Educação I O lugar onde se estuda, importa?

macbook pro on white wooden desk

Neste número em que damos destaque à arquitectura e onde, no artigo sobre Raul Lino, se abordou a arquitectura escolar, faz sentido reflectirmos sobre a importância do espaço físico onde o estudo individual se realiza ou o momento lectivo se desenrola. Existem diversas investigações nas áreas da psicologia ambiental, arquitectura escolar e ciências da aprendizagem que convergem na ideia de que não existe propriamente uma fórmula para a concepção de um lugar ideal para estudar havendo antes recomendações sobre as características do espaço que podem facilitar ou dificultar a atenção, a memória, o envolvimento e, em certas condições, o desempenho académico.

Quando falamos das características de um lugar não nos referimos apenas às questões de organização do espaço, mas a todo um amplo leque de particularidades promotoras de um eficaz trabalho intelectual. Neste âmbito, podemos começar pela importância do silêncio que é sempre factor relevante mas polémico porque há quem estude melhor em ambientes com música ou com pessoas a falar e a circular e até há quem necessite de estar rodeado de bastante barulho para conseguir um melhor nível de concentração enquanto outros exigem absoluto silêncio para se poderem concentrar. Estas disparidades só comprovam que não existem receitas únicas nem recomendações universais sobre o que melhor possa favorecer o estudo. Porém e quando falamos sobre momentos de leccionação, que é a operacionalização do processo de ensino aprendizagem, a questão do silêncio surge como ainda mais melindrosa a começar pelo próprio conceito que não deve ser literal. De facto, numa aula não há silêncio. O que deve existir é um ambiente tranquilo propício à escuta atenta e diálogo frutuoso.

O bom senso diz e os estudos científicos comprovam que o ambiente acústico dos espaços de aprendizagem é determinante para a eficiência e eficácia da aprendizagem. O efeito negativo aumenta quando o nível sonoro ultrapassa determinados níveis, salvo as excepções que já referimos. Por outro lado, uma sala com má acústica, fruto de uma errada construção especialmente quanto à escolha de materiais, compromete a audição inviabilizando o processo de ensino/aprendizagem.

Um grupo de investigadores do Instituto Tecnológico y de Estudios Superiores de Monterrey, no México realizou uma experiência para perceber o efeito do ruído na concentração e realização de tarefas que exijam esforço intelectual. Nesse estudo foram envolvidos 16 estudantes com idades entre os 19 e os 25 anos divididos em 4 grupos a quem foi pedida a tarefa colaborativa de montar um puzzle de 300 peças. Os participantes apresentaram um desempenho cerca de 4% superior quando realizaram a tarefa em silêncio relativamente à mesma tarefa realizada com ruído ambiental de 75 dBA, reproduzido a partir de gravações do Learning Commons [i]

O ruído esteve ainda associado a alterações fisiológicas e a uma redução de recursos mentais. Sendo um estudo muito pequeno com apenas 16 estudantes não pode ser, obviamente, generalizado, mas o resultado é bastante interessante embora, convenhamos, nada surpreendente. De facto, para tarefas que exigem concentração profunda como ler, escrever, memorizar, resolver problemas, parece consensual que um lugar silencioso ou com pouco ruído e sem sobressaltos imprevisíveis, parece ser uma escolha vantajosa.

Mas se a existência ou não de ruído parece ter um impacto evidente na actividade intelectual, há outros factores que devem ser tidos em linha de conta e para os quais a forma como o edifício foi construído tem influência. Falamos da temperatura e luminosidade. O ambiente interior pode ser descrito de acordo com vários elementos como a qualidade do ar, temperatura, acústica e iluminação e todos eles têm repercussões na aprendizagem e desempenho académico, sobretudo a curto prazo. Há estudos que demonstram que de acordo com as tarefas envolvidas há condições com maior impacto que outras. Por exemplo, para ler, pode ser importante uma iluminação confortável e sem reflexos enquanto para uma tarefa prolongada, a temperatura e a qualidade do ar tornam-se mais relevantes. Já para ouvir uma explicação, a acústica ganha especial importância. Ou seja, o melhor lugar depende também do que se vai fazer. Ora todos estes factores podem ser ajustáveis permitindo mais e melhor iluminação ou temperatura mais adequada, mas a forma como se construiu o edifício determinará uma melhor premissa permitindo uma gestão dos recursos naturais mais racional restringindo a necessidade de recorrer à iluminação artificial e o uso de ar condicionado. Lembrando Raul Lino, que defendia a ideia de um conhecimento profundo do lugar onde iria surgir o projecto bem como dos materiais existentes, a orientação das salas e o uso de materiais com melhor eficiência energética e acústica devem ser preocupações prioritárias que se devem sobrepor a arrojados exercícios de desenho arquitectónico. Todos nos lembramos das escolas que se construíram nos anos 70 e 80 para fazer face à explosão demográfica de alunos. Estas escolas que seguiram um modelo de pavilhões separados foram alvo de duras críticas em virtude da sua pouca adequação ao clima e ganharam a reputação de serem “verdadeiras geleiras no inverno e autênticas estufas no verão”. O desenho destas escolas, sendo a E.B 2,3 Fernando Pessoa nos Olivais um exemplo, falhou gravemente na adequação climática por vários factores técnicos e estruturais, erros que foram cometidos porque não se teve o cuidado de estudar previamente as condições específicas de cada região.

Em casa, quando o estudo é realizado fora do contexto escolar e académico, o lugar onde se realiza o trabalho intelectual é determinado pelas contingências familiares, mas dentro do que a habitação oferece e a dimensão da família permite deve ser escolhido um recanto tranquilo, sendo que a tranquilidade num espaço exíguo e partilhado é uma questão que exige a colaboração e compreensão de todos. O lugar onde o estudante se senta deve também ser confortável, mas que não seja convidativo à indolência, bem iluminado, sem distrações para o exterior e com temperatura adequada, dentro do que for possível.

Em suma, o espaço onde se realiza uma tarefa que exige esforço intelectual deve cumprir requisitos ambientais favoráveis porque o cérebro necessita de recursos contextuais certos para poder alcançar a eficiência desejável. Tal como quando praticamos desporto devemos escolher o equipamento adequado ao esfoço e tipo de exercícios que vamos realizar assim também devemos criar ou escolher um espaço apropriado ao esforço intelectual que vamos executar. Em todo o caso, a escolha do lugar de estudo dependerá muito das características de cada pessoa porque os requisitos ideais não têm força de lei nem obedecem a regras impostas de igual forma para todos. Principalmente ao nível universitário encontramos muitos estudantes a preferirem estudar em casa e outros a escolher a universidade, uma biblioteca ou mesmo um café para o efeito.

O aspecto fundamental parece ser a adequação entre as características do espaço, as características da tarefa e da própria pessoa.

Regressando ao contexto escolar especificamente à sala de aula é comum no ensino básico, especialmente no 1º e 2º ciclos, surgirem pedidos de pais que querem que os filhos se posicionem nas carteiras da frente, o mais próximo possível do professor. A organização dos grupos/turma é um dos aspectos que tem merecido mais atenção por parte dos professores que, independentemente dos pedidos, vão reajustando a distribuição dos alunos nas salas ao longo do ano tentando resolver ou atenuar problemas diagnosticados ao nível do comportamento. Mas será que a posição dentro da sala também pode fazer diferença na aprendizagem dos alunos?

Um estudo publicado na Journal of Environmental Psychology, com 407 estudantes universitários, acompanhou a posição que estes ocupavam numa grande sala de aula ao longo de um semestre. Verificou-se que os estudantes que se sentavam habitualmente atrás apresentavam menor atenção, menor envolvimento, uma experiência menos positiva da aula e, em média, classificações mais desfavoráveis que resultavam, certamente e de acordo com os investigadores, da fraca atenção.

Outro estudo, bastante maior, analisou 1364 estudantes em cinco disciplinas de Psicologia e encontrou uma diminuição média de 0,75 pontos percentuais na classificação por cada fila adicional de distância do professor.

Apesar das conclusões interessantes que nos parecem indicar uma conclusão óbvia, o que é certo é que os dados não nos devem fazer concluir de forma linear que sentar-se na primeira fila garante melhores avaliações. Simplesmente porque é possível que alunos mais motivados escolham lugares mais próximos do professor.

Em todo o caso, o que também tem sido concluído pelos estudos realizados é que os factores ambientais, incluindo o campo visual circundante, independentemente dos seus efeitos imediatos ou significativos no sucesso académico, exercem impacto na melhoria das condições psicológicas que permitem aprender.

Perante um insucesso académico, seja ele no 1º ciclo ou no ensino superior, é imperioso analisar todas as razões que a ele conduziram. E, ao invés de imputar as culpa no professor que “não explicou bem” talvez valha a pena analisar de que forma foi realizado o estudo. Que metodologia aplicada, tempo dedicado e regularidade, certamente, mas também o lugar onde se estudou e em que circunstâncias ambientais.


[i] Espaço Comum de Aprendizagem da biblioteca da instituição que traduz um conceito diferente de biblioteca como um espaço onde se estuda em grupo com acesso a dispositivos digitais, quadros interativos, ferramentas para gravação de aulas.

                                                                                                          Paula Timóteo

[1] Espaço Comum de Aprendizagem da biblioteca da instituição que traduz um conceito diferente de biblioteca como um espaço onde se estuda em grupo com acesso a dispositivos digitais, quadros interativos, ferramentas para gravação de aulas.

Paula Timóteo

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *