No mês que se inicia a celebrar a velhice, será curioso observar brevemente de que forma a arte ocidental acompanhou as mudanças conceptuais acerca dos velhos ou seja, a forma como o mundo ocidental foi olhando e sentindo o processo do envelhecimento. Simples degradação do corpo e do pensamento? Sinónimo de mais sabedoria? Algo a esconder e a lamentar? E a marginalização e vulnerabilidade dos idosos? Se observarmos com atenção e seguirmos o trajecto deste olhar sobre os velhos, constatamos que ao longo do tempo tanto podem surgir como símbolo de sabedoria e autoridade, como podem ser representados através de figuras grotescas ou decadentes simbolizando com dramatismo a passagem do tempo e da morte. A forma como cada época viu o envelhecimento dos corpos traduziu-se necessariamente na sua representação através da arte porque esta tem sido sempre o espelho das gentes, dos lugares e dos tempos.
Viajemos até à arte da Antiguidade clássica onde encontramos duas representações interessantes. Por um lado, temos o homem velho como uma figura de sabedoria e experiência, conferindo-lhe autoridade intelectual como acontecia no contexto da cultura política e filosófica greco-romana em que eram aos mais velhos que se procurava conselho e se esperava boa governação. Mas como a arte clássica pretendia ser fiel à realidade, a representação do corpo envelhecido pugnava-se pelo realismo. Desta forma encontramos os evidentes sinais físicos do passar dos anos nas rugas que não se atenuam, na flacidez de um corpo que perde naturalmente a tonicidade, no encurvamento das costas. O declínio físico está presente, mas é visto com a dignidade que a velhice deve reclamar e com uma beleza intemporal.
Não se procurava “maquilhar” ou disfarçar os sinais físicos porque a beleza também se encontra nas curvas do tempo traçadas na pele de um velho.
Um exemplo é a representação helenística de Silenos, preceptor e conselheiro do jovem deus Dioniso, frequentemente apresentado como um velho corpulento, de corpo flácido e rosto enrugado ou no busto de um patrício romano de Otricoli, uma obra em mármore, datada de cerca de 75–50 a.C., actualmente associada à colecção Torlonia, em Roma. O artista é desconhecido e, sobretudo, não se conhece o nome do homem representado cujo realismo do rosto envelhecido se concretiza nas rugas profundas, na pele flácida, nas bolsas sob os olhos e expressão severa.

Busto de um patrício romano de Otricoli
A tradição clássica assumia de forma reconhecida a fragilidade ou os sinais físicos do envelhecimento, mas esse facto mostrava-se compatível com a atribuição ao ancião de autoridade intelectual ou moral.
Ainda antes do Renascimento o velho mantém o estatuto de sabedoria e experiência, mas esta proximidade da morte vem acompanhada de uma aura mística de brevidade no encontro com o divino salientando a vulnerabilidade da existência terrena.
A idade avançada não aparenta apenas decadência física, mas surge com uma tonalidade que lhe confere nobreza. Não esqueçamos que o próprio S. José surge representado como um ancião de cabelos e barbas brancas até ao século XVI quando passa a ser apresentado como um homem mais novo.
A arte durante a Idade Média parece reforçar esta ideia da velhice como tempo de preparação para a morte e ao observarmos os corpos envelhecidos inevitavelmente reflectimos sobre a transitoriedade da vida contemplando a proximidade do seu fim.
O Renascimento, como bem sabemos, é a época onde se renovam os conceitos clássicos de perfeição e beleza. Num movimento de revalorização da cultura clássica, depois de séculos em que a cultura europeia esteve profundamente marcada pelo pensamento cristão teocêntrico, o homem do Renascimento vai beber à Antiguidade o néctar do que melhor se fez e pensou. Os cânones artísticos são redescobertos na Grécia Antiga, mas também na Roma imperial que os assimilara e reinterpretara. Nesta medida, o corpo humano, numa perspectiva cada vez mais realista, recupera protagonismo, num momento em que se vive o tempo áureo do antropocentrismo que coloca o Homem como agente do devir da humanidade, como artificie das suas maiores realizações.
O artista renascentista começa a observar o corpo envelhecido com uma atenção anatómica e psicológica extraordinária. Mas se o Renascimento recupera o corpo humano como objecto privilegiado da arte, o que acontece quando esse corpo deixa de corresponder a um ideal de juventude, proporção e beleza? É precisamente aí que entram artistas como Leonardo, Dürer, Michelangelo e outros porque a redescoberta do corpo não significou apenas a representação do corpo jovem e perfeito ela também abriu espaço para a observação minuciosa do corpo envelhecido e imperfeito.
Leonardo da Vinci desenhou numerosos estudos de cabeças envelhecidas, procurando compreender a anatomia, a expressão e as transformações provocadas pelo tempo.

Leonardo Da Vinci, auto retrato

Quinten Metsys, Cabeça de um homem velho
Por volta do ano de 1525 o artista flamengo Quinten Metsys, pinta esta extraordinária Cabeça de um homem velho, um óleo sobre madeira exposta actualmente no Museu Nacional d’Art de Catalunya em Barcelona. Esta representação é particularmente interessante porque nos revela não apenas um rosto envelhecido, mas singular. O seu carácter naturalista fica marcado não apenas pelos traços vincados e longa barba, mas pelo olhar carregado de cansaço, de reflexão sombria. Uma resignação que nos é dita através de uns olhos fundos. E temos o nariz proeminente distintivo, que individualiza o retrato. A velhice passa assim a poder ser um objeto de estudo artístico em si mesmo.
Durante os séculos XVI e XVII e sobretudo na pintura dos Países Baixos, de Itália e de Espanha o velho torna-se personagem e Rembrandt foi um artista fundamental pintando repetidamente homens e mulheres idosos, incluindo autorretratos em diferentes fases da vida.

Rembrandt, Retrato de uma velha senhora, 1654

Rembrandt, Cabeça de um homem idoso, 1630
No Barroco encontramos uma representação particularmente poderosa dos corpos e os habituais padrões de beleza perdem importância.
Caravaggio, pintor italiano considerado por muitos como o mais revolucionário do Barroco, é reconhecido pela grande expressividade de suas obras marcadas por um poderoso contraste entre luz e sombra.
A pintura de Caravaggio, exibe um realismo que nos surpreende porque não cede a arquétipos de beleza ideal optando pela representação de tipos populares encontrados nas ruas de Roma e privilegiando frequentemente personagens velhas, pobres e fisicamente marcadas pela vida.

Caravaggio, pormenor da figura de Abra, a criada idosa de Judite no quadro Judite decapitando Holofernes, c. 1599, óleo sobre tela, Gallerie Nazionali d’Arte Antica – Palazzo Barberini, Roma.
No século XVIII começa a ganhar força outra tendência: a representação social e psicológica. A velhice surge nos retratos de aristocratas e intelectuais, mas também quando a sátira é usada como instrumento para melhor realçar determinados comportamentos ou características. Neste sentido, a caricatura começa a explorar os estereótipos relacionados com a idade surgindo personagens como o velho avarento, a velha vaidosa, o velho apaixonado. Sentimos que se instala uma ideia da velhice que, lamentavelmente, perdurará na cultura ocidental e que a associa não apenas à perda da beleza da juventude como às inúteis e ridículas tentativas de a recuperar. Uma associação que será particularmente importante a partir do século XIX quando a velhice se torna um problema social.
E há um artista que galgará a fronteira para o século seguinte que sobressai porque foge aos cânones habituais e choca pelo lado grotesco que opta por traçar e representar: Francisco Goya. E Goya representa a velhice de uma forma extremamente ambivalente. Tão depressa encontramos idosos frágeis e ridículos como noutras surgem como figuras assustadoras.
A pintura Las Viejas é exemplar: duas mulheres procuram preservar uma aparência jovem através de espelho, maquilhagem e adereços.

Goya, As velhas
No século XIX a Europa vive a explosão da industrialização com efeitos na expansão descontrolada das áreas urbanas e aumento demográfico. A transformação da família acompanha estes novos compassos na orquestra da sociedade e o lugar dos idosos altera-se profundamente. A arte espelha os ventos da mudança e por ela ficamos também a conhecer a pobreza, abandono, solidão, mendicidade e doença que os idosos sofrem havendo também a realçar as diferenças entre a velhice rural e a urbana.

José Malhoa, Velha Fiando
A velhice deixa de ser apenas uma questão individual ou moral e começa a adquirir uma dimensão social exibindo velhos que revelam as marcas que o trabalho lhes imprime. Um exemplo muito interessante é a pintura realista, que procura mostrar a realidade das classes populares sem a idealizar.
No contexto português, artistas como José Malhoa (ver artigo na revista de Abril de 2025) e Silva Porto apresentam figuras populares e rurais que podem ser lidas também através da idade, do trabalho e do desgaste físico.
Quando chegamos ao século XX testemunhamos a polarização da representação da velhice. A arte moderna deixa de procurar representar “a velhice” segundo um modelo único. Esta diversificação de olhares e percepções reflete as próprias contradições do século XX: por um lado, uma sociedade que prolongou a esperança de vida como nunca e por outro, um mundo fortemente marcado por novos paradigmas económicos que priorizam o tempo dedicado à profissão e capacidade de rápida adaptação a uma cada vez mais rápida evolução tecnológica. A forma como se gere o tempo torna-se uma obsessão e gradualmente incorpora-se a ideia de que a família é secundária. A aceleração desta nova época condenou ao isolamento e marginalização quem não consegue acompanhar o ritmo dos tempos modernos bem como ao afastamento do núcleo familiar de muitos idosos condenados a uma solidão letal.
Ao contrário de séculos anteriores, onde os idosos eram frequentemente retratados sob arquétipos rígidos (como o velho sábio ou o avarento), o século XX trouxe várias possibilidades de representação que as vanguardas souberam mobilizar. As crises das guerras mundiais, os colapsos económicos, o progresso da ciência com a consequente revolução da longevidade, o abandono dos velhos, as convulsões sociais, são exemplos do curso de uma História veloz. As visões artísticas tornam-se intensamente contrastantes e há artistas que pintam os seus ascendentes como forma de dar visibilidade à memória, outros que veem o velho como indivíduo com todos os seus fantasmas e histórias de vida espelhados, e outros ainda que escolhem o velho como vítima, seja da guerra, da pobreza, da marginalização e secundarização do seu património de conhecimento, das catástrofes ou doença. Käthe Kollwitz tornou-se um caso singular tendo sido uma das mais importantes artistas dentro do movimento expressionista alemão e certamente uma das artistas mais politicamente envolvidas e empenhadas do século XX. Representou muitas vezes mulheres e homens pobres, mães e pessoas envelhecidas.

K.Kollwitz, meia figura de uma mulher com braços cruzados
Com ela a velhice surge ligada à pobreza, à perda e à experiência histórica. O rosto envelhecido possui peso, resistência, dignidade.
Sobre Alice Neel, outra grande artista do século XX dedicada às representações figurativas e que teve nos velhos um dos seus temas mais trabalhados, remetemos para a leitura do artigo que a ela dedicamos neste número
Pablo Picasso, por sua vez, ofereceu uma outra perspetiva interessante. Na sua obra observamos velhos, mulheres envelhecidas e corpos frágeis, mas a deformação cubista diz-nos algo novo: a representação já não precisa de reproduzir fielmente a aparência física.
Ainda no século XX, o artista britânico nascido na Alemanha em 1922 ficou conhecido por ser um dos pintores figurativos expressionistas mais importantes do século XX. Os seus retratos valorizam os pormenores minuciosos e resultam numa intensidade brutal destacando imperfeições e vulnerabilidades dos indivíduos retratados.

Se fizermos um exercício de síntese, percebemos que ao longo do tempo a representação da velhice nunca foi apenas uma questão de rugas, corpos frágeis ou cabelos brancos. Cada época projectou nos velhos os valores, receios e contradições existentes. Entre símbolo de sabedoria e autoridade, testemunho da passagem do tempo, figura grotesca ou marginalizada, vítima da pobreza e da solidão, mas também indivíduo portador de uma história, de uma memória e de uma dignidade próprias, a velhice foi sendo trabalhada de forma tão díspar quanto a evolução da cultura e das mentalidades tem inspirado. Por isso e porque a arte espelha a sociedade contemporânea do artista, observar os rostos envelhecidos que os pintores nos deixaram é também entender a forma como cada sociedade se relacionou com o tempo, com a fragilidade e com a própria ideia de futuro. Porque afinal envelhecer não é uma experiência simples presa a uma imagem fixa, mas uma condição humana que a arte continua, felizmente, a interrogar.
Paula Timóteo

