No nosso número de Março falámos sobre a importância da leitura e de como esse hábito deve ser cultivado desde os primeiros dias de uma criança porque ouvir ler também é ler. Mas a literatura pensada para uma criança entre os 2 e os 11 anos não obedece à mesma orquestração de palavras, enredo e construção de personagens que surge com a ficção para adultos.
Convém lembrar que a existência de literatura infantil constitui um campo relativamente recente até porque, de uma forma global, as crianças não eram encaradas como indivíduos com universos especiais a carecer de abordagens especificamente pensadas de acordo com as necessidades etárias, fora as claramente impostas pela natureza. Se hoje se considera a criança um leitor com necessidades, interesses e direitos próprios, durante séculos ela foi considerada apenas como um “adulto em miniatura” e os textos que lhe eram destinados tinham sobretudo uma função moralizadora e educativa sem objectivos de desenvolvimento intelectual, criativo ou cultural.
A literatura infantil e juvenil é, pois, um campo recente quando comparado com outros géneros literários e observar a sua evolução é uma forma interessante e muito clara de entender de que forma as diversas sociedades foram olhando para estas fases precoces da vida.
Antes do século XVII, época em que surgem os primeiros livros especificamente destinados às crianças, não existia uma literatura escrita para os mais novos. As histórias eram transmitidas oralmente e destinavam-se a públicos de todas as idades. O que era narrado e passado ao longo de gerações em muitos serões ou momentos de trabalho colectivo, eram contos populares, fábulas, lendas, mitos ou histórias religiosas que acabavam por funcionar como reguladores morais e sociais, mantendo as populações reféns de medos e crenças. E como é fácil de calcular, em todas as histórias se cumpria a rigor o provérbio “quem conta um conto acrescenta um ponto” e por isso todas estas narrativas foram sendo modificadas ao longo do tempo.
De acordo com os levantamentos existentes sobre as obras que marcaram de forma mais significativa o género que mais tarde influenciaria a literatura infantil, e fazendo um périplo pelo tempo mais distante, destacam-se as Fábulas de Esopo, do século VI a.C., Panchatantra, a mais antiga colecção de fábulas indianas, provavelmente composta entre os séculos III a.C. e III d.C, e as Mil e Uma Noites, contos compilados em árabe entre os séculos VIII e X e traduzidos para o francês no início do século XVIII. Estas obras, apesar de não terem sido escritas para crianças, constituíram uma importante herança narrativa sobre a qual viria mais tarde a desenvolver-se a literatura infantil propriamente dita e por isso tornaram-se fundamentais na literatura infantil.
O nascimento da literatura infantil dá-se no Século XVII e é importante entender o contexto que possibilita o advento deste novo género literário que evidencia um entendimento diferente da infância. A valorização da educação, com um consequente aumento da alfabetização que acompanha o desenvolvimento da imprensa, terá impacto na forma como se encaram as crianças e a noção das suas necessidades e condicionalismos. Charles Perrault, que em 1697 publica Histoires ou contes du temps passé é um autor que se destaca neste período. O conjunto de contos do escritor e poeta francês, hoje universais e que continuam a fazer as delícias dos mais novos e a arrancar suspiros de saudosismo aos mais velhos, inclui histórias como A Cinderela, O Capuchinho Vermelho, O Gato das Botas, A Bela Adormecida. Todas são adaptações de contos populares, os tais com carácter educativo moralizante fundamentais numa época em que se ensinava e se transmitiam saberes e se forjava o carácter através das histórias orais. Estes contos alicerçavam-se sempre em pilares morais e na oposição entre Bem e Mal com a esperada e desejada recompensa da virtude e castigo dos maus tendo acabado por popularizar definitivamente a figura da fada na literatura infantil.
Os filósofos do Iluminismo distinguiram-se pelo seu pensamento racionalista como Jean-Jacques Rousseau que defendia que a criança possuía características próprias e deveria ser educada respeitando o seu desenvolvimento. A nova forma de posicionar o Homem perante a vida e o mundo gerou, naturalmente, ideias inovadoras, conceitos revolucionários e uma alteração de perspectiva sobre as capacidades e características do ser humano. O século das luzes, como ficou conhecido o século XVIII, sobrepõe a razão à fé na procura de explicações e em linha com esse pensamento o uso da lógica e da ciência torna-se a ferramenta preferencial para explicar o mundo ao invés de se optarem por dogmas religiosos. Está, pois, aberto o espaço para os livros educativos e didácticos que nesta época se impõem, a par dos moralizantes, enquanto a fantasia ainda mantém um lugar secundário.
Será necessário esperar pelo século XIX para se alcançar a época de ouro da literatura infantil assistindo-se ao florescimento deste género.
Claro que este incremento espelha um contexto marcado por diversos factores favoráveis como o surgimento do conceito de escolaridade obrigatória e legislação de implementação, em sintonia com a valorização da infância. Apesar de não haver uma diminuição drástica do analfabetismo, em especial em Portugal, o certo é que, em todo o caso, há um aumento dos níveis de leitura o que promoverá o desenvolvimento das edições e das próprias livrarias. A este propósito convém recordar que os séculos XVIII e XIX foram séculos de ouro em Portugal no que diz respeito ao surgimento de livrarias e, neste caso, o nosso país detém um marco histórico já que a Livraria Bertrand, fundada em 1732 em Lisboa, é considerada pelo Guinness World Records a livraria mais antiga do mundo ainda em funcionamento. Outro ícone histórico é a Livraria Lello, aberta no Porto em 1906.
Na Europa, e ao longo deste século, destacam-se nomes incontornáveis da literatura infantil e que passaram a integrar o panteão dos grandes escritores para a infância. Uns com a responsabilidade de perpetuar em compilações o que a tradição oral foi forjando ao longo de séculos, outros traduzindo o que o seu espírito criativo lhes ia ditando.
Os alemães Jacob Grimm e Wilhelm Grimm, conhecidos simplesmente como os irmãos Grimm, são hoje fundamentais em qualquer estante de um qualquer quarto de criança. Com uma diferença de idade de apenas 13 meses, os Grimm distinguiram-se como linguistas e poetas e acreditavam que uma identidade nacional poderia ser encontrada na cultura popular e por isso dedicaram parte das suas vidas a recolher contos construindo uma antologia que tinha o grande propósito de preservar as histórias como elas haviam sido transmitidas de geração em geração. Publicam Contos para a Infância e para o Lar recuperando histórias da tradição oral e do folclore regional das regiões de língua alemã como por exemplo Hansel e Gretel, Branca de Neve e Rapunzel.
Contrariamente ao que se passou com Perrault, apesar deste ainda ter chegado a criar algumas histórias, ou com os irmãos Grimm, o dinamarquês Hans Christian Andersen irá assinar histórias originais como O Patinho Feio, A Pequena Sereia, A Menina dos Fósforos, A Polegarzinha, A Princesa e a Ervilha, O Soldadinho de Chumbo entre outros. Os contos de Andersen, 156 histórias publicados em vários volumes entre 1835 e 1872, foram traduzidos para mais de 125 línguas o que é revelador da dimensão da sua grandeza imaginativa e do seu impacto num imaginário colectivo. Curiosamente, Hans terá conhecido os contos da Mil e Uma Noites através do seu pai que faleceria cedo e deixaria um adolescente Hans bem diferente dos jovens seus contemporâneos a ter de conviver com uma problemática integração social. Provavelmente as agruras da vida terão inspirado em parte as suas histórias que embora facilmente acessíveis às crianças, apresentam lições de virtude e resiliência perante adversidades. O segredo do sucesso dos seus contos é serem generosamente condimentados com o pó mágico da sensibilidade, imaginação, emoção e forte carga simbólica a par de uma crítica social aguda.
Com Lewis Carroll o absurdo e o humor entram em cena com Alice no País das Maravilhas, publicada em 1865. E talvez pela primeira vez temos o entretenimento puro esculpido numa fantasia sem intenção moral explícita sendo considerado um marco na modernização da literatura infantil. Com Jules Verne reconhecemos o nascimento da literatura de aventura e de ficção científica destinada aos jovens com obras emblemáticas e imortais como A Volta ao Mundo em Oitenta Dias, Viagem ao Centro da Terra ou Vinte Mil Léguas Submarinas.
A diversidade da literatura infantil surge amplamente no século XX tornando-se um verdadeiro campo artístico porque a criança deixa de ser vista apenas e exclusivamente como alguém que precisa de “ter lições” e assim a literatura passa a ter como objectivo o desenvolvimento da imaginação, bem como do pensamento crítico, promoção de valores humanistas e exploração de emoções.
Surgem novos géneros como a banda desenhada, o romance juvenil, os livros ilustrados ou a poesia. E há um nome que obrigatoriamente temos de recordar: o francês Antoine de Saint-Exupéry cuja obra, O Principezinho traduz-se num livro simultaneamente infantil e filosófico. Um livro que, convenhamos, é da humanidade, tenha ela a idade que tiver ou viva onde viver. Uma obra com uma linguagem genialmente simples e carregada de simbolismo e significado.
A autora sueca Astrid Lindgren teve uma vida longa e os seus livros estão publicados em mais de 100 países. Tornou-se conhecida pelo seu apoio aos direitos das crianças e dos animais e a sua personagem mais conhecida é a famosa Pipi das Meias Altas que irá protagonizar histórias que realçam a sua irreverência, independência e imaginação.
A partir da segunda metade do século XX , a literatura juvenil afirma-se como género próprio passando a abordar questões como amizade, crescimento, escola, problemas ambientais, exclusão social e as primeiras paixões. Temáticas vivenciadas pelos jovens e que apresentam níveis de fantasia adequados a um outro grau de maturidade. Desta forma, distingue-se finalmente o universo de quem não sendo já criança também ainda não é adulto. Uma consciencialização desta especificidade etária que demorou a surgir. Os autores e obras mais relevantes incluem Michael Ende com a sua A História Interminável, J. K. Rowling com a série de Harry Potter , Philip Pullman e A Bússola Dourada ou Suzanne Collins com Os Jogos da Fome.
Portugal acompanha a evolução da literatura infantil e juvenil, embora com algum atraso relativamente a outros países europeus. Cingindo-nos à contemporaneidade, recordamos que no número de Abril dedicámos espaço àquela que é considerada a pioneira da literatura infantil em Portugal, Ana de Castro Osório, nascida no final do século XIX, e em Maio visitámos a alma poética de Sophia de Mello Breyner que soube como poucos tecer contos infantis com uma claridade poética única. Alice Vieira e António Torrado são igualmente nomes incontornáveis da literatura infantojuvenil sendo dois dos mais prolíficos autores portugueses para a infância. É evidente que não podemos deixar de mencionar Matilde Rosa Araújo que escreveu para todas as idades somando mais de 40 títulos entre contos e poesia para adultos e mais de duas dezenas de livros de contos e poesia para crianças. Foi ainda activa na defesa dos direitos das crianças através da publicação de livros e de intervenções em organismos com actividade nesta área, como a UNICEF.
Mais recentemente, autores como José Jorge Letria, Álvaro Magalhães, e a dupla Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada consolidaram a literatura infantil e juvenil.
Em suma, a evolução da literatura infantil e juvenil reflecte a própria evolução do conceito de infância. De uma literatura essencialmente moralizadora e pedagógica, passou-se para uma produção que reconhece a criança e o jovem como leitores específicos, capazes de apreciar a qualidade literária, a complexidade simbólica e a pluralidade de interpretações. Hoje, a literatura infantil e juvenil é simultaneamente um espaço de fruição estética, de desenvolvimento da imaginação, de educação para a cidadania e de formação de leitores críticos, ocupando um lugar central na educação e na cultura contemporâneas.
Paula Timóteo

