De 30 de Setembro de 2026 a 4 de Abril de 2027, o Musée des Arts Decoratifs, Paris celebra os 40 anos da criação, em 1986, do Musée des Arts de la Mode nas suas instalações, com a exposição “Look! 40 Anos de Moda no Museu”.
Este projecto destaca as criações que, desde os ateliês de costura até aos bastidores do museu, transformam a peça de vestuário numa obra de arte, estatuto consagrado por quatro décadas de exposições de moda. Concebida como uma imersão nas duas vidas da peça de vestuário — desde a sua concepção até à sua apresentação nos desfiles; desde a sua entrada nas colecções nacionais até à sua apresentação no museu –, a exposição revela as etapas da sua confecção, da sua apresentação e da sua conservação. Desde 57 silhuetas, desenhos, bordados, moldes, arquivos e fotografias de moda, até as 220 obras provenientes das colecções reunidas da UFAC e do Musée des Arts Decoratifs revelam a riqueza dos processos criativos e a forma como a peça de vestuário se torna um objecto patrimonial.
Na nave central do museu, 40 silhuetas das grandes casas de moda oferecem uma visão geral das principais exposições apresentadas desde 1986, entre as quais “Momentos da Moda”, “Christian Dior, o costureiro dos sonhos”, “Shocking! Os Mundos Surrealistas de Elsa Schiaparelli”, “Brincar com a Luz” ou ainda “A Mecânica da Lingerie”. Estas exposições testemunham a diversidade das abordagens do museu, entre a celebração da alta-costura, a abertura à criação contemporânea e a reflexão sobre o papel cultural e social da peça de vestuário. A curadoria geral da exposição está a cargo de Bénédicte Gady, directora dos museus, e a curadoria científica de Sophie Lemahieu, conservadora responsável pelas colecções de moda contemporânea.
A mostra foi concebida como uma imersão na vida do vestuário, ela ocupa
a nave central e as suas galerias laterais numa cenografia minimalista que evoca simultaneamente os ateliês de costura e os armazéns do museu. O percurso organiza-se em três grandes etapas que conduzem o visitante dos bastidores da criação
aos do museu, do esboço inicial à exposição, do nascimento de um modelo à sua transmissão patrimonial. Já a partir da escadaria de honra, algumas obras-primas deixam-se adivinhar na nave central: um vestido com saia de cesto do século XVIII, um quimono assinado por John Galliano ou ainda o mítico vestido usado por Mireille Darc em “O Grande Loiro com um Sapato Preto”. O visitante inicia a sua descoberta na galeria das Tuileries com uma projecção de desfiles contemporâneos concebidos como verdadeiras performances artísticas.
Estas convidam-no a entrar no universo dos ateliês e a explorar as grandes etapas da criação da Alta-Costura e do Prêt-à-Porter de luxo.
Num espaço aberto inspirado no mobiliário das oficinas, a cenografia recria a efervescência do nascimento de um modelo. Em grandes mesas com cavaletes e em várias vitrinas são apresentados desenhos, moodboards, amostras têxteis, tecidos, moldes e protótipos, revelando os diferentes momentos que conduzem da ideia à peça de vestuário acabada. Cada criador desenvolve a sua própria linguagem: Pierre Balmain fixa as suas ideias através do esboço, Madeleine Vionnet, que trabalha directamente o tecido no manequim, enquanto Maria Grazia Chiuri compõe painéis de inspiração repletos de referências visuais. Os álbuns de amostras têxteis permitem também descobrir a importância da escolha dos tecidos no cair e na aparência final da peça de vestuário.
Os protótipos revelam o momento em que a ideia ganha volume, enquanto
os moldes revelam a arquitectura da peça e a precisão do trabalho de corte.
A exposição destaca também os ofícios artísticos que acompanham as casas de Alta-Costura, através de objectos raramente apresentados ao público.
As amostras de bordados das casas Rébé e Lesage dialogam com as máquinas de plissar da casa Lognon, enquanto os tecidos estampados da Brossin de Méré ecoam as técnicas contemporâneas de impressão 3D.
Estes objectos testemunham a excelência dos saberes que contribuem para a criação de uma peça de moda. Esta primeira galeria termina com um conjunto de fotografias de moda que consagram a peça de vestuário como imagem e como objecto de desejo mediático. Algumas foram realizadas no próprio Musée des Arts Decoratifs, cujos espaços se tornam o cenário de verdadeiras encenações fotográficas.
Ponto alto da visita, é a nave que acolhe 40 silhuetas icónicas apresentadas como se fossem esculturas num jardim de papel. Sob uma instalação luminosa que evoca fios de costura, as passarelas lembram fragmentos de moldes recortados, como um eco entre a ferramenta de criação e a obra concluída. O visitante passeia entre as criações da Maison Margiela, da Maison Balenciaga, da Chanel (por Karl Lagerfeld), de Christian Lacroix, de Valentino ou de Azzedine Alaïa, cada uma delas representando uma exposição marcante organizada pelo museu entre 1986 e 2026, no âmbito de cerca
de 70 exposições dedicadas à moda. De “Yves Saint-Laurent. 28 anos
de criação” a”Paul Poiret. A moda é uma festa”, passando por “Christian Dior, costureiro dos sonhos” ou “Traje adequado obrigatório”, este conjunto ilustra a diversidade das abordagens do museu, desde as obras-primas da alta-costura
até à criação emergente e à reflexão sobre o papel cultural e social do vestuário.
Nas oficinas de restauro, a beleza dos gestos anda de mãos dadas com as análises científicas no estudo e na preservação de materiais antigos e contemporâneos, desde a radiografia até às questões relacionadas com os têxteis modernos. Etapa essencial e pouco conhecida das exposições de moda, a montagem de manequins consiste em …de devolver forma e presença à vestimenta, respeitando sua integridade. Um busto de manequim exibido sem a roupa permite, assim, revelar o trabalho de escultura e modelagem realizado para acomodar as peças.
Por fim, uma última sala dedicada aos cartazes e catálogos das exposições organizadas pelo museu ao longo de quarenta anos atesta a importância do design gráfico na identidade visual desses eventos.
Etapa por etapa, esta exposição compõe, assim, uma verdadeira ode à moda e a todas as pessoas que a criam, a preservam e a enaltecem.
A galeria Rivoli revela a segunda vida das peças de vestuário no museu e destaca os ofícios daqueles que trabalham na preservação deste património. Organizada como uma sucessão de recantos que evocam os espaços de trabalho habitualmente invisíveis ao público, esta galeria mergulha o visitante nos bastidores da instituição. A exposição aborda, em primeiro lugar, as modalidades de aquisição das obras e presta homenagem aos doadores, mecenas e à União Francesa das Artes do Traje (UFAC), cujas colecções estão, juntamente com as da União Central das Artes Decorativas, na origem da criação do Musée des Arts de la Mode. O trabalho dos documentalistas é revelado através de fotografias, desenhos, convites para desfiles, processos de aquisição, recortes de imprensa e arquivos de restauro, que permitem traçar a história das obras e compreendê-las melhor.
O visitante pode ainda descobrir, em seguida, os desafios da conservação têxtil nos depósitos, onde as peças de vestuário são acondicionadas a plano em caixas ou penduradas em cabides almofadados, denominados “morfológicos”. Estes depósitos são também locais de inspiração para alguns criadores, como Dries Van Noten.
Theresa Bêco de Lobo

