Arquitectura I A arte de construir

Se procurarmos uma definição de arquitectura, surgir-nos-á algo como sendo “a arte e a técnica de planear, projectar e construir edifícios e espaços organizados para a vivência humana”. Desta forma, será legítimo considerar que muito antes de surgir o primeiro exemplo de um projecto arquitectónico como actualmente o concebemos, já o ser humano, de uma forma mais ou menos metódica, mais ou menos planeada mais ou menos consciente, executava projectos arquitectónicos. Desde as antas que o Homem do Neolítico erigia para acolher os seus mortos, até às pontes e edifícios da actualidade que desafiam a imaginação e os limites do possível, a humanidade foi construindo moradas de deuses e dos homens, lugares de poder e diversão, espaços públicos ou privados mudando a paisagem de cidades e vilas para sempre.

A história da arquitectura é, em larga medida, a história da forma como os seres humanos aprenderam a construir o espaço em que vivem. E mesmo antes de ser uma questão de estilos e cumprimento de ordens e desejos, a construção nasceu da necessidade de abrigo, de defesa e de organização da vida colectiva. Mas cedo ultrapassou a resposta às necessidades elementares porque construir passou também a significar representar o poder, celebrar o sagrado, afirmar uma identidade, organizar o território e criar lugares capazes de permanecerem na memória.

E podemos mesmo ter a convicção que ao longo da História sempre se construiu com objectivos claros. com base no conhecimento existente e usando os materiais disponíveis.

Será preciso chegar ao século I a.C para, de forma mais formal, nascer o conceito académico de arquitectura. Vitrúvio, considerado o “pai” da arquitectura ocidental, escrevia então De architectura, uma obra dividida em 10 livros dedicada a César Augusto e o único tratado sobre arquitectura da Antiguidade clássica a sobreviver integralmente até aos dias de hoje.

De architectura, Vitrúvio

Arquitecto, engenheiro militar e escritor, Vitrúvio defendia no seu tratado que uma boa construção deveria cumprir 3 requisitos: solidez, utilidade e beleza no que ficou conhecido como “A Tríade Vitruviana”. Para que os objectivos de uma boa construção fossem cumpridos, ainda de acordo com a tese de Vitrúvio, o arquitecto deveria dominar uma vasta panóplia de conhecimentos desde a geometria e a História até à astronomia e passando necessariamente pela música, certamente para poder responder às questões acústicas. Mas os conhecimentos do arquitecto deveriam ainda abranger a filosofia, medicina, direito, astronomia e, claro, as técnicas e materiais de construção. É extraordinário que há mais de 2000 anos tenha havido este entendimento sobre o que deveria ser um arquitecto, alguém que necessitava de dominar múltiplos saberes porque só a amplitude académica o dotaria de capacidade para realizar uma obra segura, útil e bela. Três requisitos apenas para os quais concorriam tantos saberes.

Importa determo-nos um instante sobre a etimologia da palavra arquitecto porque ela ajuda a entender o papel vital que lhe é atribuído. “Arquitecto” deriva do grego antigo arkhitéktōn formado por duas palavras: arkhé que indica uma posição de liderança considerando que o prefixo significa “princípio”, “origem” ou “aquilo que está à frente” e téktōn ou seja, “artífice” ou “construtor”.  Arkhitéktōn significava, portanto e literalmente algo próximo de “mestre construtor” ou “aquele que dirige os artífices”. A palavra irá latinizar-se e surge architectus que, por sua vez, deu origem ao português arquitecto e, consequentemente, surgiu a palavra arquitectura.

Assim, encontramos na origem da palavra a ideia de que o arquitecto não é simplesmente aquele que constrói, mas também e sobretudo aquele que concebe e dirige a construção o que parece ficar bastante evidente com Vitrúvio.

Apesar deste entendimento, não se julgue que o arquitecto era considerado um profissional de forma similar ao que é actualmente. Durante grande parte da Idade Média, a separação entre arquitecto, construtor, mestre de obras, escultor e outros artífices nem era clara nem correspondia àquilo que hoje entendemos por profissões perfeitamente delimitadas.

É sobretudo a partir do Renascimento que o arquitecto começa a adquirir uma identidade profissional mais próxima da actual. A arquitectura passa progressivamente a ser entendida como uma actividade intelectual, baseada no desenho, na teoria, na geometria e no conhecimento da Antiguidade clássica.

Nesta altura evidencia-se uma figura decisiva: Leon Battista Alberti. No seu tratado  De re aedificatoria, Alberti defendeu uma distinção entre o arquitecto e o simples executor material da obra. De acordo com Alberti, o arquitecto seria aquele que, através do desenho e da reflexão, conseguia conceber a obra antes da sua execução e esta nuance não é subtil e de menor importância porque inicia uma transformação muito importante: o arquitecto passa de mestre que dirige a construção a autor que concebe intelectualmente o edifício.

Com o Iluminismo do século XVIII, a razão torna-se no principal caminho para o progresso humano abrindo caminho para o prodigioso século XIX. A humanidade vive então duas centúrias marcadas pelo desenvolvimento das academias, da engenharia, da arqueologia e das novas técnicas construtivas e a arquitectura  torna-se progressivamente numa arte mais especializada. A Revolução Industrial introduz novos materiais, sobretudo ferro, aço, vidro e, mais tarde, betão armado, e modifica profundamente a relação entre arquitectura, engenharia e construção. É a época da arquitectura do ferro e do vidro.

Quando chegamos ao século XX, percebemos que o arquitecto passa a desempenhar papéis cruciais quer na concepção de edifícios, quer na integração destes numa malha urbanística onde também ele terá intervenção. A arquitectura deixa por isso de se ocupar exclusivamente de edifícios isolados e passa a intervir na cidade, no espaço público e na organização do território. O arquitecto pode ainda ser, além de autor de edifícios, um urbanista, investigador, teórico, desenhador de interiores ou coordenador de equipas multidisciplinares.

O Bairro da Encarnação em Lisboa, concebido pelo arquitecto Paulino Montez na década de 1940, com a sua forma de borboleta e pensado como uma aldeia dentro do tecido urbano da capital onde todos os serviços, necessidades básicas estavam garantidas além dos espaços verdes, é um excelente exemplo.

Planta do Bairro da Encarnação (1940/1946)

Há, portanto, uma espécie de fio condutor na história da profissão: o arquitecto nasceu linguisticamente como “chefe dos construtores”, evoluindo no Renascimento para o intelectual que concebe a obra e chega à contemporaneidade como profissional que articula técnica, ciência, arte, sociedade e território. Talvez nunca tenha deixado de ser o homem que Vitrúvio defendeu como sendo “o arquitecto ideal”.

Podemos, pois, também concluir que a arquitectura, desde que a identificamos como tal, não é uma mera execução construtiva visando objectivos de resposta a necessidades imediatas de protecção e acolhimento. A partir da Antiguidade reconhece-se um papel bem mais complexo e amplo ao mentor de um projecto de construção. O arquitecto imagina, desenha e dirige a construção, reunindo conhecimentos que atravessavam a matemática, a técnica, a arte e a filosofia. Ao longo dos séculos, esta função foi-se transformando: do arkhitéktōn grego ao arquitecto humanista do Renascimento e ao profissional contemporâneo, a arquitectura manteve, contudo, um traço definidor e transversal no tempo: o de conseguir transformar uma ideia num lugar construído.

E as ideias que o arquitecto concretiza nas suas obras florescem, sem dúvida, das suas vivências que o contexto em que vive lhe proporciona. As grandes transformações das sociedades operam mudanças na forma como se constrói bem como o desenvolvimento de técnicas, surgimento de novos materiais e alterações nas condições económicas. Mas o impacto na forma como se idealizam edifícios e se organizam cidades, resulta igualmente das crenças religiosas, das formas de organização política e das relações com outros povos. Portugal não constitui uma excepção. Pelo contrário, a sua posição geográfica e a sua História fizeram do território português um espaço de encontro de influências, no qual modelos vindos de outros lugares foram sucessivamente assimilados, transformados e adaptados às condições locais.

As primeiras manifestações arquitectónicas no território que hoje corresponde a Portugal remontam à Pré-História. Antas, menires e outros monumentos megalíticos testemunham comunidades capazes de se organizar em comunidade e atribuir ao espaço construído funções que ultrapassavam a habitação. A monumentalidade surge aqui ligada à morte, à memória e ao ritual.

Mais tarde, os povoados fortificados, particularmente os castros do Norte e do Centro, revelam outras formas de organização do território e de defesa. Mas seria a presença romana que a arquitectura passou a integrar-se numa concepção mais ampla de cidade e de território: ruas, praças, edifícios públicos, termas, teatros, pontes, aquedutos e villas testemunham uma cultura construtiva altamente desenvolvida.

A romanização não deixou apenas edifícios. Deixou uma maneira de pensar a cidade. A arquitectura tornou-se parte de uma organização política, económica e social do território.

Com a formação do reino de Portugal, a arquitectura medieval assumiu um papel central na organização do território. O Românico, particularmente associado aos séculos XI e XII, desenvolveu-se num contexto marcado pela expansão cristã e pela consolidação das estruturas políticas e religiosas. Igrejas e mosteiros eram simultaneamente lugares de culto, centros de poder, de cultura e de organização económica.

A partir especialmente do século XIV, com a pacificação num território liberto das guerras da reconquista, o Gótico pôde elevar paredes, abrir os espaços sagrados à entrada da luz e introduzir uma transformação profunda na relação entre estrutura e espaço e cor através das suas belas rosáceas coloridas. Os vitrais são, aliás, elemento essencial permitindo uma Experiência Mística única quando a luz do sol atravessa os vidros coloridos criando um ambiente que simboliza a presença de Deus e a visão do Paraíso.

Em Portugal, o Mosteiro de Alcobaça constitui um dos exemplos mais importantes da introdução da arquitectura gótica, enquanto o Mosteiro de Santa Maria da Vitória, mais conhecido como mosteiro da Batalha, iniciado em 1388, testemunha a maturação de um gótico de extraordinária complexidade.

Mosteiro de Santa Maria da Vitória

Nos séculos XV e XVI, Portugal viveu o período extraordinário da Expansão marítima que o colocou em contacto com territórios e culturas muito diversos.

É neste contexto que se desenvolve aquilo que viria a ser designado por Manuelino. Mais do que uma simples variante portuguesa do Gótico tardio, ou uma versão do Renascimento italiano, esta linguagem incorpora elementos arquitectónicos e decorativos associados à expansão marítima e à simbologia da monarquia de D. Manuel I.

Durante os séculos XVI e XVII, a arquitectura portuguesa aproximou-se progressivamente do barroco europeu, embora nunca abandonasse por completo as tradições construtivas locais. A arquitectura religiosa tornou-se particularmente exuberante. A pedra coabitava harmoniosamente com a talha dourada, o azulejo, a pintura e a escultura, criando interiores em que diferentes artes concorriam para produzir uma experiência unitária. O edifício deixava de ser apenas estrutura: tornava-se cenário.

O reinado de D. João V levou esta ambição a uma escala excepcional. O Palácio-Convento de Mafra, cuja construção começou em 1717, constitui a manifestação mais grandiosa desse programa de representação do poder régio. A arquitectura funcionava aqui simultaneamente como espaço religioso, residência, monumento político e demonstração de riqueza.

Após a  tragédia de 1755 a reconstrução conduzida sob a orientação de Sebastião José de Carvalho e Melo, futuro Marquês de Pombal, e de engenheiros e arquitectos como Manuel da Maia, Eugénio dos Santos e Carlos Mardel, constituiu uma das grandes experiências urbanísticas europeias do século XVIII e trouxe consigo os ecos do Iluminismo.

O século XIX introduziu novas contradições. Por um lado, o Neoclassicismo procurava recuperar a ordem e a racionalidade da arquitectura clássica por outro, o Romantismo desenvolveu um gosto crescente pela História, pelo pitoresco e pela evocação de épocas anteriores.

Surgiram por isso numerosos revivalismos ao mesmo tempo que a Revolução Industrial transformava radicalmente os processos de construção. O ferro e, posteriormente, o aço e o betão permitiram vencer maiores vãos e conceber estruturas que anteriormente seriam difíceis ou impossíveis.

O extinto Palácio de Cristal no Porto

As estações ferroviárias, os mercados, os pavilhões de exposições e as novas estruturas urbanas deram expressão a uma sociedade em transformação. As principais cidades, Lisboa e Porto, cresceram muito e tiveram de criar respostas urbanas tanto para o crescimento demográfico, como também ao desenvolvimento de actividades económicas. Abriram-se novas avenidas e surgiram equipamentos associados à modernização económica e social.

É neste período que se torna especialmente evidente uma tensão que atravessará toda a arquitectura dos séculos XIX e XX: deverá a arquitectura olhar para o passado ou inventar uma linguagem inteiramente nova?

No início do século XX, a arquitectura portuguesa participa de um debate  interessante sobre os desafios colocados à arquitectura moderna. Deveria o arquitecto olhar permanentemente para o passado ou antes procurar uma narrativa absolutamente nova? A sociedade urbana que não parava de crescer e o cada vez mais veloz progresso industrial impunha um ritmo e soluções diferentes, mas a questão da identidade nacional permanecia como questão fortemente assumida.

É neste contexto que surge Raul Lino, a que dedicámos neste número um artigo e cuja obra deve ser entendida como um diálogo e uma fusão muito interessante entre o moderno e a tradição.

Entretanto, o Movimento Moderno ganhava força. Arquitectos como Porfírio Pardal Monteiro, Cassiano Branco, Cottinelli Telmo, Carlos Ramos e, posteriormente, Francisco Keil do Amaral contribuíram para a renovação da linguagem arquitectónica portuguesa. A arquitectura passou a explorar mais abertamente a funcionalidade, as novas técnicas, a simplificação formal e as necessidades da cidade moderna.

A partir de meados do século XX, a arquitectura portuguesa encontrou uma via própria dentro do movimento moderno estabelecendo um diálogo umbilical com o lugar num sentido mais amplo que tem em linha de conta a presença humana, a  luz e o contexto comunitário.

Na arquitectura contemporânea portuguesa a diversidade de linguagens amplificou-se e os desafios colocados aos arquitectos também sofreram uma mudança já que hoje  a ideia da recuperação de edifícios existentes, a necessidade de preparar as cidades para as exigências de uma população em constante movimento, ganhou adeptos que procuram igualmente respostas para as crises de habitação, o envelhecimento dos centros históricos, além da sustentabilidade dos materiais e da energia, na relação entre construção e alterações climáticas.

Ao longo da sua história, a arquitectura nunca viveu isolada e o caso português não é excepção. A riqueza dos lugares construídos deriva exactamente da incorporação de outras narrativas, olhares e sentires diferentes que outras culturas e povos diferenciados nos têm delegado. Saibamos nunca esquecer que a arquitectura deve alcançar o equilíbrio entre a beleza, a funcionalidade, o respeito pelo espaço e ambiente envolvente garantindo a acessibilidade a que as pessoas, para quem se constrói devem sempre ter direito.

Construir é sempre acrescentar alguma coisa ao mundo que já existe. E toda a arquitectura, mesmo a mais contemporânea, começa por enfrentar uma pergunta que atravessa o longo caminho da Humanidade: que espaço desejamos construir para acolher a vida que nele habitará?

                                                                                                                                                                Paula Timóteo


Paula Timóteo

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