Alice Neel I BEAUTIFULLY IMPERFECT em Serralves

Num número em que dedicamos espaço a homenagear a velhice e sabendo que está patente até Janeiro do próximo ano uma exposição com obras de Alice Neel, uma artista descoberta já no Outono da vida, faz todo o sentido falarmos da sua obra e do que representou uma carreira que navegou contra a corrente.

Alice Neel (1900-1984)  foi uma mulher que recusou colar-se a escolas artísticas e modas conceptuais e que escolheu muitas vezes retratar a velhice não ocultando ou idealizando os sinais do envelhecimento mas assumindo-os como elementos constitutivos da identidade dos retratados sendo o seu autoretrato talvez o caso mais paradigmático. Numa época em que a abstração na pintura era aplaudida e valorizada pela crítica, Alice manteve-se fiel ao que para ela fazia sentido representar: pessoas! Pessoas com as suas imperfeições e o título da exposição, BEAUTIFULLY IMPERFECT, espelha exactamente este entendimento.

Embora seja actualmente considerada uma das grandes artistas norte-americanas do século XX, a sua carreira foi durante muito tempo relativamente marginal. Como já referimos, Neel não se alinhou facilmente com as tendências dominantes da arte americana e enquanto o expressionismo abstracto e, posteriormente, a pop art conquistavam enorme visibilidade, ela continuava a pintar pessoas o que era estranho numa altura em que o figurativo estava literalmente fora de moda.  Mas Neel acreditava que era através do retrato que se alcançava o conhecimento do outro e por isso, nas suas obras há histórias que para serem alcançadas é necessário “escavar” no visível, estarmos atentos e observarmos com tempo descobrindo as personalidades e vivências que se espelham na aparência.

Não deixa de ser curioso que tenhamos aqui falado num outro artigo sobre a evolução da representação dos corpos envelhecidos e termos constatado que, muito embora cumprindo pensamentos distintos, o certo é que a imperfeição de rostos e corpos marcados pela passagem da vida sempre adquiriram interesse e protagonismo por parte dos artistas ao longo do tempo. Eram belos mesmo sem se moldarem aos cânones de beleza que apenas vê na juventude a sua concretização. E com Alice Neel é precisamente a imperfeição do realismo que a atrai.

Nascida na Pensilvânia em 1900, Alice Neel desenvolveu grande parte da sua carreira em Nova Iorque, onde construiu uma obra centrada na representação de pessoas concretas, procurando captar não apenas a sua aparência, mas também a sua dimensão psicológica. Afirma-se como artista na década de 1920 e ao longo do tempo irá assistir a acontecimentos determinantes na moldagem da História.  No final da década de 1920 vive a Grande Depressão a que se seguiu, uma década mais tarde, a 2ª Guerra Mundial. O pós-guerra com o eclodir de movimentos pelos direitos humanos, as lutas sociais e de emancipação feminina, foram determinantes na trajectória da humanidade com impacto na obra da artista. “A história do seu tempo entra na pintura pelas pessoas que retratou e pelas condições sociais em que viveram.” Pode ler-se na nota informativa relativa à exposição em Serralves.

Mas não foram apenas os acontecimentos históricos de que foi contemporânea que cunharam o seu efeito na obra de Neel. A história da sua vida ajuda muito a compreender a sua obra. Alice Neel foi a 4ª de cinco filhos numa família de classe média. Cresceu em Colwyn, perto de Filadélfia, num ambiente familiar relativamente conservador e desde cedo demonstrou interesse pelo desenho e pela pintura. Apesar da resistência familiar a que seguisse uma carreira na área artística, em 1921 ingressaria na Philadelphia School of Design for Women, onde estudou até 1925. Ali Neel pôde integrar a primeira geração de estudantes femininas americanas que puderam trabalhar com modelos nus, algo que ainda era limitado para as mulheres nas instituições artísticas. 

Em 1925, depois de concluir os estudos artísticos, Alice Neel casou-se com o pintor cubano Carlos Enríquez e muda-se para Havana, onde permaneceu durante a segunda metade da década. Cuba foi importante não apenas do ponto de vista emocional, mas também pelo contacto com o ambiente artístico ligado a Enríquez.

Em 1926 nasceu a primeira filha, Santillana, que morreu de difteria no ano seguinte e esta experiência traumática marcaria profundamente Neel com repercussão posterior na sua pintura. Em 1928 nasceu a segunda filha, Isabetta, mas pouco depois, a relação com Enríquez deteriorou-se e, no início da década de 1930, estando o casal já nos EUA de novo, Enríquez partiu para Paris levando consigo a filha. As experiências vivenciadas de maternidade, perda e separação marcariam profundamente a vida de Neel tendo mesmo provocado uma grave crise psicológica que a levaria a uma tentativa de suicídio a que se seguiu um longo internamento.

Esta etapa, embora curta, exerceu um forte impacto na trajectória de Neel porque a experiência pessoal entrelaça-se umbilicalmente com a prática artística e as dores das perdas e vulnerabilidade surgem repetidamente na sua obra. A título ilustrativo refira-se que Alice Neel, apesar de separada da filha, continuaria a pintá-la ao longo de anos.

Durante a década de 1930, Neel viveu sobretudo em Spanish Harlem, uma zona socialmente diversificada da cidade de Nova Iorque que viria a ser fundamental para a sua obra. Pintou os seus vizinhos, crianças, mulheres, trabalhadores, intelectuais e pessoas marginalizadas. O contacto quotidiano com essas comunidades contribuiu para transformar o retrato numa espécie de instrumento de observação social. 

Entre 1935 e 1943, trabalhou para o Federal Art Project da Works Progress Administration (WPA), programa do New Deal destinado a apoiar artistas durante a Grande Depressão. Esta experiência proporcionou-lhe alguma estabilidade económica e permitiu-lhe desenvolver uma pintura atenta à pobreza e às condições de vida urbanas. 

Se durante as décadas de 1940 e 1950, Neel permaneceu relativamente desconhecida, a situação começou a mudar na década de 1960. O ressurgimento do interesse pela pintura figurativa e, sobretudo, a emergência do movimento feminista contribuíram para uma nova valorização da sua obra. 

Em 1971, recebeu um doutoramento honoris causa do Moore College of Art and Design e 3 anos mais tarde, o Whitney Museum of American Art realizou uma importante retrospectiva da sua obra.

Aos 79 anos de idade recebeu o primeiro National Women’s Caucus for Art Lifetime Achievement Award. Vivia então um período em que se tornara uma figura pública conhecida tendo falado frequentemente sobre a condição das mulheres artistas. Em 1981, foi a primeira artista americana viva a ter uma grande retrospectiva em Moscovo. 

Neel continuou a trabalhar intensamente durante a velhice. Em 1980, aos 80 anos, pintou o célebre Self-Portrait, que se encontra actualmente no Metropolitan Museum of Art. Trata-se de uma obra poderosa que nos ajuda a reflectir sobre a representação da mulher idosa. Neel representa-se sentada, nua, sobre uma cadeira, olhando directamente para o espectador sem tentar disfarçar os sinais de envelhecimento, mas não há derrota nem tristeza nesse assumir de velhice. O olhar é tranquilo, mas firme como se nos convidasse para um chá enquanto o corpo ocupa o seu espaço. A mulher de 80 anos reivindica o direito de ser vista como um todo em que corpo e rosto não podem estar dissociados porque são ambos membros integrantes de uma só pessoa: ela própria, Alice Neel. E este posicionamento é significativo na história da representação feminina. A velhice surge como afirmação, não como decadência reivindicando o direito a uma representação feminina que transcenda as estreitas margens do que o desejo masculino dita. Alice Neel continuaria a pintar até pouco antes da sua morte, em Nova Iorque, a 13 de outubro de 1984, aos 84 anos. 

Há uma ligação muito forte entre a vida e obra em Alice Neel porque Neel era uma observadora nata e profundamente interessada na condição humana o que fica claramente demonstrado por aquilo que a própria artista dizia de si própria descrevendo-se como uma «collector of souls» ou seja, uma “colecionadora de almas”. Para ela, o retrato não consistia simplesmente num conjunto de traços e pinceladas tentando reproduzir a imagem do retratado e que era visível por todos. Ela procurava captar a vida que o rosto contém, a soma das suas dimensões emocionais e experiências vividas. 

A pintura de Neel é frequentemente descrita como expressionista, sobretudo pelo seu uso da cor, da linha e da deformação para transmitir a personalidade do retratado, mas seria redutor limitá-la a uma corrente até porque ela caminhou, de certa forma, contra as correntes existentes. A sua pintura é mais adequadamente entendida como uma forma de figurativismo expressionista. Podemos observar na sua pintura alteração de proporções, exagero de características, posturas entre o rígido e tenso e o mais descontraido. A fidelidade a que Neel se obriga e se sente vinculada não é à aparência exterior, mas à personalidade e ao estado emocional do retratado.

Neel não procurava fazer um retrato fotograficamente exacto. O que lhe interessava era dar a conhecer quem estava por detrás da aparência e se tivesse de recorrer a cores intensas e deformações, poses pouco convencionais e fundos simplificados porque eram secundários, pois que fosse. Ou seja, transformava o visível para melhor retratar a intimidade da alma. Talvez tenha sido aqui que residiu a característica mais claramente expressionista da sua pintura, um expressionismo ao serviço da psicologia do retratado. Pintar um rosto, uma figura de corpo inteiro passou a ser um exercício e um desafio de interpretação do retratado porque afinal, se desejamos uma cópia fiel, recorremos à fotografia. 

Por isso, quando olhamos para um retrato de Neel, temos frequentemente a sensação de que a pessoa está a olhar para nós questionando-nos sobre se a estamos de facto a entender e conhecer. Este é o motivo que leva a que se considere que Alice Neel protagonizou um momento interessante na forma como a arte passou a trabalhar o tema da velhice abandonando o hábito de representar o velho como símbolo fosse do que fosse: sabedoria, decadência, proximidade com a morte ou uma oportunidade de mostrar o grotesco. Neel apresenta a pessoa envelhecida como sujeito com uma história, personalidade e uma identidade próprias.

Nos retratos de idosos, Neel mostra como o tempo se inscreve no corpo e no rosto sem que estes se apresentem apenas como uma superfície que o tempo deteriorou. Um corpo e um rosto são a antecâmara de uma vida e isso fica bem plasmado nos retratos que faz de idosos, verdadeiras ânforas de memórias desenhadas nas rugas, manchas da pele e postura sem que com isso percam a dignidade porque essa reside exactamente na história de vida de cada um. O mesmo conceito, a mesma perspectiva foi aplicado aos retratos de crianças, adolescentes, mulheres grávidas, artistas, trabalhadores, pessoas marginalizadas. No rosto de cada um Neel expõe as camadas psicológicas que os compõem até porque, fiel a uma abordagem humanística na pintura, afirmaria em 1950 “para mim, as pessoas vêm primeiro”, declaração que deu nome à exibição de uma retrospectiva da sua obra em 2021 no MET.

Mantendo a figura humana no centro do seu trabalho durante os anos em que a abstração era valorizada pela crítica, museus e galerias norte-americanas, Neel manteve-se fiel à convicção de que a imperfeição fazia parte da própria existência. Por isso o título da exposição, Beautifully Imperfect, a primeira da artista em Portugal, é uma excelente forma de condensar em duas palavras o essencial do paradigma conceptual de Neel, a sua forma de olhar o outro diante de si, de pintar e de viver. Considerada por muitos uma artista excêntrica, determinada e irredutível perante as convenções, Neel apenas rejeitava a artificialidade dos ideais de beleza e preferia mostrar os corpos, os rostos dando visibilidade e realce às costuras do tempo e da vida tal como eram. Familiares, vizinhos, trabalhadores, imigrantes, escritores, ativistas, políticos e figuras públicas, pessoas próximas ou desconhecidas, todos receberam a mesma atenção o mesmo interesse, independentemente da profissão, da origem ou do estatuto social. Neel pintava pessoas reais na sua complexidade individual e social. 

Fica a sugestão para visitar Neel deambulando com vagar e atenção pelas obras expostas na exposiçãoBeautifully Imperfect, organizada pela Fundação de Serralves, Museu de Arte Contemporânea, com curadoria de Inés Grosso, curadora-chefe do Museu de Serralves. A exposição reúne obras de diferentes períodos do percurso de Neel, de 1926 a 1983, um ano antes da sua morte, e está organizada em pequenos núcleos temáticos estruturados de forma não cronológica. Vale a pena visitar.

                                                                                                                                                                Paula Timóteo


Paula Timóteo

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