Raul Lino I A arquitectura entre a razão e a beleza

Em Novembro de 1879 nasce em Lisboa Raul Lino considerado o arquitecto da “casa portuguesa” uma casa de alpendre solarengo e beirais de telhas que nos lembram as ondas de um oceano vizinho, lugares de luz imensa e varandas com as suas pedras de cantaria e janelas debruçadas sobre o mundo. Importa, no entanto, conhecer o trajecto de Raul Lino para que não se caia na tentação redutora de o colar apenas ao desenho de um determinado tipo de casa porque de facto não concebeu um género único de casa portuguesa porque nunca foi essa a sua. O pensamento de Lino é bem mais sofisticado do que a caricatura de arquitecto das “casinhas portuguesas com beirais e azulejos”. O arquitecto que sempre procurou integrar as características da arquitectura tradicional portuguesa na construção moderna tinha uma perspectiva funcional e uma permanente preocupação com a adequação da construção a uma série de variáveis e condicionalismos. O conhecimento do clima e da paisagem circundante bem como dos materiais locais eram questões que tinha em linha de conta quando projectava um edifício. Por exemplo, na casa “portuguesa” o alpendre não está ali apenas para parecer português, ele tem a função de garantir da melhor forma o momento tão apreciado pelos portugueses de fruição do lado de fora da casa, do exercício da contemplação sentindo o fresco do exterior, mas protegidos da chuva e do sol. Já a orientação das varandas procurava tirar o melhor partido da paisagem.

Raul Lino foi um arquitecto capaz de tecer o difícil diálogo entre tradição e modernidade, arquitectura e natureza, funcionalidade e beleza, identidade nacional e influências estrangeiras não se confinando à arquitectura habitacional. Como um artesão das linhas e da cultura, do gosto estético e da procura de uma lógica funcional, assim Lino tecia as múltiplas e diferentes traços com que construía uma obra e foram cerca de 700 os projectos da sua responsabilidade ao longo de 70 anos de actividade. Para ele tudo o que envolvesse e se relacionasse com um edifício importava e por isso entrava obrigatoriamente na equação arquitectónica. Talvez por isso ele tenha dominado saberes tão diversos como a arquitectura, a ilustração, a cenografia e a escrita.

Raul Lino da Silva morreu a 13 de Julho de 1974, na cidade onde nascera. Viveu, portanto, grande parte do século XX português acompanhando convulsões políticas, sociais e económicas determinantes na História recente de Portugal. Proveniente de uma família da burguesia comercial abastada teve a sorte de beneficiar de uma educação académica fora de portas e em contacto com professores e movimentos inspiradores. O pai, José Lino da Silva, era proprietário de uma reputada casa de materiais de construção e este facto terá tido certamente influência no percurso profissional do filho. O próprio Raul Lino recordaria que fora o pai, homem que descrevia como “prático”, quem decidira enviá-lo para Inglaterra e, depois, para a Alemanha, com o propósito de lhe proporcionar uma formação que pudesse também relacionar-se com o negócio familiar. Quando Lino adjectivava o pai como “prático” estava a valorizá-lo não apenas como alguém que lhe proporcionara uma educação privilegiada, mas como tendo sido um pai que lhe transmitira uma atitude muito particular perante a construção rejeitando-a como uma criação abstracta e assumindo-a antes como um processo que tinha de ser encarado de forma holística prestando atenção a todas as variáveis. Construir um edifício era algo concreto que visava objectivos funcionais envolvendo uma malha de recursos materiais e humanos que importava avaliar do ponto de vista de custos e execução.

É assim muito provável que a influência paterna tenha contribuído para fomentar o interesse de Raul Lino pelos materiais e pela construção real, não se limitando apenas ao desenho porque a ideia não era apenas a criação de um texto arquitectónico como mero exercício técnico ou de demonstração pretensiosa de virtuosismo.

A relação de Raul Lino com a construção começou de facto muito antes da arquitectura porque cresceu num ambiente onde os materiais, as técnicas e o próprio acto de construir faziam parte da realidade quotidiana da família. Fruto da capacidade económica da família, em 1890, com apenas 10 anos, Raul Lino, acompanhado pelo seu irmão dois anos mais velho, foi enviado para Inglaterra, onde estudou num colégio nos arredores de Windsor. Em 1893 partiu para a Alemanha, frequentando a Handwerker und Kunstgewerbeschule e a Technische Hochschule de Hanôver. A 1ª instituição era uma escola de Escola de Artes e Ofícios ligada à renovação do ensino artístico que a Alemanha conheceu nas últimas décadas do século XIX. O seu objectivo era aproximar várias vertentes artísticas formando profissionais capazes de aplicar princípios estéticos ao mundo utilitário.

Quanto à Technische Hochschule de Hanôver tratava-se de um Instituto Superior Técnico destinado à formação de engenheiros e arquitectos e que antecedeu a actual Leibniz Universität Hannover.

Simultaneamente, Raul Lino trabalhou no atelier de Albrecht Haupt, arquitecto e historiador alemão que se dedicara profundamente ao estudo da arquitectura portuguesa do Renascimento. Uma experiência que foi essencial na definição do perfil profissional de Lino porque Haupt não lhe ensinou apenas arquitectura, ensinou-o a olhar para Portugal com um olhar atento e capaz de mobilizar ferramentas do passado numa reinterpretação actualizada. A sua influência ajudou Lino a compreender a arquitectura portuguesa como um património que podia ser estudado e reinventado e que não devia ser encarado apenas como um conjunto de edifícios antigos, mas como uma tradição que podia fornecer princípios inspiradores para uma arquitectura contemporânea.

Haupt foi certamente uma influência intelectual determinante e não deixa de ser interessante o facto de Raul Lino ter redescoberto uma parte de Portugal através do olhar de um alemão. Uma curiosidade biográfica que acabará por se repercutir no seu trajecto profissional tornando-o num acérrimo defensor de uma arquitectura portuguesa apesar de se ter formado fora de Portugal.

Mas a proximidade com Haupt esteve longe de ser a única influência com impacto na alma criativa de Raul Lino. O percurso inglês e alemão colocou o arquitecto em contacto com o movimento Arts and Crafts. nomeadamente através da sua passagem pelas escolas alemãs que já referimos. O movimento, que havia surgido na Grã-Bretanha, na segunda metade do século XIX, defendia a valorização do trabalho artesanal, a qualidade dos objectos de uso quotidiano e a aproximação entre arte, desenho e produção numa articulação que permitisse uma maior integração entre o edifícado e a vida quotidiana. Esta concepção de arte nasce de uma contestação à degradação estética e social que se considerava ter ocorrido com a industrialização.

E uma das características fundamentais da arquitectura de Lino é precisamente a convicção de que a casa não deve ser apenas considerada como um edifício nu e cru, algo feito para gáudio egocêntrico do arquitecto. Para Lino cada edifício possui uma existência tentacular e diversa, um lugar de acolhimento, de vida e história integrado num espaço específico e nenhum destes factores pode ser ignorado. Por isso, as suas preocupações começavam com a implantação no terreno e a orientação solar para se estender depois aos materiais de construção, o mobiliário, os azulejos, os pormenores como as ferragens e os móveis, as lareiras, os espaços de transição, os jardins e a relação entre interior e exterior. Tudo era importante e tudo devia funcionar como uma orquestra pronta a executar uma sinfonia.

Um estudo académico sobre a Casa Max Abecassis interpreta justamente esta concepção como uma procura da “obra de arte total”, articulando território, arquitectura e artes decorativas. E a casa do Penedo em Sintra construída sobre um penedo e utilizando a rocha como alicerce, desenvolvendo-se ao longo de 6.245 m2 de terreno e 1.250 m2 de construção, é um exemplo belíssimo da forma engenhosa e criativa como Lino integrou o palacete no terreno tirando partido da paisagem que se estende diante das suas mais de 100 janelas estrategicamente posicionadas para aproveitar a luz natural e uma varanda que oferece uma vista panorâmica de 180° sobre a serra, a vila histórica e o Oceano Atlântico.

A casa do Penedo, construída na década de 1920

 Outra influência exercida sobre Raul Lino e que o próprio reconheceu foi o autor estadunidense, Henry David Thoreau, particularmente a sua Magnum Opus publicada em 1854:  Walden, ou A vida nos bosques. Trata-se de uma obra que é considerada um manifesto em defesa do regresso à simplicidade num claro conflito com uma sociedade que já na altura Thoreau reconhecia numa deriva de consumismo e desperdício. Henry David Thoreau retirara-se em 1845 para a floresta onde passaria a viver com o mínimo necessário e em contacto com a natureza provando que era possível viver dessa forma. O livro Walden nasce desta experiência e da análise que o autor faz sobre o mundo moderno do final do século XIX. Em Walden, Lino reconheceu o fio condutor do que passou a ser a sua gramática arquitectónica. A defesa de uma vida mais simples, contemplativa e em comunhão com a natureza. A visão existente em Thoreau encontra um paralelo evidente na concepção de Lino da casa integrada na paisagem.

Ou seja, a arquitectura doméstica não nasce apenas nem sobretudo de uma preocupação estética ou do desejo de criar um corpus edificado que se identifique com o país. Há no trabalho de Raul Lino uma concepção filosófica sobre o que deve ser uma habitação, um lugar criado para que a vida aconteça. E habitar não pode ser apenas ter um tecto e paredes que protejam do frio, um espaço com mais ou menos divisões, organizadas de uma forma ou de outra. O lugar onde respiramos a vida com os outros e vivemos os momentos de lazer e intimidade, de partilha e silêncio tem de ser um espaço também ele com alma e coração que bata em sintonia com as pessoas que o habitam. E conseguimos, de alguma forma, reconhecer em Lino paralelismo com o pensamento filosófico de Heidegger quando este defendia que se devia construir para habitar alertando para a perda de entendimento sobre este conceito que deveria incluir dimensões psicológicas, afectivas e quotidianas.

Depois de regressar a Portugal, em 1897, Raul Lino percorreu extensamente o país, sobretudo o Alentejo, muitas vezes na companhia do seu amigo Roque Gameiro e em 1902 viajou para Marrocos. Estas viagens são fundamentais para compreender as suas primeiras casas a que a Fundação Gulbenkian chama as “casas marroquinas” como a Casa Montsalvat/Rey Colaço.

Casa Montsalvat/Rey Colaço

É interessante que o que viria a ser identificado como uma arquitectura profundamente portuguesa tivesse resultado da fusão de uma mistura de referências onde encontramos Portugal a cruzar-se com o Mediterrâneo, a falar com Marrocos enquanto bebe inspiração no movimento Arts and Crafts, visita o Renascimento português e mergulha na obra de Thoreau. Lino queria construir obras que falassem a língua portuguesa, incorporando evidências do passado, mas num discurso moderno e fiel a uma lógica construtiva de olhar holístico. Conciliar a modernidade com património e com a preocupação de um rosto nacional e funcional, eis um cruzar de caminhos que Raul Lino perseguiu.

Em 1918, Lino publica “A Nossa Casa, Apontamentos sobre o Bom Gosto na Construção das Casas Simples” que está longe de ser um manual de estilos com o próprio autor a esclarecer que não pretende fornecer um simples formulário para produzir “belas casas”, mas ensinar a apreciar o valor estético de uma habitação. O seu propósito é discutir e promover a reflexão sobre como se deve pensar uma casa e curiosamente surge logo a recomendação de não se começar pela fachada. “Nunca se comece por pensar no aspecto exterior de uma casa (…) antes de ser bem estudada a sua planta.” mas acrescenta “Não se deve, porém, fazer a planta sem estar escolhido o terreno.” A razão é que a casa deve responder à orientação, ao terreno, aos ventos, à luz, ao modo de vida dos habitantes e às condições concretas do lugar e as suas orientações evidenciam um pensamento funcional o que não é, para ele, incompatível com a beleza.

Falemos agora de duas outras obras emblemáticas. A Casa dos Patudos em Alpiarça, construída para José Relvas em 1904, é uma obra fundamental porque mostra que Lino não estava interessado em aplicar mecanicamente uma “casa portuguesa”. A casa combina diferentes referências históricas, uma organização espacial criteriosa e uma relação particularmente forte com o jardim e a paisagem. É também um excelente exemplo da relação entre arquitectura e artes decorativas.

Casa dos Patudos

Por outro lado, a Casa do Cipreste, considerada uma das obras mais importantes para compreender Lino e projectada em 1912 é uma casa relevante porque nela Raul Lino experimentou pessoalmente a sua concepção de habitar uma casa. A implantação, a vegetação, os percursos, os enquadramentos visuais, a luz e a relação entre espaços interiores e exteriores são fundamentais. A Casa do Cipreste permite perceber que para Lino a arquitectura devia servir o objectivo maior de organizar a experiência de viver num determinado lugar conciliando com a beleza.

Mas Raul Lino foi muito mais do que o arquitecto do doméstico. Quando tinha apenas 20 anos, Raul Lino apresentou um projecto ao concurso para o Pavilhão de Portugal da Exposição Universal de Paris de 1900. Apesar de não ter ganho o concurso, o projecto apresentado é bastante interessante porque Lino propôs uma arquitectura que procurava sintetizar elementos da tradição portuguesa com a linguagem do Arts and Crafts. Um estudo académico considera-o mesmo uma espécie de primeira formulação da ideia de uma modernidade portuguesa construída não através da ruptura com a tradição, mas através da sua continuidade.

Raul Lino é ainda associado à idealização das escolas do Estado Novo o que peca por não corresponder inteiramente à realidade. Na verdade, Raul Lino já havia construído um longo portefólio de arquitectura escolar muito antes do Estado Novo. Durante a I República, projectara numerosas escolas primárias e outros edifícios escolares como a conhecida Escola Primária de Alcântara construída em 1915.

Escola primária de Alcântara

Mas também os Jardins-Escolas João de Deus constituem uma parte fundamental da sua obra escolar. A defesa de um modelo de escola que valorizasse o bem-estar da criança esteve sempre presente e daí resultou uma constante preocupação com a entrada de luz, a relação com a natureza e a dimensão estética do espaço escolar. A investigação de Carlos Manique da Silva mostra precisamente o papel inovador de Raul Lino na arquitectura escolar republicana. O Estado Novo apropriou-se, de certa maneira, de uma parte dessa experiência anterior e integrou-a numa política de construção escolar muito mais sistemática. E é daqui que surgem os projectos-tipo de Raul Lino e Rogério de Azevedo, que depois serão associados às escolas construídas durante o Estado Novo e, mais tarde, ao Plano dos Centenários.

Podemos, pois, considerar com plena justeza que Raul Lino foi um dos principais mentores da arquitectura escolar portuguesa e, juntamente com Rogério de Azevedo, esteve na origem dos projectos-tipo regionalizados de escolas primárias adoptados pelo Estado Novo a partir de 1935 e que reproduzem o ideário de sempre: funcionalidade em estreita sintonia e articulação com as especificidades do local e a beleza. Mas as escolas que de forma generalizada associamos ao Estado Novo foram fruto de um investimento realizado a partir de 1940 no âmbito da comemoração do duplo centenário do início da nacionalidade e restauração da independência. Ficaram conhecidas como as Escolas dos Centenários e são descendentes directas dos projectos regionalizados de Raul Lino e Rogério de Azevedo, mas não podem ser simplesmente apelidadas como “escolas de Raul Lino”.

A maior herança de Raul Lino é exactamente a de ter defendido e concretizado a ideia de que a arquitectura não começa na fachada, nem termina nas paredes. Começa no lugar, na luz, na paisagem, nos materiais, na cultura e, sobretudo, nas pessoas que irão dar vida ao espaço. A sua obra nasceu do diálogo aparentemente paradoxal entre a valorização da tradição portuguesa e uma formação cosmopolita, entre o passado e a modernidade, entre a construção e a contemplação, entre a razão e a beleza. O trabalho de Raul Lino interpela-nos ainda hoje: é possível construir sem romper com o lugar a que pertencemos? Raul Lino procurou responder ao longo de toda a sua vida, através de centenas de projectos e de uma obra que abrangeu casas, escolas, jardins e artes decorativas. E talvez seja precisamente por ter entendido que a arquitectura não serve apenas para abrigar, mas para tornar possível uma determinada forma de habitar o mundo, que a sua obra continua, tantos anos depois, a apaixonar-nos.

Num texto publicado em 1941, “Ainda as Casas Portuguesas”, Lino fala da antiga harmonia da arquitectura portuguesa e considera que ela resultava do “bom senso”, apoiado pela educação. Lino classifica como “honestas” as casas tradicionais e é exactamente dessa forma que vemos Raul Lino: um arquitecto honesto na forma como se entregou aos projectos não fazendo deles um palco de fama e de exercício de jactância mas a concretização de um conceito de arquitectura feita por pessoas e para as pessoas.

                                                                                                                                                                Paula Timóteo


Paula Timóteo

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