Na atomosfera m

No passado dia 21 de outubro o atmosfera m Lisboa inaugurou a exposição Pequeno Teatro da Condição Humana, de Amaro della Quercia, com curadoria de Paulo Azenha. A mostra, que estará patente até ao dia 19 de Novembro, reúne um conjunto significativo de obras de Amaro della Quercia que trazem o seu olhar reflexivo e singular sobre a humanidade. Uma humanidade que, por vezes, se revela tão despojada de sentido e perdida de si. Num tempo em que valores que nos pareciam inquebráveis e indiscutíveis são esmagados, fazendo-nos sentir numa viagem vertiginosa ao mais profundo absurdo da condição humana, os desenhos de Amaro assumem um papel poderoso como interpelações que nos inquietam.
O trabalho de Amaro nasce de um “estado de necessidade”, como nos confidenciou numa entrevista publicada no número de Dezembro de 2025. É dessa necessidade que nasce também um olhar atento, capaz de ver e escutar aquilo que tantas vezes passa despercebido.
O desenho tornou-se, para Amaro, uma linguagem privilegiada para explorar e revelar a condição humana e não terá sido por acaso que escolheu como título para a exposição Pequeno Teatro da Condição Humana. Derivado da palavra grega theatron que significa “local onde se vê” ou “lugar para olhar” teatro é, assim, um espaço e tempo de revelação de narrativas e personagens e onde a realidade se entrelaça com a ficção e a mentira com a verdade. E Amaro della Quercia traduz através dos desenhos o que a humanidade é sem máscaras nem contornos aperfeiçoados.
Natural de Vila Nova de Famalicão, Amaro della Quercia frequentou o curso de Artes Plásticas no AR.CO (Centro de Arte e Comunicação Visual), em Lisboa, tendo concluído a licenciatura em História da Arte na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. A sua já longa caminhada artística inclui a participação em numerosas exposições individuais e coletivas, realizadas tanto em Portugal como noutros países, entre os quais Itália, Países Baixos, Chipre e Macedónia do Norte. Em 2023, recebeu o Prémio Osten, no âmbito da Bienal Osten de Desenho, em Skopje, pela obra Nómadas, que passou a integrar a colecção da Galeria Nacional da Macedónia do Norte.
Na exposição que agora pode ser visitada, o desenho assume-se, como é habitual na assinatura artística de Amaro, como meio de exploração da experiência humana, dando forma a figuras e situações que evocam a memória, a passagem do tempo e a complexidade das relações entre as pessoas. A forte expressividade das imagens acaba por despoletar de forma imediata e inevitável uma ligação com o observador, convidando-o a reconhecer e a interrogar dimensões universais da existência humana.
Até ao dia 19 de Novembro e nos dias úteis, das 9h às 18h, o atmosfera m Lisboa é um espaço onde podemos esquecer um pouco a embriaguez dos dias corridos e vivenciarmos uma experiência espiritual de interrogação e encontro connosco. E porque a espiritualidade não tem contrato exclusivo com nenhuma religião nem lugar cativo nas igrejas, ali, ao contemplarmos os desenhos que Amaro nos oferece, podemos também viver uma experiência que ousamos chamar sagrada. Porque o sagrado talvez surja precisamente quando a condição humana se revela por inteiro.
Paula Timóteo

