
Há uma visão de lar que habita o imaginário de tantos de nós onde a sábia presença dos avós não falha. Porto seguro dos nossos pais, âncora da família, colo descontraído dos netos, os avós são um doce mel com que se moldam as histórias de uma infância que mais tarde percebemos ter sido afinal tão curta, tão esmagadoramente apressada. Conotados em contos infantis e filmes de animação com uma imagem de idosos simpáticos rechonchudos e benevolentes, as avós a fazerem bolos e os avôs a lerem o jornal num cadeirão de orelhas, essa, porém, é uma realidade que começa a estar um pouco ultrapassada, ou tem um segmento cada vez mais significativo que já não cabe nesse paradigma. Muitos avós de hoje são menos, digamos…idosos. Menos conformados com a degradação física, dedicam-se a actividades físicas impensáveis há uma meia dúzia de décadas conscientes que esse é o caminho seguro para uma longevidade saudável e autónoma. Praticam atletismo em diversas modalidades e já começa a ser comum encontrarmos nas pistas de atletismo ou em competições de estrada gente com idades a superarem os 70, 80 e até os 90 anos além do crescente aumento de adeptos das actividades aquáticas e de ginásio. Os avós de hoje também se tornaram mais exigentes com o tempo, o tempo que lhes resta e que desejam que seja significativo e por isso, apesar de disponíveis para os filhos e netos, e adorarem essa oportunidade, reivindicam como suas as horas que o dia oferece. E é salutar que assim aconteça porque é fundamental poderem usar de espaço temporal e físico da forma que entenderem. Seja a praticar actividades desportivas, artísticas, viagens ou simplesmente a conviver com amigos, o importante é a promoção da felicidade em parceria com a saúde física e mental porque é aí que reside o segredo de uma contínua aprendizagem e musculatura intelectual. Atrasar o declínio depende muito da aceitação de que se aprende até morrer e que é possível mantermo-nos ágeis de pensamento e mobilidade. E esta conquista não beneficia apenas os próprios porque tem impacto frutuoso no acompanhamento dos mais novos. É claro que com o avançar da idade da reforma há cada vez mais avós profissionalmente ainda no activo o que limita todos os cenários, tanto o apoio dado aos netos como o tempo dedicado a si próprios.
Mas se hoje os mais velhos se dividem entre a sua vida que ainda obedece a ritmos próprios e o apoio dado aos netos embora num espaço independente sem coabitar com filhos e netos, houve um tempo em que o núcleo familiar alargava-se acolhendo 3 gerações. Nesse tempo, historicamente não muito distante, o idoso era, por norma, encarado como uma autoridade muito respeitada. O seu conhecimento era vital particularmente para a sobrevivência das famílias que funcionavam como unidades económicas e para as comunidades em geral pelo papel aglutinador, mediador de conflitos e transmissor de aprendizagens, funções que se alargavam além da família. Para além de serem depositários da memória familiar e comunitária, transmitindo tradições e eventos passados, os idosos tinham frequentemente autoridade sobre decisões familiares e comunitárias exactamente porque se valorizava o seu património de sabedoria empírica além de participarem activamente na educação dos mais novos. Portanto, nesse passado que já nos parece distante, encontramos os idosos a desempenhar um papel de maior relevo e com verdadeiro significado, sem a patética infantilização com que por vezes se vê hoje a serem tratados. Hoje, assistimos a posições onde se parece descartar o papel educativo dos mais velhos contrariando a ideia de que para educar uma criança é necessário uma aldeia.
Houve assim um tempo em que a importância dos mais velhos sustentava-se em funções que hoje parecem empalidecidas principalmente quando a sua importância parece residir exclusivamente na sua função de guardiões dos netos.
Claro que a velhice chegava mais cedo e durava menos tempo que atualmente. De acordo com dados existentes, em 1950 uma pessoa que chegasse aos 65 anos podia esperar viver, em média, mais 13,6 anos. Hoje, pode esperar viver mais 20 anos. Isto significa que a experiência de ser avô/avó, bisavô/bisavó e membro idoso de uma família prolongou-se de forma significativa sobretudo a partir da segunda metade do século XX. Em simultâneo, temos uma queda na natalidade o que faz com que, em média, uma família tenha menos membros de cada geração, mas mais gerações vivas em simultâneo o que, na demografia, se costuma designar por verticalização das estruturas familiares.
Porém, vivemos uma época em que a par da natural e gradual degradação biológica com perdas ao nível da imunidade, força física e resistência, que podem ser mitigadas através da manutenção de actividade física e intelectual como já foi mencionado, mas ainda assim uma realidade, também assistimos a perdas do papel social que os idosos podem assumir. De uma forma mais ou menos subtil os mais velhos são muitas vezes requisitados para tomar conta dos netos, mas é-lhes interdito o exercício do papel educativo sobre os mais novos além de serem afastados de outras funções na comunidade.
No que convencionalmente designamos por mundo ocidental, talvez possamos apontar como época de mudança e de forma muito genérica como sendo aquela que se seguiu à revolução industrial. A industrialização fabril provocou uma drástica mobilização de populações com alterações profundas no tecido social e uma alteração de referências. Assim, a partir do século XVIII as transformações sociais, demográficas e económicas ocorridas tiveram reflexo nas famílias cuja dimensão intergeracional diminuiu reduzindo-as ao núcleo básico de pais e filhos.
Em simultâneo, a autoridade baseada na idade foi sendo substituída por outros critérios como a autonomia económica, profissão, conhecimento especializado. Com a democratização escolar que permitiu um evidente alargamento social no acesso ao ensino, a que se somou uma extensão vertical em níveis de ensino alcançados, vamos assistir ao facto de ainda muito jovens os descendentes aparentarem um conhecimento, especialmente em determinadas áreas, superior ao dos pais e muito mais distante ao dos avós. O saber empírico perde visibilidade e validação social para dar lugar ao conhecimento científico e técnico.
Ao mesmo tempo, a Segurança Social, os serviços de saúde e as instituições residenciais foram criando respostas, muitas vezes longe do que seria desejável, para uma velhice que passou a ser cumprida fora do contexto familiar.
Isto teve consequências importantes para os mais velhos, mas também para os mais novos. O distanciamento físico e emocional em relação aos mais velhos cavou fossos de intercâmbio de vivências salutares para ambas as gerações e cruciais como fonte de crescimento. Um crescimento dos mais novos que perde parte da sua sustentação em laços de respeito e solidariedade, empatia e respeito pelas fragilidades e diferenças culturais. Os avós perdem porque o seu amadurecimento deixa de ser reconhecido de forma genuína e sem condescendência paternalista.
Hoje temos vários cenários que ocorrem em simultâneo com a geração de ouro. Ora independentes e disponíveis para os apelos que os filhos lhes lançam em desespero com um mundo laboral cada vez mais selvático, ora fisicamente diminuídos e relegados a uma nula função na sociedade. As respostas criadas pelos organismos do Estado apenas pretendem “guardar velhos” numa confinação de lares que nada têm de verdadeiro lar. Em múltiplos casos a degradação intelectual e por inerência a física dá-se de forma galopante nestes lugares quando bem se podiam criar mecanismos de ligação aos mais novos com verdadeiros ganhos culturais e intelectuais para todos. No mês que começa exactamente com a celebração internacional do dia do idoso, tenhamos nós a capacidade de não ignorar o património vivo que eles representam. Deles faz parte por inteiro grande parte da Educação dos mais novos porque, como já ouvimos tanta vez “quando morre um idoso, é como se se incendiasse uma biblioteca”.
Dormindo sob o mesmo tecto ou em tectos distantes e mantendo uma vida pessoal independente os avós continuam a representar um papel estruturante como uma plasticina colorida e aromática que aconchega, une, transforma-se, adapta-se. Seja a sociedade suficientemente inteligente para compreender, respeitar e escutar a geração dos avós e bisavós.
Paula Timóteo

