma diferente de Ser e Fazer Escola” desabafa. Tendo já alcançado alguma exposição mediática, Daniel fica por vezes exposto a comentários que roçam a vulgaridade no que ela tem de soez “Ao contrário do que por vezes ouço, o que defendo não é “conversa fiada” porque efectivamente o que defendo é mesmo trabalhar em Felicidade, em harmonia na aula. Trata-se de um apelo para que se repense a escola e se abandone um modelo inscrito num paradigma industrial que já não responde à realidade actual e aos desafios que a sociedade enfrenta” explica.

Apesar de conquistas e reconhecimento, Daniel sente que a escola ainda carece de uma abordagem mais inovadora e colaborativa, que vá além da mera formalidade para se poder concentrar no bem-estar dos alunos e reforça a ideia do desfasamento deste modelo de Escola com a realidade em que se insere “actualmente este modelo de escola não corresponde às necessidades e anseios do tempo em que vivemos. Provavelmente nem as disciplinas já serão as mais adequadas. A escola, independentemente dos recursos e estado em que se encontre, deve ser um local onde se goste de estar. Por vezes em África até debaixo de uma árvore as crianças gostam de estar a aprender e aqui não encontramos essa harmonia, essa felicidade.” 

Recentemente foi convidado para participar nas “Jornadas Pedagógicas” da região “uma iniciativa que decorrerá no início do ano letivo, como tem sido hábito, sob a organização do Centro Educatis e a Câmara Municipal de Benavente. Este ano com o tema “A Cidade que Educa e Transforma” as Jornadas vão ser compostas por uma manhã no Cine teatro, onde haverá um conjunto de palestras em interação com os 250 a 400 professores do concelho. Haverá a entrega de um diploma porque funciona como acção de formação de curta duração. Depois segue-se o almoço após o qual os professores (por grupos conforme escolha prévia, através de inscrição num formulário) vão conhecer lugares interessantes da região” explica. O convite surgiu directamente da Diretora do Centro que lhe ligou dizendo que era habitual convidarem “gente de fora”, mas que este considerou que tinha no Concelho, e no professor Daniel Teixeira em concreto, o que precisavam.

Daniel deixa-nos com a alma lavada pelo sonho que o move. Não como um Dom Quixote lutando contra moinhos de vento porque o ideal deste professor do TamanhodoMundo não se confunde com fantasias. É realista, lúcido e desejável. 

“O meu irmão diz-me que tenho muitos sonhos e eu respondo com uma citação de Karl Gutzkow “A ação distingue o objetivo do sonho. Mas eu tenho sobretudo um sonho, que poderá ser uma utopia ou até talvez uma megalomania. Conseguir uma verdadeira Escola moderna made in Portugal. Quem sabe se surge alguém que veja o que faço e o meu apelo e consiga financiamento e me diga “mostra aquilo que preconizas, vai buscar quem quiseres e transforma o DTDM numa Escola única criada em Portugal”.

                                                                                                          Paula Timóteo

Paula Timóteo

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